Brooke
— Você é o diretor gráfico, por que eu tenho que ir lá?
— Porque o Sr. Farrow pediu especificamente que você colaborasse com ele. Vamos, vamos! - Ele se sentou satisfeito, me dando um tapinha forte no ombro e me mandando um beijo voador. — Sinto cheiro de promoção, minha garota.
Corri para salvar antes de causar qualquer dano e lancei a imprensa.
— E lembre-se de ligar para a modelo. - acrescentou ele apressadamente antes de um de meus colegas se juntar a ele em busca de conselhos para um outdoor da Black Friday.
Finalmente abri a pasta e fiquei surpresa ao ver a fotografia de uma menina magra, de bochechas encovadas e cabelos de uma cor inimaginável.
— Connor!” Eu protestei. — Essa aqui tem cabelo azul!
— Significa que vamos tingi-los para ela. Ligue para ela! - ele me dispensou e voltou a conversar com meu colega.
A impressora deu seu último zumbido e fui buscar as folhas impressas. Dividi-os em quatro seções e coloquei-os na mesma pasta onde Connor havia colocado o portfólio da modelo atrofiada.
De repente, inexplicavelmente, comecei a suar frio. Não havia nada de errado com o Sr. Farrow e, apesar da minha péssima impressão alguns dias antes, ele provou ser compreensivo e não se incomodou de forma alguma com as minhas palavras. No seu lugar eu certamente me sentiria ofendido e indignado se um dos meus funcionários tivesse demonstrado pouca consideração por mim, mas ele parecia não ter dado qualquer importância às minhas palavras.
Pelo contrário! Ele até me deu o que parecia ser, em todos os aspectos, uma promoção.
Apesar disso, havia algo nele que sempre me deixava nervosa. Isso me intimidou e me deixou constrangida, o que nunca tinha acontecido. A maneira como ele olhou para mim era como a de um predador. Ele estudou cada movimento meu com uma atenção beirando o mórbido, com os músculos do rosto petrificados em uma máscara concentrada que protegia todas as emoções.
Suas íris ficaram tão pretas que engoliram completamente a pupila, reduzida ao mínimo como a de um viciado em drogas. E eles sempre permaneceram imóveis, fixos em cada movimento meu, inexpressivos. Suas pálpebras pareciam rígidas, quase nunca caídas, como se seus olhos não precisassem de lubrificação normal.
Eles eram indutores de ansiedade. Eles pareciam vidro.
Ele próprio parecia feito de vidro, esculpido numa postura austera que o elevava acima dos outros de uma forma tão natural que o fazia parecer superior a qualquer outro ser humano.
As portas do elevador tilintaram e eu respirei fundo numa tentativa ridícula de me acalmar. O décimo terceiro andar estava completamente vazio. Não havia sinal de Dimitri. Nenhum barulho traiu a presença de ninguém. Talvez, se eu tivesse sorte, nem conhecesse o Sr. Farrow e pudesse deixar a pasta com o projeto em sua mesa e voltar imediatamente e com calma para minha mesa.
— Brooke. - Sua voz profunda e calma me fez pular.
Virei-me rapidamente para a direita e o vi. Ele ficou com um ombro encostado casualmente no batente da porta do banheiro, as mãos enroladas em uma toalha branca esfregando uma na outra em movimentos que pareciam deliberadamente lentos.
— Bom dia, Sr. Farrow. - eu guinchei, me amaldiçoando quando percebi que tinha gaguejado. — Connor me enviou.
Uma contração em seu queixo quadrado foi seguida pela contração de sua sobrancelha direita erguendo-se. Ele parecia irritado com alguma coisa, mas eu não entendia o quê.
— Connor, hein? - ele assentiu, pensando em algo. Ele terminou de secar as mãos e jogou a toalha atrás de si nos azulejos imaculados do banheiro. — Ele é seu supervisor direto?
Balancei a cabeça, tentando não olhar para baixo. — Sim, ele é o diretor gráfico.
Ele estalou a língua três vezes contra o céu da boca. — Errado, Brooke.
Algo em seu tom fez minha pele arrepiar e comecei a suar frio novamente. Ele parecia estar nervoso, quase prestes a destruir alguma coisa.
— Eu sou seu superior direto. Eu! Esse Connor, não. - ele especificou.
Balancei a cabeça novamente, envergonhada. Ele talvez tivesse me feito uma pergunta capciosa? Eu tinha caído completamente nessa? O que ele queria alcançar? Para onde ele queria ir?
— Trouxe para vocês os gráficos da última campanha da Lancôme. Não vou tomar muito do seu tempo. Basta dar uma olhada e me dizer se gostou.
Durante trinta longos segundos ele permaneceu em silêncio, imóvel, olhando-me nos olhos, e continuou a fazê-lo até que, dominado pelo constrangimento, me vi baixando o olhar.
— Finalmente. - eu o ouvi murmurar. Então ele aumentou o tom, fixando-o em uma colher de mel. — Você quer me seguir até meu escritório? Para que possamos ver o campo juntos.
Era uma pergunta retórica, então não respondi, simplesmente o segui pelo curto corredor que separava seu escritório do de Dimitri.
— Devo fechar a porta? - perguntei.
O Sr. Farrow parou abruptamente, os músculos das costas ficando tensos. Quando ele atendeu, ele não se virou. — Por que você quer essa porta fechada?
— Como, por favor?
— Esta é a segunda vez que você me pergunta se deveria fechá-la ou deixá-la aberta. - especificou ele, insistindo de costas para mim. — No que me diz respeito, prefiro que fique aberta. Seu cheiro já é forte o suficiente para que não precisemos nos encontrar em um ambiente fechado.
Abri a boca, instintivamente levantando um braço para cheirar rapidamente minha axila. — Eu... Sr. Farrow... eu não... eu não uso perfume. Bem, talvez eu tenha suado um pouco...
— Você tem cheiro de rosas. - ele respondeu simplesmente.
Mostrei a língua e sentei-me em frente à mesa. Fiquei ofendida, mas fechei a boca. Primeiro porque eu não tinha certeza se seria capaz de discutir com aquele homem sem correr o risco de ser demitida, segundo porque eu realmente merecia algumas farpas venenosas dele. Ele provavelmente não sentiu cheiro de nada em mim, mas simplesmente queria vingança pelas palavras desagradáveis que eu havia dito a ele apenas alguns dias antes. Realmente muito maduro!
O Sr. Farrow virou-se para mim, ajustou os dois colares que pendiam no centro do peito e com um gesto brusco do braço indicou a cadeira onde eu havia me sentado. — Eu disse para você sentar aí?
Endireitei minhas costas, olhando em volta. Por que era tão difícil entender o que ele estava dizendo? Falávamos a mesma língua e ainda assim ele parecia estar mantendo uma conversa que só ele conseguia entender.
— Eu quero você aqui. - ele ordenou com uma autoridade tão sólida que eu me peguei pulando de pé.
Sem se aborrecer muito, esticou o braço em direção a uma poltrona colocada ao lado de sua cadeira e levantou-a completamente, girando-a para que pudesse colocá-la no canto da longa escrivaninha. Exatamente cinco centímetros de onde ele estava.
Eu arregalei meus olhos. Aquela cadeirinha devia pesar pelo menos quinze quilos. Que esteróides ele usou para poder levantá-lo com uma mão?
— Sente-se. - ele me convidou gentilmente, mas abruptamente ao mesmo tempo.
Sentei-me sentindo-me completamente em transe. Eu ainda procurava uma explicação lógica para o que acabara de vê-lo fazer, uma explicação que me convencesse de que eu não estava tendo alucinações. Ou sendo louco.
Falei de forma menos decisiva do que gostaria. — Pensei no verde como pano de fundo para o perfume mais recente. O invólucro é dourado e ainda assim esses dois tons parecem se complementar.
— Eu concordo. - ele assentiu. — A falta de contraste não tira o foco e reflete a sobriedade do produto.
— Pensei a mesma coisa. - comentei, aproximando-me da pasta que ele examinava para apontar o dedo para o título promocional.
De repente ele se retirou, aproximando-se da beirada da cadeira, como se quisesse nos distanciar ou, pior ainda, como se fugisse de um fedor terrível.
Cheirei o ar sem tentar chamar a atenção e com evidente constrangimento lembrei-me de seu pedido de deixar a porta aberta para não se encontrar em um ambiente fechado comigo. Talvez fosse meu cabelo. Eu os havia lavado na noite anterior com um xampu novo que cheirava vagamente a azeitonas. Certamente não tinha gosto de rosas. Mesmo meu sabonete líquido não cheirava o suficiente para justificar a forma como ele estava franzindo o nariz.
Com o indicador e o polegar ele beliscou as raízes e vi seu peito inchar com a respiração presa. Agora que pensei nisso, a primeira vez que entrei em seu escritório ele teve as mesmas reações.
— Você pode abrir a janela, por favor? - ele perguntou com os dentes cerrados.
O calor em minhas bochechas subiu e desceu pelo meu pescoço. Eu estava ciente de que havia ficado roxo. Até meus lábios tremiam. — Sinto muito.
— Por que você está se desculpando? - ele perguntou quando eu estava longe o suficiente dele. — Cheirar tão inocente? Tão tentador?
Recuei com o ressentimento que vazou de sua voz. Ele não tinha me elogiado, isso era certo. Ele estava furioso e hostil demais para pensar, mesmo remotamente, que suas palavras haviam sido lisonjeiras.
Ele fechou os punhos e os tendões dos antebraços foram puxados, um após o outro. Ao mesmo tempo, ele semicerrou os olhos e cerrou os dentes até ranger a mandíbula. — Você poderia matar um homem com o seu cheiro.
Respirei fundo e desviei meu olhar para a vista. Ficou claro que ele estava me acusando de alguma coisa e ficou ainda mais claro que essa conversa não era absolutamente apropriada entre patrão e empregado. Comecei seriamente a querer ir embora e procurei uma saída.
— Você pode deixar a pasta na minha mesa depois de examiná-la, se quiser. - ofereci. — Não há necessidade de eu ficar aqui.
Ele ainda mantinha os olhos fechados, como se quisesse escondê-los. — Eu acho melhor.
— Bem, então, com sua permissão, Sr. Farrow, eu retornarei ao meu posto.
Recuei apressadamente em direção à porta, tropeçando entre os degraus, mas não tive tempo de sair. Sua voz me conquistou como o canto de uma sereia.
— Brooke! Leve-os.
Olhei em volta, desconcertada. Não havia pastas sobre a mesa. Eu não entendi. — Quer o quê, Sr. Farrow?
Ele levantou lentamente as pálpebras e inclinou a cabeça para o lado, olhando para mim de uma forma que fez minha pele arrepiar. Seus olhos negros quase pareciam ter ficado castanho-alaranjados, talvez devido a um raio de luz atingindo-o bem no rosto. Eles me examinaram com tal grau de hostilidade que não tinha raízes em nenhuma lógica. Parecia que ele estava prestes a pular em mim.
— As flores. - disse ele, apontando para um enorme buquê de gérberas colocado em uma taça de vidro fosco.
Adorei as gérberas, as pétalas grandes sobrepostas numa explosão de laranja. Lembravam-se do pôr-do-sol, das noites de verão passadas correndo nos milharais.
— Você as leva para sua casa. Elas são para você. - explicou ele, sério.
Engoli em seco, desconfortável. — Por que você me comprou flores?
— Eu decidi. Eu decidi.
Não gostei da resposta. Isso exalava arrogância e colocava em risco minha posição na empresa. — Sr. Farrow, não posso aceitá-las, sinto muito.
— Eu esperava por isso. - ele sorriu para si mesmo. Um sorriso falso que não alcançava seus olhos.
— Mas muito obrigado pela ideia. - senti-me obrigada a acrescentar. — Espero que você entenda por que rejeito seu gesto gentil.
— Eu entendo. - ele sorriu novamente, desta vez com um pouco mais de humanidade.
Eu esperava que ele acrescentasse um pedido de desculpas, mas ele não o fez. Ele simplesmente permaneceu em silêncio, sem sequer responder ao meu aceno.
Só quando entrei no corredor é que ouvi a voz dele novamente, e era um som tão assustador que parecia que estava penetrando meus ossos. Algo desumano.
— Graças a seu Deus, que eu seja tão compreensivo.