CAPÍTULO 01 — AMÉLIA ANDREWS
O silêncio do meu quarto era estranho. Ecoava como despedida. O espaço, agora quase vazio, parecia não me reconhecer mais — as paredes nuas, a cama bem feita, os poucos móveis com marcas de tempo. Era como se ele soubesse que eu estava prestes a deixá-lo para trás. Suspirei, sentindo o peito apertado enquanto olhava a minha mala fechada aos pés da cama.
Nova York me aguardava. Uma nova vida, uma nova história. Mas antes disso... a última manhã em Detroit.
Desde pequena, vivi aqui com a minha mãe, Carmen, e a minha irmã mais nova, Maggie. Éramos só nós três, desde que papai se foi. Ele partiu quando Maggie ainda era muito nova e eu m*l sabia lidar com a ausência. Guardei dele as lembranças mais doces — o sorriso gentil, as covinhas que herdei, os passeios de domingo e os nossos acampamentos em família. Quando fecho os olhos, ainda consigo ouvir a sua risada misturada ao som do vento entre as árvores.
Uma voz rompeu os meus pensamentos.
— Amélia! — gritou a minha mãe lá de baixo.
Fechei a mala e dei uma última olhada no quarto que me viu crescer. O coração pesou. Cada detalhe ali contava a minha história. Respirei fundo, fechei a porta com cuidado e desci as escadas.
Na sala, Maggie estava afundada no sofá, assistindo desenho animado e comendo bolo de chocolate com os dedos sujos e os olhos brilhando.
— Irmãzinha, — murmurei, beijando a sua testa com carinho.
— Oi, Amelinha! — respondeu sorrindo, sem tirar os olhos da TV.
Sorri com ternura. Como seria acordar sem ouvir a sua risadinha pela manhã?
Fui até a cozinha. Mamãe mexia algo no fogão com aquele olhar aflito de mãe que tenta disfarçar o nervosismo com tarefas domésticas.
— Mãe. — falei, aproximando-me para beijar a sua bochecha.
Ela me olhou por um instante e forçou um sorriso.
— Está tudo pronto? Já comeu alguma coisa? Vai ter uma viagem longa, filha...
— Já, mãe. Estou morrendo de fome, na verdade.
Ela serviu panquecas com mel e suco de laranja. Sentei-me à mesa e comi com vontade, enquanto ela preparava um lanche enorme para a viagem — mesmo eu dizendo que não precisava.
— Você conhece-me, Amélia. Nunca se vai embora de barriga vazia — disse ela, empacotando tudo com cuidado exagerado.
Rimos juntas. Por fora, era só uma mãe zelosa. Por dentro, ela desmoronava — e eu também.
Algumas horas depois, estávamos no aeroporto. Carregava a minha bagagem de mão e uma bolsa com os meus itens mais pessoais. O restante já estava em Nova York, no apartamento que dividirei com a minha melhor amiga, Rossi. Já estive lá algumas vezes. Conheço o cheiro do café da padaria na esquina, a vista da sacada ao entardecer, o som constante da cidade que nunca dorme. Ainda assim, ir morar lá tornava tudo mais real — e mais assustador.
Mamãe, Maggie e eu sentamos na sala de espera. Maggie mexia no meu cabelo com os seus dedinhos pequenos e distraídos, enquanto mamãe me dava a mesma lista de recomendações pela quinta vez. Sério, quinta. Mas eu deixei. Deixei porque sabia que ela falava assim quando tentava se despedir.
— Mãe... — falei com ternura. — Eu já sei de tudo. E vou ligar assim que pousar. Prometo.
— Eu sei, querida. Mas não posso evitar... Ainda é difícil te ver partir. Venha nos visitar logo, sim?
Maggie assentia com a cabeça, séria, como se fosse parte de um pacto silencioso entre nós.
O alto-falante anunciou o meu voo.
O som fez tudo parecer mais real, mais urgente. Levantei-me e abracei mamãe, tentando conter as lágrimas que ardiam nos olhos.
— Eu te amo, mãe. Se cuida, tá?
— Amo você também, meu bem. Vai com Deus.
Abaixei-me diante de Maggie, pegando-a no colo.
— Cuida da mamãe para mim, mocinha. Obedece direitinho, hein?
— Pode deixar. Mocinhas são obedientes, respondeu com um sorriso maroto.
— São sim... Eu te amo, maninha.
Ela colocou o meu cabelo atrás da orelha e me apertou o pescoço.
— Também te amo, mana. Vai brilhar lá fora. — disse baixinho.
Era a primeira vez que a ouvia dizer isso. Guardei aquelas palavras no coração como um tesouro.
Depois do último abraço, caminhei com passos hesitantes até o portão de embarque. Olhei para trás uma última vez e vi as duas — a minha fortaleza, minha origem. A imagem delas ali, lado a lado, pequenas diante da imensidão do aeroporto, vai acompanhar-me para sempre.
— Tudo certo com os documentos. Bem-vinda a bordo, Srta. Andrews, disse a comissária com um sorriso simpático.
Segui até o portão 3. Dentro do avião, procurei o meu assento e, por sorte, era na janela. Perfeito.
Coloquei a mala de mão no compartimento e sentei-me, abraçando a minha bolsa. Peguei o meu iPod, conectei os fones e coloquei uma playlist de música clássica — Debussy, Chopin, Yiruma. Sons suaves para acalmar um coração acelerado.
O avião decolou. Olhei pela janela e vi Detroit ficando cada vez menor, até virar apenas lembrança.
Eu estava indo. Sozinha. Mas com um segredo no coração: o de que essa mudança era mais do que uma nova cidade. Era o começo de quem eu precisava tornar-me.
E no fundo... eu sabia. Algumas histórias só começam quando temos coragem de partir.
💗💗
O som abafado do anúncio ecoou pelos alto-falantes, quando acordei, ainda sonolenta, no assento do avião. Os meus olhos abriram-se devagar, e a primeira coisa que fiz foi olhar pela pequena, janela ao meu lado. Lá embaixo, entre nuvens pálidas, despontava Nova York – vibrante, imensa, um mosaico vivo de concreto e luz. Era ali que tudo começaria.
Com um nó no estômago, ajeitei a minha blusa amassada e soltei um suspiro contido. A voz do piloto informava o pouso. O meu coração apertava em antecipação, e uma parte de mim ainda tentava acreditar que aquilo era real. Nova York. Meu novo lar.
Aterrissamos suavemente. A movimentação no avião logo se tornou um pequeno caos organizado: malas sendo puxadas, passageiros se espreguiçando e trocando olhares sonolentos. Peguei a minha mochila de mão, segui pelo corredor estreito e, no terminal, fui envolvida pela agitação natural de um dos maiores aeroportos do mundo. Cores, vozes, anúncios em várias línguas – tudo parecia dançar ao meu redor.
Minha mala, por sorte, apareceu logo na esteira. Enquanto a puxava, o papel com o endereço que Rossi me mandou por e-mail escorregou da minha bolsa. O segurei como um bilhete dourado — o primeiro passo da minha nova vida.
Do lado de fora, a brisa era fria e úmida, o céu de chumbo refletia nas poças do asfalto. Levantei o braço ao ver um táxi amarelo encostado.
— Ah, senhorita deseja um táxi? — disse o motorista, um homem de barba grisalha e olhos cansados, enquanto abria a porta para mim.
— Sim, por favor. Pode-me levar a este endereço? — perguntei, estendendo o papel.
Ele assentiu com um sorriso leve. Entrei e afundei no banco, observando pela janela a cidade se desenrolar diante de mim como uma promessa. Liguei para minha mãe. A ligação foi breve, mas carregada de sentimento. Quando desliguei, peguei-me sorrindo, ainda que com os olhos um pouco marejados.
Nova York cercava-me com a sua grandiosidade: luzes piscando mesmo durante o dia, pessoas apressadas, outdoors que pareciam gritar novidades a cada esquina. Senti um arrepio de entusiasmo. Aqui, pensei, tudo pode acontecer. Os meus sonhos estavam mais próximos do que nunca.
O táxi atravessou a ponte e entrou em Manhattan. Logo chegamos ao condomínio que Rossi havia mencionado – um prédio elegante, de arquitetura moderna e linhas impecáveis. Paguei a corrida e fui recebida por um jovem porteiro que, sorridente, se ofereceu para ajudar com as malas.
Na recepção, a atendente sorriu profissionalmente ao ouvir o meu nome.
— Ah, sim, senhorita Andrews. A senhorita Nichols deixou tudo preparado para sua chegada. O apartamento já está liberado. Bem-vinda.
Subi com o ajudante de malas e observei tudo pelo caminho: um hall impecavelmente decorado, mármore claro, poltronas de couro, uma pequena fonte de água num jardim interno. Era como entrar num mundo onde tudo parecia em ordem. Apertei o botão do elevador. Ao entrar, notei que ele era maior do que muitos apartamentos que já conheci. Uma música suave tocava ao fundo, quase me acalmando.
As portas se abriram. E antes que eu pudesse pisar no corredor, fui surpreendida por um abraço súbito.
— Amélia! Meu Deus, você está aqui! — Era Rossi. Os seus braços envolveram-me com tanta força que quase perdi o fôlego.
Ela saltava de empolgação, como uma criança. Estava linda, como sempre, com os cabelos dourados esvoaçantes e um vestido de marca que combinava com a sua energia vibrante.
— Rossi! Que saudade — retribuí o abraço, rindo com emoção.
Ela ajudou com as minhas malas enquanto conversávamos animadamente. O nome na porta do apartamento me parou por um segundo: Rossi Nichols & Amélia Andrews. Meu nome ali. Um sinal de que, de fato, algo novo havia começado.
— Você está linda! — disse ela, me avaliando dos pés à cabeça.
— Eu? — olhei a minha blusa azul simples, jeans e tênis. — Estou só confortável.
— Linda e modesta — retrucou ela, piscando um olho.
O apartamento era amplo e acolhedor. A sala de estar tinha tons neutros e aconchegantes, um sofá em L coberto de almofadas claras, uma TV enorme e quadros modernos nas paredes. Rossi mostrou-me tudo com entusiasmo, como se fosse um tour VIP.
Encantei-me pelo meu quarto: decorado em vinho, com uma cama de casal e todos os móveis que eu tinha enviado previamente. Cada coisa no seu lugar. Um espaço só meu.
A cozinha era um charme à parte — e havia até um escritório reservado só para mim.
— Tirei a TV para você montar a sua mesa de trabalho aqui — disse Rossi, sorrindo com o coração.
E então eu vi a sacada.
A cidade pulsava à minha frente. As luzes, os sons abafados, os prédios tocando o céu. Encostei-me ao parapeito e respirei fundo. Nova York estava viva. E eu também.
— É seguro, devido à Maggie — murmurei, já pensando na minha irmã mais nova que viria visitar-me às vezes.
— Sim. Quando ela vier, é só trancar as grades. — disse Rossi, tranquila. — Pensei em tudo.
Mais tarde, enquanto eu organizava as roupas, ela não resistiu:
— Amélia, pelo amor… essas roupas! Você precisa de algo novo, sofisticado!
— O que tem as minhas roupas? — perguntei, fingindo indignação.
— Está a procurar emprego, certo? Então vai ter que impressionar. E o guarda-roupa é o começo!
Suspirei, mas sorri.
— Tudo bem. Você venceu.
— Já sei até a loja! — exclamou, animada. E começou a listar tecidos, marcas, tendências…
Enquanto a ouvia tagarelar, olhei em volta mais uma vez. Era real. Estava mesmo aqui. Em Nova York. Com Rossi... com esperança e com um segredo guardado no fundo do peito — um que talvez, um dia, eu tivesse coragem de revelar.