Diogo pegou em minha mão, e eu subi os degraus junto com meus novos irmãos. No final da escada, havia um corredor com seis portas, andamos até o final dele e subimos mais um lance, dessa vez menor, que dava acesso a uma única porta. Ao abri-la, entramos no quarto mais lindo que eu já tinha visto, as paredes estavam pintadas em um tom de lilás, e os móveis de linhas simples e clássicas eram brancos e faziam um contraste bonito com a suavidade da cor. Na cama, um aconchegante edredom estampado com lindas flores em cores frias combinava com o ambiente, tornando-o muito feminino. Havia também um guarda-roupa, uma estante com alguns livros e uma mesa com computador. Não conseguia acreditar que tudo aquilo era só para mim e fiquei muda de espanto, era tudo tão lindo e delicado, parecia até um quarto de princesas de contos de fadas, eu havia amado cada detalhe.
— O que achou? — perguntou Angel, parecendo super animada. Como eu continuava calada, ela interpretou m*l e franziu a testa. — Você não gostou? - Arregalei os olhos.
— Não, eu… adorei, é muito lindo! Isso tudo é só para mim?
— Claro que sim, mamãe e papai capricharam pensando em você — Mel respondeu. — Experimente sua cama, veja se gosta do colchão.
Sentei na minha nova cama e nem acreditei que estava ali com todos eles. As meninas pareciam muito simpáticas. Achei a Mel muito bonita, alta, magra; com seu cabelo longo e rosto de traços delicados, chamava logo a atenção. Já Angelique, apesar de ser morena como a irmã, era mais rechonchuda, tinha o rosto redondo, sardento e com covinhas nas bochechas, porém compensava sua aparência comum, com um sorriso alegre e cativante. Na verdade, ambas, cada uma ao seu modo, lembravam bonecas de porcelana. Até esse momento, Diogo estava parado, encostado na porta, e ainda não tinha falado nada, só me observava sério, será que não havia gostado muito de mim? Então, ele se aproximou de repente, esticou a mão e inesperadamente puxou uma mecha do meu cabelo.
— Ai! — Reclamei, me afastando dele.
— Diogo, o que é isso? — Gritou Mel, zangada.
— Eu só queria saber se são de verdade. — Ele respondeu meio envergonhado.
— De verdade? Como assim? — Perguntou Angel sem entender o que o irmão quis dizer.
— O cabelo dela é tão comprido, cheio e cacheado que não parece de verdade. Queria ver se era uma peruca. — Ele comentou, fazendo as irmãs rirem.
Naquele momento, eu quis sumir, mas só abaixei a cabeça, morrendo de vergonha.
— Diogo, deixa de ser retardado, não está vendo que é de verdade? Repara, não, Malu, mas nosso irmão é meio l**o, age primeiro e pergunta depois. — Disse Mel, e virando-se novamente para ele explicou: — Não é porque todo mundo aqui em casa tem cabelo liso e escorrido que o restante seja falso, certo?
— Pede desculpas. — Ordenou Angel, zangada.
— Desculpa. — Ele murmurou, m*l-humorado ao revirar os olhos.
— Tudo bem. — Respondi com um singelo sorriso.
Meus olhos estavam cheios de lágrimas reprimidas, e eu estava muito triste por aquele menino tão bonito, que mudou o foco do meu mundo, mas parecia não ter gostado de mim.
Nesse momento, chegaram nossos pais, perguntando se estava tudo bem, mas quando eles olharam meus olhos logo perguntaram o que tinha acontecido, e as minhas novas irmãs contaram. Minha mãe ficou uma fera com o Diogo, e este foi o início de um padrão que se repetiria por toda a minha infância: eu secretamente adorando o chão que o Diogo pisava, ele implicando comigo o tempo todo, minha mãe brigando com ele e meu pai tentando acalmar todo mundo. E esse era um ciclo que parecia não ter fim.
Mais tarde, à noite, sozinha em meu quarto, deitada na minha cama, pensei em como minha vida havia mudado em pouco mais de um ano, tanta coisa havia acontecido, e eu estava muito grata por tudo isso.
Lembrei-me com carinho dos meus pais verdadeiros, filhos de imigrantes espanhóis, motivo pelo qual eu cresci aprendendo a falar as duas línguas, português e espanhol, mesmo tendo nascido no Brasil.
O falecimento deles em um acidente de carro, cerca de um ano atrás, transformou completamente minha realidade. Senti-me tão sozinha e amedrontada ao saber da tragédia, vi-me subitamente rodeada de estranhos que me diziam coisas incompreensíveis, e teria que abandonar minha casa, meu quarto, meu refúgio, além de mudar de escola, ficando longe dos meus amigos, restando somente as lembranças de uma infância cheia de amor e carinho. Minha família era pequena e, infelizmente, por não termos parentes conhecidos, fui encaminhada para um abrigo, onde fiquei até hoje. Eu até me dava bem com as outras crianças que lá viviam, mas sempre sonhei em ter uma nova família e um novo lar. E agora eu tinha irmãos, que eu sempre sonhei em ter, por diversas vezes cheguei a pedir um irmãozinho para meus pais, mas eles diziam que já eram muito felizes só comigo.
Olhei para o teto, todas as luzes apagadas, mas nunca tive medo de escuro; sentia-me à vontade na escuridão, achava relaxante, nunca fui aquele tipo de criança que na hora de dormir pede à mãe para deixar o abajur ligado ou coisa parecida.
A luz da rua que entrava pela janela iluminava o suficiente para que eu pudesse observar ao redor. Realmente tinha adorado aquele quarto, não só por perceber que havia sido preparado detalhadamente para minha chegada, mas também por finalmente poder ter um pouco de privacidade, coisa de que havia sentido muita falta, pois num lugar como um abrigo, onde tudo era partilhado por todos, privacidade era luxo inexistente.
Eu reconhecia que, apesar da tragédia que tinha ocorrido em minha vida, ainda podia me considerar uma garota de sorte, pois quantas crianças na mesma situação continuariam indefinidamente naquele lugar, que apesar de ser bem administrado não era o substituto para um lar de verdade? Mesmo consciente disso tudo, senti-me estranhamente melancólica naquela manhã, quando fui levada até a sala da diretora do abrigo, onde Vitor e Alexandra aguardavam ansiosos. Foram-me mostrados meus novos documentos de identificação, e fiquei um pouco chocada ao ver que agora era real e definitivo, a partir daquele dia eu tinha um novo sobrenome que eu usaria pelo resto da minha vida. Eu sei que não devia me sentir assim, porém foi como se um pedaço de mim tivesse morrido junto com meus pais, o que me deixou um pouco triste e assustada, em um primeiro momento.
Pois a mudança de um nome no papel não muda realmente o que somos, acreditei que esse fato acrescentaria algo valioso em minha identidade, mas eu carregaria para sempre aquele jeito expansivo e comunicativo dos meus pais, o cheiro dos temperos quando minha mãe cozinhava, a música que escutávamos, o beijinho de ‘’boa noite’’ do meu pai, eram tantos detalhes que antes passavam despercebidos e agora me faziam doer o coração ao lembrar; sentia muita falta da sonoridade da língua espanhola, ouvir e falar espanhol era como sentir uma carícia no ouvido e nas cordas vocais.
E agora, cá estava eu, numa casa grande e bonita, vivendo com uma nova família, que, embora me tivesse recebido de braços abertos, ainda era estranha para mim, assim como eu ainda era estranha para eles. Como seria dali para frente? A assistente social que conversou conosco no abrigo nos explicou sobre um período de adaptação que viveríamos no início, o que poderia ser uma fase desafiadora, mas que, se todos estivessem dispostos a concessões quando necessário, sempre respeitando os limites de cada um, teria sucesso quase garantido.
Sacudi a cabeça de forma negativa, tentando não continuar pensando nisso. Não importava onde fosse ou que nome usasse, eu ainda era Malu, espanhola de nascimento, brasileira de coração. Embora ainda estivesse agitada diante de tantas novidades, lentamente senti meus olhos pesados e, sem sentir, adormeci profundamente.
Na manhã seguinte, acordei, abri os olhos e me espreguicei devagar na cama macia e fofa. Olhei ao redor, ainda sem acreditar que aquela nova vida tinha realmente começado, mas estava impaciente para saber como seria nossa primeira manhã em família. Joguei o cobertor para o lado, me levantei, abri a porta do quarto e percebi que o corredor estava silencioso e tranquilo. Fui até o banheiro para fazer minha higiene matinal e, assim que terminei, desci para tomar o café da manhã e só encontrei meu pai na cozinha.