Natal Em Família

1413 Words
O Natal foi uma ocasião maravilhosa e assustadora. Maravilhosa porque seria o meu primeiro natal em um lar de verdade, e assustadora porque eu seria oficialmente apresentada a toda a família, leiam-se então avós, tios, primos e até um tio-avô completamente s***o, confesso que no começo a gente teve um pouco de dificuldade em se fazer entender, mas depois, até que conseguimos nos entender bem. Até hoje me lembro do meu vestido de veludo, que foi escolhido cuidadosamente para a ocasião, em um tom de vermelho-escuro, quase vinho, mangas curtas e gola branca de renda. Lembro-me de Mel e Angel arrumando meu cabelo e colocando uma fita da mesma cor do vestido. Mas, quando chegou a hora de aparecer, quem disse que eu saia do quarto? Nenhum argumento foi forte o suficiente para me fazer mudar de ideia. Travei completamente, estava apavorada demais, imaginando ter de encarar um monte de adultos e crianças estranhas e respondendo a perguntas inconvenientes, sobre como eu havia ido parar no abrigo, e o que aconteceu com meus pais biológicos, por exemplo. E se não gostassem de mim? E se me achassem diferente ou até mesmo esquisita? Fiquei deitada na minha cama, de costas para a porta, vendo a chuva cair pela janela, ouvindo os convidados chegando lá embaixo, enquanto lágrimas silenciosas rolavam por minha face. Estava me sentindo péssima, meus pais estavam muito empolgados por terem essa oportunidade de me apresentar para toda a família, durante aquela semana gastaram um tempo enorme com os preparativos e convites. De verdade, eu queria poder agradar a eles, mas não conseguia, tremia de medo só de me imaginar naquela situação. E então, além de apavorada, também estava triste por decepcioná-los daquela forma. Estava assim, mergulhada em minha pequena tragédia pessoal, quando ouvi a porta do quarto abrir e fechar; automaticamente fiquei alerta, mas não me virei, só escondi o rosto no travesseiro, de tamanha vergonha. — Você não vai descer mesmo? — Alguém perguntou bem baixinho atrás de mim. Assim que reconheci o dono daquela voz, virei-me abruptamente, sentando-me, em seguida olhei e confirmei: era ele: Diogo. Não conseguia falar, só mexi com a cabeça de um lado para o outro, em resposta negativa, e ele suspirou. Ele usava uma camisa pólo de manga curta do mesmo tom dos seus olhos e uma calça jeans escura. O cabelo, surpreendentemente, estava bem penteado, cheio de gel, e imaginei que somente à minha mãe poderia ser creditado aquele milagre. Aos meus olhos, ele se parecia mais com um príncipe do que nunca, e o olhava completamente abobalhada, pois nunca havia conhecido um garoto tão bonito. — Por quê? — Ele perguntou. Eu estava tão distraída, admirando-o, que esqueci o que ele tinha me perguntado. — Por que o quê? — Perguntei também, sentindo-me muito estúpida. — Por que você não vai descer? — Repetiu pacientemente. Olhei para ele, para seu rosto, procurando por algum sinal de malícia ou gozação, mas só encontrei calma e sinceridade. — Estou com medo. — Eu disse por fim. Ele continuou me olhando com curiosidade e começou a se mover, caminhando em direção à janela e ficando de costas para mim. — Às vezes eu também tenho medo. — Falou, depois de dar um suspiro. — Verdade? — Perguntei surpresa, enquanto fungava o nariz. — Sim, pessoas me olhando sempre me deixam nervoso. — Ficamos um momento em silêncio, até que ele se virou para mim de novo, com o rosto sério. — Você quer saber o que eu faço quando me sinto assim? — Sim. — Respondi baixinho. Ele deu alguns passos, aproximando-se, e se sentou na beirada da minha cama. — Eu conto, mas você tem que me prometer nunca dizer isso para ninguém, promete? Ele perguntou aquilo olhando firmemente dentro dos meus olhos, demonstrando que iria fazer uma revelação importante. — Prometo. — Respondi curiosa, aguardando o que ele ia me dizer. — Certo. Esse vai ser o nosso segredo! — Em seguida, ele coçou a cabeça, parecendo indeciso sobre como começar. — Bem, pode parecer meio estranho a princípio, mas quando estou assim, nervoso, ou com medo de enfrentar um monte de gente desconhecida, fecho os meus olhos e me imagino em um palco vazio, como se fosse um teatro e estivesse ali para atuar, para representar uma cena ou para dizer um texto. Não tem ninguém na plateia, então posso ser o que quiser naquele momento, posso dizer o que quiser, porque eu sei que tenho um lugar onde estou protegido, onde não tem ninguém para me julgar. Então, quando imagino isso, fico mais calmo e faço o que tenho de fazer. Depois de ouvi-lo, fiquei refletindo por um tempo sobre o que ele havia me falado, e achei muito interessante como Diogo tinha criado esse refúgio dentro dele mesmo. — Que tal? Você quer tentar? — Perguntou, um pouco inseguro. — Tentar o quê? — Eu questionei, piscando os olhos repetidas vezes. — Fechar os olhos e fazer de conta que está em um palco, talvez isso ajude você também a se acalmar, assim como acontece comigo. Olhei para Diogo indecisa. Ele, provavelmente, percebendo meu dilema, sorriu para mim, um sorriso tão lindo e tão doce que me desarmou completamente. Foi a primeira vez que ele sorriu só para mim, e foi esse seu gesto espontâneo que me fez decidir. — Ok. Vou tentar. — Sorri também. Sentei-me mais reta na cama, fechei os olhos, respirei profundamente e procurei visualizar o que ele tinha dito. Aos poucos senti que relaxava, e no final estava me sentindo até um pouco sonolenta. Abri os olhos ao sentir uma mão no meu ombro. — Funcionou? — Perguntou tranquilo, e sorri para ele. — Acho que sim. — Murmurei. — Então… você desce comigo? Prometo que fico do seu lado o tempo todo. — Ao ouvir aquilo, senti meu coração batendo mais forte, com a força da minha emoção. — O tempo todo? Promete mesmo? — Eu não conseguia acreditar. — Prometo. — Ele se levantou da cama e estendeu a mão para mim. — Vamos? Olhei para aquela mão e estendi a minha, que ele agarrou com firmeza, puxando-me para que ficássemos de pé. — Essa é a minha cor favorita. — Ele disse, apontando para o meu vestido, e senti que eu corava imediatamente. — Sabe, acho que você poderia ser um ator. — Falei, enquanto caminhávamos em direção à porta. — Ator? — Questionou, surpreso — Por que diz isso? — Não sei, mas quando você disse que se imagina em um palco ou em um teatro, eu tive essa impressão. Acho que você leva jeito, pense nisso. — Hum... quem sabe? — Ele disse sacudindo os ombros. Ao sair do quarto com ele ao meu lado, eu só não tive coragem de revelar uma coisa: quando fechei os olhos e visualizei o palco, não me imaginei sozinha, me imaginei com ele. Aquele Natal foi meu rito de passagem na família Smith. Depois desse evento, eu podia me considerar um m****o da família de fato. E, desse dia em diante, entrei de cabeça no estilo de vida deles, que aos poucos se tornou o meu também. Fui matriculada em uma escola, que não ficava muito longe da nossa casa, a mesma escola que Diogo, Angel e Mel frequentavam. Não demorou muito para eu fazer algumas amizades na escola nova. O tempo passava, e à medida que a vida seguia seu curso os meses transformavam-se em anos, com uma sucessão de acontecimentos normais na vida de qualquer família; formaturas, aniversários, apresentações escolares e extracurriculares, recitais de música e dança, além de férias, viagens e tantas outras atividades de que uma família de classe média podia usufruir. Sendo meu pai chefe do setor de contabilidade de uma grande empresa mineradora e minha mãe administradora hospitalar, não éramos ricos, contudo usufruíamos de um padrão de vida confortável, o que nos permitia poder estudar em boas escolas. E, com base em nossas aptidões individuais, desenvolvíamos nossos talentos ao frequentarmos aulas de piano, violão e dança. Assim como também praticávamos diferentes tipos de esporte, como natação, futebol e tênis. Os anos passam rápido quando se está feliz, e eu tinha a impressão de que tinha piscado os olhos e já estava mais velha. E, naquele ano, ao completar 11 anos, quase podia sentir o cheiro de mudança no ar, já que meu corpo estava mudando e as vezes eu sentia coisas que não sabia nomear ou explicar.
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