O primeiro dia em Nova York parecia prometer mais do que apenas um recomeço. Havia uma vibração diferente no ar — uma mistura elétrica de medo e esperança — que fazia o meu coração bater um pouco mais rápido.
Talvez fosse o barulho dos carros que nunca paravam, o cheiro de café vindo da esquina, ou o simples fato de estar finalmente aqui, respirando esse caos bonito e sonhando com um futuro que, por tanto tempo, pareceu-me impossível.
Passei a manhã desfazendo as malas no pequeno quarto que Rossi gentilmente preparou para mim. A suas coisas estavam por toda a parte, bagunçadas com charme, como se fossem parte da decoração improvisada. A cada dobra de roupa, ajeitei também um pouco do meu coração que ainda estava perdido entre o que deixei para trás e o que precisava construir aqui.
Deixei o meu currículo impresso sobre a escrivaninha, ao lado do meu caderno de anotações — onde costumo escrever quando o mundo parece pesado demais. Tenho planos de visitar algumas editoras e empresas nos próximos dias. Ainda não sei exatamente como será, mas sei o que quero: encontrar um emprego, ajudar Rossi nas despesas e mandar algum dinheiro para minha família. Eles merecem mais do que telefonemas e promessas.
Olhei pela janela do apartamento, que dava para a movimentada Lexington Avenue. Lá embaixo, Nova York seguia o seu ritmo implacável — buzinas, passos apressados, rostos anônimos com sonhos tão grandes quanto os meus. E mesmo com toda essa correria, sorri.
Sim, o começo não poderia ter sido melhor.
Apesar da tranquilidade aparente, o dia estava longe de ser calmo. Rossi corria de um lado para o outro, com o telefone na mão e o cabelo preso num coque desfeito. A mãe dela — Senhora Nichols — organizava uma festa a bordo de um iate. Algo grandioso, ao que parece. Eu não entendi direito o motivo, mas captei algumas palavras: “negócios do papai”, “convidados influentes”, “Senhor Newton”.
Sim, esse senhor apareceu na conversa, e eu ouvi com atenção.
O que mais me surpreendeu, no entanto, foi o convite. Rossi, com sua espontaneidade contagiante, simplesmente olhou-me e disse:
— Você vai comigo. Quero que conheça meus pais... e alguns amigos.
Fiquei estática. Eu? Numa festa da alta sociedade? Cercada de gente que provavelmente gasta numa noite o que a minha família levaria meses para juntar?
— Você tem certeza? — perguntei, com uma risada nervosa. — Nunca estive em festas com pessoas tão... ricas.
Ela encarou-me, revirando os olhos como quem diz “lá vem você com isso de novo”.
— Você vai amar. Confie em mim, Amie. E não se preocupe, eu empresto-te um vestido.
Ela sumiu no corredor antes que eu pudesse protestar, e eu fiquei ali, entre o riso e o pânico, pensando no que vestir, no que dizer, e — pior — no que esconder. A verdade é que, por mais que eu tenha coragem, ainda carrego as minhas inseguranças como se fossem cicatrizes m*l curadas.
De repente, a voz de Rossi ecoou pelo apartamento:
— Amélia, vamos! O dia vai ser uma loucura e eu ainda preciso ver o meu vestido!
— Já estou a ir! — respondi, soltando um suspiro e lançando um sorriso resignado ao espelho. — Parece que essa festa promete.
Enquanto via Rossi que nem um Furacão, fiquei com a sensação de que algo novo poderia acontecer.
Talvez, de pertencer a esse novo mundo sem precisar deixar de quem eu sou.
E, bem, no fundo, uma voz sussurrava: talvez, só talvez... essa noite mude tudo.
💗💗
Fazer compras com Rossi é, no mínimo, um exercício de resistência física e emocional. Após incontáveis provadores e combinações absurdas, encontrei o vestido perfeito. Um raro milagre, considerando que ela parecia mais empolgada em vestir-me como uma boneca do que propriamente ajudar. Com ela de volta à casa da família, finalmente tive um momento de sossego. Refugiei-me na cozinha, busquei algo leve na geladeira — suco gelado e um daqueles lanchinhos prontos que só precisavam de segundos no micro-ondas — e joguei-me no sofá com o controle remoto em mãos, tentando encontrar algo na televisão que me fizesse esquecer por alguns instantes que, mais tarde, haveria uma festa.
Estava quase cochilando, corpo entregue ao descanso, quando a porta se escancarou e Rossi entrou como uma ventania, rindo alto, cheia de sacolas nas mãos e um brilho nos olhos que só ela sabia exibir.
— Amelinha, voltei! — anunciou, largando as sacolas no sofá com a empolgação de quem retorna de um desfile em Paris.
Torci o nariz. — Quantas vezes eu tenho que dizer que detesto esse apelido?
Ela ignorou. Rossi era especialista em invadir o mundo das pessoas como se fizesse parte dele desde sempre.
— A festa está quase pronta! Você vai amar. Vem! Temos que nos arrumar. Vou deixar-te maravilhosa. — Disse, puxando-me pela mão.
Olhei para o relógio. — Agora? Continua claro!
— Começa ao pôr do sol, meu bem. Cada festa tem o seu charme… e essa promete. — E sorriu com aquele ar misterioso que me irritava e encantava ao mesmo tempo.
Tentei escapar, dizendo que precisava ao menos lavar o copo e o prato, mas ela dispensou com um aceno.
— A empregada cuida disso.
Parei, surpresa.
— Você tem empregada?
— Meio período. Trabalho o dia todo, não dá tempo de cuidar da casa. E lavar roupa, então? Nem pensar.
Rossi sempre fora franca, quase transparente demais. Nunca me escondeu que a vida dela era completamente diferente da minha — e isso, curiosamente, nunca nos afastou.
Fui arrastada até o seu quarto. Enquanto ela mexia em maquiagem e acessórios, tomei banho e deixei que ela fizesse o seu ritual de transformação. Não me deixava ver o espelho, então fiquei em silêncio, entregue, quase cochilei com os toques leves no meu rosto e cabelo.
— Pronto. — Disse, finalmente, girando a cadeira.
Me olhei. E, por um momento, não me reconheci. A mulher refletida no espelho tinha um ar sofisticado, quase irreal. Um vestido de cetim azul-turquesa, justo ao corpo, tomara que caia, saltos de camurça em tom gelo, brincos de diamantes delicados e maquiagem que realçava os meus olhos com suavidade. O meu cabelo caía em ondas soltas pelos ombros. Era eu… mas diferente. Uma versão de mim que parecia ter saído de uma capa de revista.
— Você ficou linda! — disse Rossi, genuinamente feliz.
— Obrigada... Você também está deslumbrante.
E estava mesmo. O vestido bege longo, o penteado impecável, os lábios pintados num vermelho suave — Rossi era como uma estrela em noite de gala.
Descemos juntas, e na entrada do prédio um motorista nos aguardava ao lado de um Audi preto reluzente.
— Vamos ao norte, disse ela ao motorista.
Durante o trajeto, observei a cidade pela janela. A Nova York que eu começava a conhecer com os seus ritmos intensos e os seus cenários de filme. Fiquei em silêncio, absorvendo tudo, tentando controlar o nervosismo crescente. Afinal, aquela era a festa da família Nichols. Os pais de Rossi estariam lá. E provavelmente metade da elite de Manhattan também.
— Você está tensa. — comentou ela, rindo.
— É claro! Não conheço ninguém. E se eu cometer alguma gafe?
— Relaxa, Amélia. Seja você mesma. Eles estão ansiosos para te conhecer.
À medida que nos aproximávamos do porto, comecei a entender. Lanternas de papel em tons de rosa pálido flutuavam no ar. Um tapete vermelho estendia-se até a rampa de um imenso iate. Havia fotógrafos, jornalistas, flashes por todo o lado.
— Surpresa! — sussurrou Rossi, com um sorriso de orelha a orelha.
— Isso tudo é… seu? — perguntei, maravilhada.
— Bem-vinda ao Beth, o iate da família Nichols. A festa começa com o pôr do sol e só termina quando a lua estiver alta.
Fomos recebidas com flashes e poses para os fotógrafos — e eu vi-me fazendo o possível para parecer confortável num ambiente tão luxuoso. Embarcamos, e logo Rossi começou a me apresentar a todos: investidores, herdeiros, socialites, jovens empresários. Alguns simpáticos, outros claramente julgadores. Fui educada, sorri, ouvi histórias, até me emocionei com a trajetória de um homem que crescera na pobreza e construíra o seu império com as próprias mãos.
O barco zarpou. O pôr do sol tingia o céu de laranja dourado, e do convés eu via a Estátua da Liberdade ao longe, imponente. A silhueta de Manhattan recortava-se no horizonte como uma pintura viva. Era impossível não se deixar levar por aquela cena.
— Amélia, venha conhecer meus pais. — chamou Rossi.
Fomos até uma área mais reservada, onde ela me apresentou ao Sr. Jimmy e à Sra. Elizabeth Nichols — ou, como ela mesma pediu para ser chamada, Beth, a mulher que batizou o iate. Estavam impecáveis, simpáticos, acolhedores. Seu irmão Alex e a sua esposa Clarice foram igualmente gentis. A caçula, Mary Anne, um pouco mais provocadora.
— Como você aguenta a Rossi? — perguntou ela, rindo.
— Acho que já me acostumei… ela é impossível, mas insubstituível.
E todos caíram na risada. Pela primeira vez naquela noite, senti que realmente pertencia àquele lugar. Não pela riqueza, mas pelo acolhimento. Mas, porque, ali, eu era eu mesma. E, surpreendentemente, isso bastava.
Rossi despediu-se para explorar a festa — Talvez encontre algum gato, disse ela, piscando.
Eu me afastei para um canto mais silencioso do convés. A brisa do mar acariciava a minha pele, e diante de mim, Nova York cintilava como um universo em movimento.
Fechei os olhos por um instante. Respirei fundo.
E ali, naquele instante, entendi que algo mudava dentro de mim.
Talvez eu ainda não soubesse exatamente o que era.
Mas algo em mim… despertava.