capítulo 2

1302 Words
— Está na hora de acordar. — Eu falo em voz alta. Ele me olha estranhamente. Então eu fecho os olhos e respiro fundo. — Vamos, acorda. Você está cansada. Foram mais de 24 horas acordada. Eu sei o quanto isso é cansativo. Teve uma cirurgia longa. Mas está na hora de acordar, Ava. Precisa voltar para casa. Tomar um banho e se deitar. Não fica nessa paranoia. Isso não pode ser verdade. Então eu sinto ele me puxar. Abro os olhos novamente e o encaro. Ele está tão perto de mim. Aquelas enormes mãos no meu braço. Chega a minha carne doía. — Está na hora de calar a boca, doutora. — Ele diz, ameaçador. Mas o problema é a minha língua. Geralmente eu tenho a língua solta. Não faço ideia de como eu cheguei até aqui. Sem que eu a tenha cortado fora. Entretanto, saber a hora de calar a boca era difícil. Eu não sei o que estava acontecendo. O momento era complicado. Tinha homens com armas atrás de mim. Me sequestrando. Eu deveria ficar calada e fazer tudo o que eles quisessem. Mas isso não estava acontecendo. — Olha aqui. Eu não conheço você. — Eu disse puxando o braço. Mas ele não me soltou. Na verdade, isso só fez doer mais ainda. — Mas eu não calo a boca com facilidade. Falo besteira a todo momento. Então se você pensa em me levar, não sei pra que, tem que ter em mente que ficar de boca calada é a última coisa que eu vou fazer. Deu pra ver ele estreitando os olhos com muita raiva. — Tem a ciência que eu posso arrancar a sua língua fora. — Ameaçou. Eu revirei os olhos. Bem, se era pra eu morrer, já estaria morta. — Olha, eu estou com medo. Acredite. Você, todo alto, bonitão, cheiroso assim.... — Minha mente começou a dissociar. Eu estava falando coisas que não deveriam sair pela boca. — Enfim. Eu não consigo. Então você vai ter que lidar e perdoar tudo o que eu fizer. Entretanto, eu fico me questionando por que você está fazendo isso. Eu não sou nem um pouco rica. E que tipo de trabalho é esse que você quer que eu faça? Eu sou cirurgiã. Não uma contadora. Ele, aparentemente, ficou sem paciência. Simplesmente me arrastou dali. Quase entrando no carro da frente. — Não, peraí. — Eu protestei. Tentando me soltar. Mas, ele olhou pra trás. Com seus olhos pegando fogo. E dessa vez, eu engolia a língua. Meu coração batia acelerado, não só pelo pavor, mas pela absurda reviravolta que minha noite tinha dado. — Olha aqui — a voz dele era baixa, grave, mas carregada de ameaça. — Eu tô com meu pai ferido, e você é a única pessoa que pode salvar a vida dele. Eu já estou estressado e me contendo muito pra não fazer uma besteira. Então cala a p***a da sua boca e faz o que eu estou mandando. Entra no carro e engole essa sua língua, porque você não vai precisar dela para abrir o peito do meu pai. As palavras dele eram afiadas como lâminas. A tensão na sua mandíbula e o olhar escuro me diziam que ele não estava blefando. Meu corpo inteiro congelou, e um calafrio percorreu minha espinha. Ele realmente esperava que eu fizesse uma cirurgia cardíaca ali, no meio do nada? — Se você quiser que eu abra o seu pai e salve a vida dele, por que não levou ele até o hospital? — perguntei, tentando manter a voz firme, mesmo que por dentro eu estivesse à beira do pânico. — Por que não me procurou antes? Ele soltou um sorriso torto, algo entre o sarcasmo e o desdém. — Querida, se eu quisesse chamar você, eu teria feito isso. Mas não sei se você percebeu, a situação é outra. Eu não sou uma pessoa normal, muito menos o meu pai. — Ele se inclinou ligeiramente para frente, seus olhos prendendo os meus, perigosos, insondáveis. — O seu único dever agora é salvar a vida dele. E se você se comportar, vai estar em casa logo, logo. Eu quis cruzar os braços em desafio, mas o aperto firme no meu pulso me impedia. — Por um acaso, você está falando a verdade? O sorriso dele se alargou, um brilho c***l dançando em seus olhos. — Descubra isso fazendo o que eu estou pedindo. Engoli em seco. Eu poderia correr. Poderia tentar lutar. Mas e se ele estivesse falando a verdade? E se aquele homem morresse porque eu recusei? Meu olhar se desviou para os outros homens ao redor, todos inexpressivos, meros espectros de perigo, prontos para agir ao menor comando do chefe. Isso já devia ser rotina para eles. Respirei fundo e encarei aquele homem desconhecido, que tinha o poder de decidir meu destino com um simples aceno de cabeça. Ele finalmente resolveu me soltar, permitindo que eu entrasse no carro por conta própria. Não hesitei em fazê-lo, mas cada fibra do meu corpo protestava contra aquele ato. Odiei tudo naquele ambiente: o banco de couro frio sob minhas pernas, o cheiro de carro novo misturado com algo mais amadeirado, o ar pesado que parecia se condensar ao meu redor. Mas, acima de tudo, odiei quando ele escolheu se sentar ao meu lado. Não no banco do motorista, que já estava ocupado por outro homem silencioso e atento. Nem ao lado dele, onde qualquer um normalmente se sentaria. Não, ele fez questão de se instalar bem ao meu lado, o ombro largo quase encostando no meu, como se precisasse garantir que eu não teria nem a chance de tentar alguma coisa. Talvez fosse só isso — ou talvez fosse para me lembrar, sem precisar dizer nada, que eu não tinha controle sobre absolutamente nada ali. Minha mente se agarrava à única explicação lógica para tudo isso: um engano. Eu estava sonhando, presa em um delírio induzido pela exaustão. Minha mãe já tinha me dito incontáveis vezes que eu precisava dormir mais, parar de me afogar no trabalho. Mas eu nunca ouvi. Nunca desacelerei. Agora, pagava o preço. Eu deveria estar em casa, enrolada no meu cobertor, assistindo um filme qualquer, confortável no meu pijama velho e desbotado. Mas, em vez disso, aceitei mais um plantão. Trabalhei até tarde. E agora estava aqui. Indo sabe-se lá para onde. Ele não parou de me encarar durante todo o trajeto. Seu olhar era pesado, um peso que eu não queria carregar, mas que se impunha mesmo assim. Fiz de tudo para não memorizar o caminho, para não prestar atenção nos prédios, nas curvas, nas placas que passavam rápido demais pela janela. Se ele realmente me libertasse, eu não queria carregar nenhuma lembrança disso. Queria apagar esse momento como um erro que nunca deveria ter acontecido. Mas, no fundo, sabia que mesmo se tentasse, não conseguiria. Minha mente fervilhava, a adrenalina pulsando sob minha pele, tornando impossível qualquer tentativa de racionalizar a situação. O que diabos me levou até ali? Por que ele me escolheu? O que pretendia comigo? Se estava falando a verdade e ia mesmo me libertar... Bem, eu rezava para que sim. Porque, se não, eu estava perdida. E o pior de tudo? Eu nem tinha culpa. A culpa era do meu talento. Havia tantos cirurgiões cardíacos na cidade. Tantos. Então, por que ele escolheu justamente a mim? Eu queria perguntar. Queria entender. Mas sabia que testar a paciência desse homem — paciência que, para ser honesta, eu nem tinha certeza que existia — era o pior erro que eu poderia cometer. Já tinha falado e feito o suficiente. O melhor agora era manter a boca fechada. Fazer o que ele queria. E rezar para que, no fim de tudo, ele realmente me deixasse ir embora.
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