A madrugada ainda se espreguiçava por trás dos prédios altos de Manhattan quando acordei, outra vez, encharcado de suor. O pesadelo retornava com frequência — como uma sombra persistente que não se importa com os muros de concreto, com o vidro blindado ou com os milhões na conta bancária. Fechei os olhos por um instante, tentando recobrar o fôlego. Nada.
Levantei-me da cama sem acender as luzes. O chão frio do quarto me recebeu como sempre — indiferente. Peguei o moletom cinza jogado na poltrona e vesti por cima da camiseta branca amarrotada. Desci as escadas rumo à cozinha e, como um hábito cronometrado, olhei o relógio de parede: 5:40 da manhã.
A voz de Nancy, a Senhora Stony, me tirou do transe silencioso.
— Bom dia, senhor. Já preparei o seu café — disse com aquele tom maternal que me fazia lembrar da minha mãe.
— Obrigado, Nancy — murmurei, pegando a xícara fumegante. O aroma de café recém-passado sempre me trazia um fiapo de paz.
Ela me olhou com ternura disfarçada e deslizou o prato de panquecas na bancada.
— Você precisa se alimentar melhor. Dormiu m*l de novo, não é? — o seu olhar era mais certeiro do que qualquer scanner de segurança.
Não respondi. Apenas assenti com um aceno sutil e mordi um pedaço da panqueca enquanto observava o céu acinzentado de Nova York além da janela panorâmica da cobertura.
— Avise o Brown que quero vê-lo no meu escritório assim que possível — pedi.
Nancy não questionou. Sabia a hora de falar… e a de apenas cumprir.
James Brown não era apenas meu chefe de segurança. Era meu braço direito. Ex-militar. Discreto. Leal. O conheci numa reunião na base aérea quando procurei por alguém com histórico limpo e um instinto apurado. Ele presenciou uma das minhas piores crises — uma que jurei jamais deixar escapar — e, ao invés de se afastar, ficou. Nunca falou sobre. Por isso, confio nele mais do que confio em mim mesmo.
Depois do café, subi para o banho. A água quente deslizou pelas costas tensas como um alívio momentâneo, mas o peso nos ombros continuava o mesmo. Vesti a camisa azul clara, abotoando os punhos com precisão. Por cima, o paletó n***o de risca de giz, calças combinando, gravata de seda cinza. O reflexo no espelho era de um homem impecável, irrepreensível. Mas eu sabia o que havia por trás da armadura.
Ao sair, cruzei com Brown no corredor. Ele caminhava como se antecipasse cada passo do dia.
— Bom dia, senhor — disse, com a formalidade de sempre.
— Bom dia, Brown. Precisamos sair em quinze minutos. Reunião com os acionistas às sete.
— O carro estará pronto — respondeu, já desaparecendo pelo corredor.
Entrei na garagem pouco depois, onde o meu Audi A8 preto estava estacionado entre outros modelos de luxo. Discreto. Efetivo. Como eu preferia.
— Senhor — Brown estendeu a chave.
Assenti, entrando no banco de passageiro enquanto ele conduzia. Nova York ainda acordava. As luzes das avenidas cintilavam como artérias pulsantes de uma cidade que nunca dorme — e onde tudo pode mudar num piscar de olhos.
No elevador da Newton Company, o silêncio pairava entre nós. Não era constrangido, era necessário. O tipo de silêncio que organiza os pensamentos e afasta distrações. Brown conhecia esse silêncio. O outro segurança, nem tanto. O nervosismo dele era palpável.
A porta do elevador se abriu no 48.º andar e a recepcionista novata — loira, jovem, claramente despreparada para lidar comigo — corou intensamente ao ver-me passar.
— Senhor Newton, deseja algo?
— Água sem gás — respondi com simplicidade, desviando o olhar.
— Você quer alguma coisa, Brown?
— Não, senhor.
Segui para minha sala. A vista era um espetáculo — arranha-céus espelhados se erguiam como titãs e, ao fundo, o rio Hudson se movia preguiçoso. A mesa branca ocupava o centro da sala, ladeada por cadeiras pretas. Uma estante com livros e contratos dominava a parede direita. Na esquerda, uma adega discreta com vinhos raros. Nada ali era acidental.
Brown posicionou-se na sua sala de vidro ao lado, onde monitora tudo com olhos de águia.
Minutos depois, minha secretária entrou com passos firmes.
— Bom dia, senhor Newton.
— Como está a agenda de hoje?
Ela deslizou o tablet pela tela.
— A reunião das sete já está organizada. Depois disso, teremos uma análise crítica da Indústria Foxwell. Os relatórios mostram resistência ao reajuste de 7% conforme previsto no contrato, apesar do crescimento no lucro líquido. Eles alegam prejuízos operacionais, mas os números não condizem.
Suspirei, irritado. De novo, Foxwell. A empresa que salvamos da falência com 200 milhões de dólares, agora questionava o contrato que eles mesmos aceitaram.
— Merda. Será que é tão difícil encontrarem um administrador que entenda de finanças e honra? — murmurei mais para mim mesmo do que para ela.
Ela encolheu-se. Não costumo elevar o tom, mas essa situação exigia pulso firme. Eu não tolero incompetência — e menos ainda ingratidão disfarçada de negociação.
A recepcionista retornou com a água.
— Obrigado. Agora, nos dê licença — pedi educadamente, mas com firmeza. Ela saiu apressada.
Voltei o olhar para minha secretária.
— Marque uma reunião com os advogados. Hoje ainda. Se essa empresa não cumprir, acionaremos o contrato por quebra e retomaremos os ativos injetados. Não podemos abrir precedentes.
Ela assentiu e continuamos a organizar os detalhes da apresentação para os acionistas.
Enquanto falávamos, percebi que o meu corpo estava ali, mas minha mente, por algum motivo, vagava. Talvez fossem os pesadelos. Ou talvez... fosse aquela sensação incômoda de que algo estava prestes a mudar.
E eu odeio mudanças.
💗💗
Algumas manhãs em Nova York nascem silenciosas, com a cidade ainda adormecida sob o véu do concreto e das luzes artificiais. Outras, como esta, já começam em ebulição. O relógio m*l havia tocado as sete quando a minha primeira reunião foi concluída — um encontro promissor, diria. Fechei uma proposta que poderia não apenas render lucros exponenciais, mas também levar tecnologia de ponta a regiões esquecidas pela estrutura básica. Internet, saneamento inteligente, soluções energéticas. Um novo tempo. E, embora seja um excelente investimento, admito: há algo de pessoal nisso. Gosto de pensar que, de alguma forma, estou a devolver ao mundo algo daquilo que tomei — ou conquistei — com as próprias mãos.
Saí da sala envidraçada do 48.º andar com a mente ainda fervilhando de ideias. O som dos saltos da minha assistente ecoava pelos corredores, sincronizados com a minha passada firme. Mas nem todos os compromissos do dia tinham o mesmo gosto de êxito.
— Senhor Newton — disse ela, com a voz precisa e sem hesitação —, a equipe jurídica está reunida. A empresa beneficiada pela Newton Tech está, de fato, omitindo parte dos lucros. Há inconsistências nos relatórios e tentativas de burlar as cláusulas contratuais.
Parei diante da grande janela do meu escritório, observando a cidade que se estendia como um campo de batalha sob os meus pés. Carros em movimento, gente apressada, arranha-céus cortando o céu cinzento.
— Inaceitável. — a minha voz saiu baixa, controlada. — Foram salvos da falência. Reerguidos com o capital da minha companhia. Cada centavo que saiu daqui veio acompanhado de cláusulas específicas. Se pensam que podem enganar-me, estão brincando com o homem errado.
Virei-me lentamente, ajustando os punhos da camisa branca sob o terno escuro.
— Quero tudo nos mínimos detalhes. Os números. As margens. Os contratos. Invadam os dados se necessário. Eles abriram mão da privacidade quando assinaram conosco.
Ela assentiu, já digitando as ordens com precisão militar. Uma das coisas que valorizo nas pessoas que me cercam: eficiência e discrição.
— E a minha agenda?
— Reuniões finalizadas. Falta apenas assinar os papéis do projeto europeu. E... — ela hesitou por um segundo — a festa do senhor Nichols, hoje às 18h30, no iate, no porto.
Suspirei.
Claro. A festa do velho Nichols. Meu pai, que advoga para a família há décadas, mencionou isso durante um almoço no restaurante do Plaza. Insistiu para que eu fosse. “A presença da nova geração fortalece os vínculos”, ele disse com aquele ar orgulhoso de sempre. Traduzindo: não me faça passar vergonha recusando.
Já consigo ouvir a música alta, as conversas rasas, os brindes falsos e os sorrisos forçados. Um desfile de gente rica tentando parecer mais rica.
— Se eu tivesse escolha, mandava uma garrafa de vinho caro no meu lugar — murmurei, voltando a sentar-me na poltrona de couro preto. Ela riu brevemente.
— Mas estará lá?
— Estarei. O dever chama. E a política dos bastidores se faz nos jantares caros.
A rotina de um CEO não é feita apenas de grandes decisões ou contratos milionários. É também uma sequência de pequenas guerras silenciosas: manter a imagem, proteger o império, administrar o tempo entre o controle e o cansaço.
Eu administro uma das maiores empresas de tecnologia do país, acordo antes do nascer do sol, treino todos os dias às cinco, almoço em reuniões que m*l saboreio, passo mais tempo dentro de jatos executivos do que no meu próprio apartamento, e ainda assim... me cobram presença, elegância, postura. Como se o peso do mundo nos ombros viesse com dress code.
Levantei o olhar para os arranha-céus à frente. A cidade parecia tão distante dali de cima. Mas eu nasci nesse caos. Cresci aprendendo a vencer com o silêncio e a estratégia. Não sou o tipo de homem que espera ser compreendido. Sou o tipo que transforma o silêncio em vantagem, o tempo em lucro, e os sentimentos... bem, esses eu mantenho trancados. Até que alguém consiga atravessar.
Mas ninguém atravessa.
Não mais.