— Bom dia, acordou cedo. — Disse, assim que me viu.
— Gosto de acordar cedo. — Respondi, e ele me olhou, surpreso.
— Verdade? Então, finalmente alguém nessa família, além de mim, tem esse hábito. — Comentou de um jeito brincalhão. — Seus irmãos estão aproveitando as férias para dormirem mais um pouco. - Eu apenas sorri levemente. — O que vai querer? — Papai perguntou, abrindo a geladeira. — Temos suco, leite, pão, queijo, geléia e cereal.
— Suco, pão e queijo estão ótimos para mim. Obrigada. — Dei um leve sorriso.
Ele foi colocando tudo na mesa.
— Sirva-se à vontade, agora esta é sua casa também, o que inclui a geladeira. — Deu uma piscadela para mim, e eu sorri para ele.
Gostei muito daquele novo pai, ele me deixava sempre à vontade, o que eu achava legal.
Nós dois comemos em silêncio, ambos lendo o jornal. Enquanto ele se fixava nas notícias nacionais e internacionais, eu pegava o caderno com histórias em quadrinhos e de entretenimento. Esse padrão, que começou ali naquele dia, duraria por muitos anos, nos tornamos companheiros matinais, pois adorávamos comer aproveitando o silêncio da manhã, desfrutando dos poucos momentos de tranquilidade, antes de toda a família chegar fazendo barulho. Porque, como logo percebi, se tem uma coisa que os Smith faziam era falar, falar e falar pelos cotovelos, verdadeiras metralhadoras verbais, e eu me tornei a Smith comedida, e meu pai adorou esse meu jeito, pois isso me tornava parecida com ele.
— Qual a idade dos meus irmãos? — Perguntei curiosa.
— Mel tem 14, Angel 13, e Diogo 11. — Meu novo pai respondeu automaticamente, sem tirar os olhos do jornal.
— Então, agora sou a caçula? — Retruquei, depois de pensar durante um tempo, já que eu tinha oito anos.
— Sim, você é nossa nova caçulinha, e isso vai ser muito bom pro Diogo, sabe? — Ele comentou, erguendo a cabeça um pouco. — Ele já estava ficando muito mimado.
Enquanto acabava de comer, fiquei ruminando aquela informação, então talvez fosse esse o motivo para o Diogo ter sido o único a me receber tão friamente, talvez ele estivesse com ciúme de ter perdido sua posição de filho caçula, e fiquei preocupada.
Depois que o papai saiu para trabalhar, começaram as atividades normais da casa. Eram férias de inverno e o frio era intenso, fazia muito frio lá fora, e passamos o dia brincando dentro de casa e vendo TV. De tarde, mamãe preparou um delicioso chocolate quente acompanhado dos típicos biscoitinhos de gengibre.
— Quer jogar damas, Angel? — Perguntou Diogo, ainda de boca cheia.
— Ah, hoje não, estou louca para acabar de ler essa história. — Ela resmungou, enfiando a cabeça no livro à sua frente.
Diogo se virou para Mel, mas ela tinha acabado de atender uma ligação e estava ao telefone, conversando animadamente com uma amiga. Ele olhou rapidamente para mim e depois baixou os olhos, carrancudo.
Fiquei indecisa, se me oferecia para brincar com ele, mas por fim resolvi ser corajosa.
— Sei jogar, se você quiser brincar comigo.
Ele me olhou surpreso por um momento e, depois, sacudindo os ombros, respondeu:
— Pode ser.
Sentamos de pernas cruzadas no carpete da sala, de frente um para o outro, com o tabuleiro entre nós. Aquela foi uma ótima oportunidade de poder olhá-lo mais de perto, sem parecer literalmente enfeitiçada por ele. Observei seu cabelo liso e cheio, que caía em uma franja grossa em sua testa pequena, enquanto as sobrancelhas faziam um arco perfeito sobre seus olhos castanhos. Reparei que ele tinha cílios cheios e longos, na verdade os cílios mais compridos que já havia visto em um homem até então – para m***r qualquer mulher de inveja. Continuei a observá-lo: suas bochechas eram altas e bem marcadas, traço que tornava seu rosto bem masculino, e continuando minha exploração visual cheguei numa boca rosada e perfeita, que não era nem grande nem pequena demais. Não sei por que, mas achei que o formato de seus lábios lembrava um morango, com aquele lábio inferior ligeiramente mais gordinho e carnudo. Descendo mais o olhar, cheguei ao queixo fino, talvez um pouco fino demais, mas que combinava com o restante de seus traços e criava um equilíbrio nas suas formas.
Sem graça, percebi que tinha parado de jogar, para ficar encarando-o, e tratei logo de voltar a olhar para o tabuleiro, procurando disfarçar e me concentrar na minha primeira jogada. Modéstia à parte, eu jogava bem, porém facilitei para que ele ganhasse a primeira partida. Não achei muito sábio humilhar, logo de cara, alguém que poderia me achar uma possível rival de sua posição na família.
Seguiu-se, então, uma sucessão de partidas, e percebi que ele também era bom jogador. Em determinado momento, quando me concentrava em um possível movimento, ergui os olhos de repente e peguei-o desprevenido, olhando-me atentamente; o garoto procurou disfarçar fechando a cara e baixando os olhos para o jogo, mas em seguida disse, baixinho:
— Gosto dos seus olhos.
— Meus olhos? — Perguntei surpresa e confusa.
— Sim, são diferentes. — Ele respondeu, mordendo os lábios.
— Como assim? — Quis saber, erguendo uma sobrancelha.
— Ah, todos aqui em casa têm olhos castanho escuro, então é bom ter uma cor diferente para variar — Ele respondeu, corando e sacudindo os ombros.
— Acho tão comum, de onde vim a maioria tem olhos amendoados. — Comentei, dando de ombros.
Ele ergueu o rosto e olhou pra mim com atenção.
— Abre bem os olhos.
Franzi a testa, achando aquele pedido muito estranho, mas acabei atendendo.
— Mas eles são claros, meio dourados, mais para mel. — Ele disse, e enquanto ele me analisava, pisquei os olhos, nervosa, não estava acostumada a um menino me olhar tão de perto, ainda mais aquele.
Por fim, resolvi olhar também nos olhos dele e suspirei. Encaramo-nos, olhos nos olhos, e novamente senti aquela doce emoção que percebi quando nos vimos pela primeira vez, aquela mistura de suave espanto, misteriosa fascinação e magnetismo inexplicável. E, junto com essas emoções, vinha uma sensação de vergonha e culpa. Alguma coisa estava errada, não deveria desenvolver esses sentimentos. Não por ele. Eu o fitava, sem saber se ele poderia estar se sentindo da mesma forma, pois sua expressão era indecifrável, talvez um pouco tensa, pela maneira como ele contraía a mandíbula. De repente, Diogo fechou os olhos e declarou, firmemente:
— Cansei de jogar. — E, para minha surpresa, começou a recolher as peças do jogo, levantando-se em seguida.
Pouco depois, nossa mãe apareceu na porta, usando um avental um pouco sujo de farinha, pelo jeito estava fazendo mais alguma receita.
— Filho, por que não chama sua irmã para ver TV no seu quarto com você? — Ela sugeriu.
— Por que eu ia querer a Mel ou a Angel lá? — Ele rebateu, m*l-humorado.
— Estava me referindo à Malu, afinal vocês têm quase a mesma idade.
— Ah! — Exclamou sem graça, dando-se conta do furo.
— Não, mãe. — Eu disse apressada, antes que ele respondesse, já me pondo de pé. — Acho que vou para o meu quarto escutar música. — E reparei no alívio evidente no rosto do Diogo quando falei aquilo.
— Então, está bem. — Mamãe disse, saindo em seguida, provavelmente voltando para a cozinha para seguir com sua receita.
Corri para o meu quarto, passando direto por Diogo, mas evitei olhá-lo. Ao chegar, entrei esbaforida, fechei a porta respirando fundo e coloquei a mão no peito, como se dessa forma pudesse conter aquela estranha sensação de abandono.