O cansaço era tão absoluto que minha mente demorou um segundo a mais para reagir ao que estava acontecendo. Um segundo precioso. Um segundo que, em situações normais, poderia significar a vida de um paciente na minha mesa de cirurgia. Mas ali, naquele instante, significava a minha própria sobrevivência.
Minha primeira reação foi instintiva: travei as portas do carro. Minhas mãos tremiam ao fazer isso, e minha respiração acelerou ao ponto de me fazer sentir tonta. Eu deveria estar pensando racionalmente, encontrando uma saída, mas meu cérebro parecia incapaz de se concentrar. Tudo que eu queria era dormir, me jogar na minha cama e esquecer das últimas quarenta e oito horas. Mas agora… agora eu tinha que lidar com algo muito maior do que fadiga.
Os homens se aproximavam devagar, cada passo calculado, e eu sentia a adrenalina subir como uma descarga elétrica pelo meu corpo. Meu coração martelava contra meu peito, um ritmo caótico que eu reconheceria em qualquer monitor cardíaco.
Taquicardia. Sintoma de pânico.
A diferença é que, dessa vez, não havia nada que eu pudesse fazer para controlar. Nenhuma respiração profunda, nenhum cálculo racional sobre como desviar do perigo.
Pisquei rápido, tentando forçar meu cérebro a funcionar. Pensa, droga!
O silêncio dentro do carro era ensurdecedor, contrastando com o zunido do vento lá fora. Minhas mãos estavam fixas no volante, os dedos tensos, frios, mas meu olhar estava preso nele. O homem parecia feito para desestabilizar qualquer pessoa, e eu não era exceção. A maneira como ele tirou o capuz, como se cada movimento tivesse um propósito. As luvas pretas escondiam suas mãos, mas o restante do corpo falava por si só. Ombros largos, postura relaxada, mas carregada de uma presença perigosa. A camisa preta aberta em alguns botões revelava traços de tatuagens que percorriam seu peito e subiam pelo pescoço, desenhos que eu não conseguia decifrar de onde estava, mas que deixavam claro que aquele homem era marcado.
E então ele puxou uma pistola do coldre.
Minha respiração travou. Meu coração deu um solavanco tão forte que doeu dentro do peito. Minha mente gritava para eu reagir, para eu sair dali, mas meu corpo não me obedecia. Tudo que consegui fazer foi arregalar os olhos e soltar um suspiro mudo quando ele ergueu a mão e bateu de leve no vidro do carro.
Toque.
Engoli em seco. Ele usava óculos escuros e fones de ouvido, o que tornava ainda mais difícil decifrar suas intenções.
Toque.
Mais uma vez, paciente. Como se não houvesse qualquer urgência, apenas a expectativa de que eu fizesse o que ele queria.
— É melhor baixar o vidro.
A voz dele veio firme, grave, carregada de algo que reverberou direto na minha pele, fazendo cada pelo do meu corpo se arrepiar. Eu não podia dizer se era medo ou algo pior.
— Ele não é à prova de balas, não é?
Foi a segunda coisa que disse, e dessa vez o tom parecia quase brincalhão. Quase. Mas a mensagem estava clara. Meu vidro, por outro lado, não era nada além de uma barreira frágil entre nós.
Minhas mãos tremiam quando toquei o botão e comecei a abaixá-lo devagar. O ar pareceu se tornar mais pesado quando nossos mundos se misturaram.
E então ele tirou os óculos.
O azul dos olhos dele me atingiu como um golpe inesperado, intenso, afiado, me puxando como se eu tivesse sido arrastada para o fundo do mar. Não era só a cor, mas a forma como ele olhava. Como se soubesse exatamente o efeito que tinha.
— Não precisa ficar com medo. — Ele disse de forma tão natural que quase acreditei.
Quase.
Eu ainda sentia meu coração disparado, a adrenalina correndo solta no meu sangue. Mas, em vez de travar completamente, minha boca, por algum motivo, decidiu agir por conta própria.
— Essa é sua maneira de chamar uma mulher pra sair?
O silêncio se estendeu por um segundo antes que ele soltasse um riso baixo, rouco, cheio de uma diversão que me fez sentir ainda mais i****a.
— Você é interessante. — Ele comentou, inclinando-se um pouco mais na janela. — Mas eu não vim aqui para isso.
— Olha, eu não sei o que vocês querem, mas eu não sou nem um pouco rica. Trabalho muito. Na verdade, acabei de sair de um plantão. Estou completamente cansada. Você pode ser até uma alucinação na minha cabeça. Só que, se isso for verdade, eu estou completamente maluca. Porque você é lindo de morrer, mas parece bastante perigoso. Os dois carros que me pegaram e me trouxeram até aqui são bem aterrorizantes. E você está segurando uma arma que, com certeza, não é de brinquedo.
Minha boca disparava palavras sem que eu conseguisse controlar. O medo pulsava dentro de mim, mas, ao mesmo tempo, minha mente já estava cansada demais para processá-lo direito. Meu corpo pedia descanso, minha mente gritava alerta. Uma mistura confusa.
— Então, por favor, apenas me deixe ir para casa, tomar um banho e dormir. Eu sei o que estou pedindo. Eu juro que não vou contar nada disso para ninguém. Afinal, é só uma alucinação na minha cabeça, não é?
O silêncio que se seguiu pareceu eterno. Ele me observava, impassível, e então abriu um sorriso leve, quase preguiçoso. Meu Deus. Devia ser um crime um homem ser tão bonito assim. Aquele maxilar definido, a barba rala apenas realçando os traços marcantes, os cabelos escuros um pouco desgrenhados, caindo sobre a testa de um jeito que parecia descuidado, mas era fatalmente charmoso.
— Doutora Steven, sei que está cansada.
Meu sangue gelou.
Ele sabe quem eu sou.
E eu nem estou usando meu crachá.
Meu corpo ficou rígido no mesmo instante. Ele inclinou levemente a cabeça, estudando minha reação, e prosseguiu:
— Você vai descansar. Eu quero você bem relaxada para o trabalho que tem que fazer para mim.
Franzi a testa, confusa. Trabalho para ele? Do que ele estava falando?
— Eu não sei o que você acha que eu sou, mas sou apenas uma cirurgiã. Trabalho no hospital. Se precisar de ajuda, podemos voltar. Eu posso fazer o que for necessário lá, juro que vou...
Ele ergueu a mão e pousou um dedo contra meus lábios, interrompendo minha frase no meio.
Meu coração deu um pulo.
Meus olhos se arregalaram, e por um breve instante, temi que ele fosse me agredir. Mas não. Não era esse tipo de gesto.
O toque foi firme, mas suave. Um aviso. Um controle absoluto.
Minha respiração vacilou.
Aquele movimento me deixou ainda mais tensa. E, para minha própria surpresa, ainda mais atraída por ele.
— Saia do carro, Dra. Steven.
A voz dele me puxou de volta à realidade como um choque elétrico.
Minha garganta secou. Meus dedos se fecharam contra o tecido da minha roupa, e antes que eu percebesse, a resposta escapou automaticamente dos meus lábios:
— Não.
O silêncio foi cortante.
— Saia do carro, Dra. Steven.
Dessa vez, o tom ficou mais duro, sem espaço para negociações. Um comando. Quase uma ameaça.
Meu coração disparou.
— Olha, eu não sei quem você é e nem o que quer comigo, mas eu não vou com você. Me deixa em paz!
Meu protesto saiu mais desesperado do que firme. Ele não respondeu de imediato, apenas ergueu a arma de forma sutil, mas sem pressa, como se soubesse que eu já estava derrotada.
— Saia do carro, Dra. Steven.
Foi então que o ar ficou preso na minha garganta.
Minhas mãos tremiam quando destravei a porta. Meu corpo inteiro protestava, mas minha mente já sabia que eu não tinha escolha.
Devagar, abri a porta e saí.
O homem me observou por um momento, satisfeito, e então guardou a arma no coldre debaixo do casaco.
— Tá vendo? Se você cooperar, vai ficar tudo bem. E logo, logo, estará em casa.
O tom dele era tranquilo, quase gentil. Como se não tivesse acabado de me arrancar do meu próprio carro sob ameaça.
Meu estômago revirou.
Porque, no fundo, eu sabia que ele estava mentindo.