Capítulo 5 - Tenho medo do escuro?

2490 Words
Brooke Esperei até às seis da tarde, mas não vi nem a sombra de James Farrow. Eu precisava de sua luz verde para continuar com a campanha e entrar em contato com o cliente antes que este decidisse recorrer a alguma agência concorrente. Olhei para cima quando ouvi os passos de Connor atravessando o espaço aberto dividido em muitos cubículos por uma série de finas divisórias cinzentas. Ele se encostou na minha mesa e por um momento seu olhar foi atraído para algumas embalagens de chocolate que eu havia amassado em cima do teclado. — O Sr. Farrow me deu seu OK. Ele gostou da campanha e amanhã poderemos entrar em contato com a filha do diretor promocional da Lancôme para explicar nossas ideias. Ainda faltam os slides para serem resolvidos, mas eu diria que este é feito também. - ele me atualizou. — Na verdade, eu estava esperando pela sua resposta, caso contrário teria saído às cinco, junto com todos os outros. - Fiquei indignada. Nem tanto por ter trabalhado uma hora extra em vão. Só Deus sabia o quanto eu e minha família precisávamos de um dinheirinho extra para chegar ao final do mês com dignidade. Quanto ao fato de que o Sr. Farrow, ao comunicar sua aprovação a Connor e não a mim, como havíamos combinado, deixou claramente claro para mim que havia confiado a ele toda a campanha publicitária. Certamente esta escolha dependeu da minha recusa. Eu não tinha aceitado aquelas gérberas e agora ele queria me fazer pagar, eu tinha certeza. Senti minhas bochechas pegarem fogo e com movimentos nervosos peguei minha jaqueta e minha bolsa. — Você quer uma carona para casa? - Connor ofereceu. — Vou dar uma volta, obrigado. - recusei o convite. Tinha que me livrar da minha raiva antes de me encontrar à mesa com meus pais. Com um aceno de cabeça ele me cumprimentou e saiu sem insistir, provavelmente indo para o bar em frente onde meus colegas paravam todas as noites. Eu também teria feito isso com prazer, se não fosse pelo fato de ter apenas um dólar e oitenta centavos na carteira. Ou seja, exatamente o que me restava do salário do mês de março, depois de pagar as contas do metano. Peguei meu celular e um lanche que havia esquecido há alguns dias ao lado do porta-canetas, desliguei o PC e saí apressada, deixando para trás o enorme prédio cinza. A minha casa não ficava longe e para lá chegar teria de passar pelos habituais pontos de referência que marcavam o meu percurso. Lá estava o Dorian'bar com a janela da entrada toda coberta de fotos de todas as garçonetes que ali trabalharam. O chinês com suas lanternas vermelhas afixadas acima da porta dupla, da loja de roupas íntimas e do minimercado. Muitas das janelas que davam para a calçada estavam cobertas de jornais, esperando que algum comprador alugasse um quarto para abrir uma nova loja ou uma discoteca. Quando ouvi um assobio obsceno atrás de mim, revirei os olhos de aborrecimento. Esse era o risco de trabalhar perto de bares: quase sempre dava de cara com algum garoto arrogante e com o hábito de beber muito álcool entre as refeições. Verifiquei minha bolsa e saí da calçada para atravessar a Seventh Street. As vaias continuaram, seguidas de alguns gritos e alguns elogios indesejados. Demorei um pouco para perceber que dois garotos haviam se afastado do bar, seguindo os mesmos passos que eu. Embora mantivessem certa distância, ficou claro que sua intenção era me seguir. Bufei e peguei meu telefone, sem saber se deveria chamar um táxi ou continuar pelo trecho deserto da estrada antes do meu bairro. Quando chegasse em casa teria que pedir dinheiro aos meus pais para pagar o motorista e isso me fez hesitar. Eles eram muito hábeis em esconder sérios problemas financeiros tanto de mim quanto do meu irmão... de sérios eles haviam se tornado sérios quando alguns meses antes minha mãe foi demitida da lanchonete. A despesa de um táxi não teria feito nenhuma diferença em nossa situação já terrível, mas eu sabia que mamãe e papai ficariam desconfiados se me vissem dirigindo para casa. Se eu tivesse contado a eles por que decidi me trancar em um táxi para percorrer dois quilômetros, eles certamente teriam exigido que eu nunca mais voltasse para casa a pé. Sim, isso teria afetado nossos fundos limitados. Coloquei meu celular de volta na bolsa e acelerei o passo. Algumas nuvens cobriram o pôr do sol, deixando uma pequena faixa de luz do dia a leste. Apertei minha bolsa com força contra o peito e endireitei os ombros, repetindo silenciosamente que logo estaria em casa. Atrás de mim os passos dos dois rapazes eram silenciosos e não me parecia que se aproximassem ou aumentassem o passo. Talvez eles não estivessem me seguindo. Contudo, acelerei o passo, sem ceder à tentação de correr, e assim que virei a esquina abrandei repentinamente com o coração na boca. Um carro atravessou rapidamente a estrada iluminado por alguns postes de luz, abafou o som dos sapatos dos dois meninos e depois desapareceu, engolido pelo trânsito ao longe. O som de passos voltou e de repente comecei a andar rapidamente de novo, olhando por cima do ombro para ter certeza de que eles não tinham virado a esquina também. Foi nesse momento que ouvi um barulho agudo, semelhante a uma tora quebrando, seguido imediatamente por um segundo barulho, desta vez mais parecido com um baque surdo. Não lembrava o barulho clássico produzido por uma briga ou qualquer outro barulho que você esperaria ouvir na cidade. Ouvi um suspiro e novamente o som de um tronco se partindo em dois, seguido imediatamente por um baque surdo. Eu fiz uma careta. O que diabos eles estavam fazendo? Por um breve momento fui tomada pela tentação masoquista de espiar pelo canto do muro do perímetro, mas o medo logo tomou conta de mim e me arrastou correndo para minha casa. Mamãe e papai me esperavam no pátio interno; uma pérgola muito banal mobilada com uma plataforma de paletes e uma mesa de metal escuro com seis cadeiras a condizer. Várias plantas aromáticas começavam a reviver na estreita faixa que circundava toda a pérgula. Algumas lâmpadas alimentadas por bateria iluminavam o pátio, tornando-o mais bonito do que realmente era. — Brooke. - mamãe me cumprimentou com um grande sorriso. — Você estava atrasada. — Trabalhei horas extras inúteis. - dei um beijo rápido no topo de sua cabeça. — Mas muito lucrativa. — Você tem planos para esta noite? Quer jantar agora? — Não, não. Vá com calma. Vou ficar em casa esta noite. Estão exibindo o primeiro episódio da terceira temporada de... — Ah, não! Tem jogo hoje à noite. - meu pai ficou alarmado. Ele era o único em todo o bairro apaixonado por futebol e se nem seus amigos podiam compartilhar sua paixão, muito menos eu. Bufei descontente e sentei-me na primeira cadeira livre, tomando cuidado para não deixar nenhuma lasca rasgar minhas meias. — Pare, pare! Não se sente! - Mamãe avançou, agarrando-me pelos ombros e forçando-me a ficar de pé. — O que há de errado com ela? - Virei-me para o pai. Um sorriso zombeteiro apareceu em seus lábios antes de palavras cheias de escárnio bem-humorado. — Não quero saber nada sobre isso. Vou me desligar. — Você se isola? - Tropecei no degrau que levava do pátio à cozinha e tentei manter o equilíbrio segurando-me no batente da porta. — Mãe, você pode parar de me puxar? — Venha, venha, venha. - ela estava tão animada que sua voz tremia. — Sim, claro. Estou indo, estou indo, estou indo. Mas podemos saber o que está acontecendo? — Isso. - ela exclamou com orgulho, abrindo os braços em direção ao armário. Foi só então que os notei. Quatro vasos de gérberas estavam alinhados em cima dos móveis, numa profusão de cores vivas que era quase vertiginosa. Nenhum dos quatro pacotes tinha uma nota anexada, mas eu ainda sabia muito bem quem os havia enviado para mim. Senti meus lábios se curvarem lentamente para baixo e, desanimado, me aproximei com cautela, acariciando algumas pétalas com a ponta dos dedos. A raiva veio rapidamente e eu inadvertidamente cerrei os dedos com muita força, esmagando algumas pétalas que caíram no chão. — Brooke? - Mamãe se aproximou de mim, afastando uma mecha do meu cabelo para poder olhar para o meu rosto. O tom que ela usou tornou-se quase triste, um sinal de que ela não tinha perdido a minha reação. — Você não parece feliz com esta homenagem. — Porque não é. Não é de jeito nenhum. É apenas uma postura. — Quem os deu para você? — Sr. Farrow. - eu disse seu nome com desdém. As sobrancelhas da mamãe se ergueram de surpresa. — Sr. Farrow de Hill Farrow? — Só ele. — Por que o fundador da agência lhe enviou flores? Parece um tanto inapropriado para mim. Dei de ombros, os lábios ainda curvados em um beicinho. — Não sei, mãe. Ele me deu flores de novo hoje e eu recusei. Evidentemente ele não deve ser um homem particularmente acostumado à rejeição. Ele balançou a cabeça e foi até o fogão para verificar se o assado não estava grudado no fundo da panela. — Ele não morava nas montanhas? — Esse homem não tem casa. Ele é um fotógrafo mundialmente famoso e está em constante movimento. Tenho certeza de que alguém como ele não ficará na cidade por muito tempo. — O Sr. Dimitri sabe de tudo isso? - ele perguntou, apontando para as flores. — Eu não faço ideia. —Talvez você devesse informá-lo. O Sr. Dimitri é um homem galante e muito respeitável. Sem dúvida ele será capaz de colocar aquele Farrow em seu lugar. Eu balancei a cabeça. — Sim, é uma boa ideia. Obrigado mãe. — Vamos, me ajude a pôr a mesa. Eu cuidarei de fazer essas flores desaparecerem. Imediatamente após o jantar fui para o meu quarto, mas não consegui dormir imediatamente. Me revirei na cama até quase o amanhecer, perturbada pelo estrondo do trovão que acompanhou a primeira chuva de primavera. Nem mesmo o travesseiro colocado sobre minha cabeça foi capaz de me proteger do som da chuva batendo ritmicamente nas janelas e do som do vento que lembrava o uivo dos lobos. Dizia uma lenda que as nossas montanhas, em particular a Águia, eram povoadas por matilhas inteiras de lobos e que por isso o Sargento Malloj, chefe do guarda florestal e melhor amigo do meu pai, quase nunca assinava autorizações de acesso a turistas em algumas zonas. A realidade, porém, era muito diferente. A Eagle Mountain era pontilhada de fendas, em sua maioria escondidas por grama instável, e tentar passar por aquela floresta era uma espécie de roleta russa. Ao longo dos anos, alguns caminhantes ultrapassaram as barreiras que delimitavam a vasta área interditada e quando regressaram não tinham contado sabe-se lá quantos perigos. Eles descreveram uma floresta normal, às vezes plana e às vezes inclinada, levando a um complexo de edifícios bem conservados, mas desabitados. Esse complexo provavelmente pertencia a alguma colônia de verão ou a guardas florestais que estudavam a flora e a fauna locais. E esses caminhantes provavelmente tiveram sorte de não cair em uma f***a. Na manhã seguinte cheguei ao escritório alguns minutos mais cedo, como costumava fazer, para poder tomar café com Jenny e Connor. Também me relacionei com os outros colegas, mas uma relação mais íntima foi imediatamente estabelecida com os dois. Não havia sinal do Sr. Farrow e quando me aproximei da área do bar soltei um suspiro de alívio. — Bom dia. - cumprimentei Connor e Jenny. — Bom dia. - eles balbuciam ao mesmo tempo, sem tirar os olhos do jornal que Connor segurava aberto. Fiquei na ponta dos pés para ver algo sobre seus ombros. — O que você está lendo? — O jornal. Houve dois assassinatos ontem à noite. Você não sabia de nada? — Não. - murmurei. — Esta manhã não liguei a TV e não ouvi as notícias. Quem foi morto? — Dois garotos de vinte anos. p***a! - Connor passou a mão pelo cabelo curto. — Basicamente duas crianças. — Ei. - senti uma picada no rosto. — Nós, jovens de vinte anos, não somos crianças. — Quem poderia ter sido? - Jenny perguntou, passando o dedo pela linha que estava lendo. — O jornal não diz isso. - respondeu Connor. Então ele olhou para mim. — O que foi? Você não dormiu? Eu fiz uma careta. — É tão perceptível? Connor imitou minha careta. — Um pouco. Rapidamente passei os olhos pelo título em negrito no topo da página e fui para o corpo do artigo. Havia fotos em preto e branco dos dois meninos e uma da cena do crime. Eu fiz uma careta. — Mas isso...? - Estudei a fotografia mais de perto, aproximando meu rosto do artigo para ver mais detalhes. — Meu Deus, aconteceu no beco aqui atrás, pouco depois das seis. - Eu levantei minha cabeça. — Eu também estive naquele beco ontem à noite, exatamente na mesma hora. — Você viu alguma coisa? - Jenny perguntou. — Não… - eu balancei minha cabeça. — Talvez tenha acontecido logo depois que eu passei. Um arrepio de terror percorreu minha espinha e inevitavelmente pensei nos dois garotos que me seguiram. Eu não tinha visto seus rostos com clareza, então era impossível reconhecê-los na fotografia do jornal, mas um detalhe relatado no artigo congelou meu cérebro. O assassino os matou quebrando seus pescoços. Meu estômago lutou para digerir o flashback que passou diante dos meus olhos. Durou apenas um segundo, mas foi o suficiente para me deixar enjoada. Pisquei em uma tentativa desesperada de tirar da minha cabeça o som agudo daqueles dois galhos quebrando. Na noite anterior, presumi que fosse uma sugestão, um truque da minha cabeça em reação ao medo. Mas agora, por mais que eu odiasse, estava começando a me fazer perguntas. Um acima de todos. Que barulho foi aquele que ouvi? Eu sabia a resposta, mas não ousei dizê-la nem em voz baixa, em meus pensamentos. Estava ali, esperando, só que minha mente fingia não ouvir. Esfreguei os olhos. Minhas pálpebras estavam inchadas de sono e o cansaço fazia meus pensamentos andarem em câmera lenta. Que barulho foi aquele que ouvi? Um arrepio sacudiu minhas mãos e o jornal caiu no chão. — Tome cuidado! - Connor se abaixou para pegá-lo. — Você definitivamente dormiu muito pouco. Pegue um café duplo e esteja em sua mesa em meia hora. Os clientes estão chegando e ainda precisamos arrumar o escorregador. Eu balancei a cabeça em transe. Eu tinha captado vagamente suas palavras. Na minha cabeça só havia espaço para aquele barulho. Aquele tronco quebrado. Um tronco que poderia facilmente ser o osso do pescoço de uma pessoa.
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