Capítulo 4- “Seria justo”

1015 Words
… Chegamos à mansão. Entramos pelas portas dos fundos… as mesmas por onde escapei. Como se o destino zombasse de mim, me fazendo voltar exatamente pelo mesmo caminho. Tudo foi feito às pressas, às escondidas. Ele não queria que os convidados notassem a minha ausência. Subimos as escadas em silêncio. O som dos meus passos parecia ecoar mais alto que os próprios batimentos do meu coração. Assim que entramos no quarto, ele fechou a porta com força e me empurrou sobre a cama. — “Esse casamento é mais pelo seu bem do que pelo meu.” — disse ele, com o rosto endurecido, como se tentasse justificar o injustificável. Fiquei ali, olhando para ele saindo do quarto, tentando entender o sentido das palavras dele… mas nada fazia sentido. Nada justificava o que ele fez. A dor. A humilhação. A perda. Pouco depois, três mulheres entraram novamente. Como pela manhã, começaram a me preparar — retocando a maquiagem, ajeitando meu cabelo, ajustando o novo vestido que ele já havia mandado separar. Era como se nada tivesse acontecido. Eu não era mais uma noiva. Eu era uma prisioneira de branco. E então, abriram a porta novamente. Era Helena. Corri pra ela num impulso e a abracei com força, como se aquele fosse o último fio de afeto que me restava no mundo. — “Desculpa...” — sussurrei, mesmo sem saber exatamente pelo quê. Talvez por tudo. Ela não respondeu. Apenas me abraçou mais forte. E ali, naquele instante, mesmo prestes a me casar com um estranho… eu só queria congelar o tempo. Logo depois, trouxeram também um vestido para Helena. Tudo estava sendo feito nos mínimos detalhes… como se fosse o casamento mais feliz do mundo. Mas por dentro, eu estava em ruínas. Os preparativos terminaram. E então, uma batida seca na porta. Meu padrasto. — “Está na hora de ir ao encontro do noivo.” Engoli em seco. Contive as lágrimas. Não adiantaria chorar mais. Ele estendeu a mão. Hesitei por um segundo… e entreguei a minha. Descemos as escadas. O salão estava lotado. Assim que entrei, todos se levantaram. O som dos aplausos soava mais como zombaria do que celebração. Caminhei ao lado do meu padrasto até Ethan. Ele estava parado ali, imóvel, com aquele olhar que eu ainda não conseguia decifrar. Me recebeu com um gesto contido. Sentamos. Fizemos os votos. Assinamos os papéis. E estava feito. Casamento sem amor. Sem escolha. Sem verdade. A festa seguiu. Sorrisos falsos, flashes, música, brindes. E eu… tentando disfarçar, forçando um sorriso enquanto por dentro meu peito gritava. Foi então que comecei a ouvir cochichos. Palavras cortantes que atravessavam o salão como navalhas. — “Ela só quer dinheiro.” — “Abandonou o noivo por ambição.” — “Sem vergonha…” Cada palavra parecia afundar mais fundo dentro de mim. Mentiras, maldades… Mas que, de tanto serem repetidas, começaram a confundir até a minha própria mente. Minha respiração ficou mais curta. Tudo girava devagar. Os sons ficaram abafados. E então… Tontura. E meus olhos… simplesmente… se fecharam. Um desmaio. Quando acordei, tudo estava mais calmo — silencioso demais. Estava deitada, no quarto do Ethan. Ao meu lado, Helena segurava minha mão com força, os olhos marejados. Do outro lado, Ethan, com o semblante sério, mas visivelmente preocupado. — “Você desmaiou...” — disse Helena, baixo. — “A gente ficou com muito medo.” Assenti, tentando me levantar. — “Já estou bem…” — respondi, mas era só da boca pra fora. Olhei ao redor, respirei fundo… e a angústia voltou com tudo. Senti o peso da coroa em minha cabeça, os brincos apertando minhas orelhas, o colar sufocando meu pescoço. E o vestido… aquele vestido tão bonito por fora, mas que parecia um símbolo da prisão em que eu vivia. Comecei a arrancar tudo de mim, com pressa, com raiva. A coroa caiu no chão. Os brincos foram jogados na cama. Tentei abrir o zíper do vestido sozinha, mas não consegui. Me debatia, frustrada. — “Sai… sai de mim…” As lágrimas escorriam sem parar. Ethan observava, calado, até se levantar e sair do quarto, sem dizer uma palavra. Helena correu até mim e me abraçou, tentando me acalmar. Começou a me ajudar a soltar o vestido, com cuidado. — “Vai ficar tudo bem, Luna… vai ficar…” — sussurrava ela, enquanto minhas lágrimas molhavam o ombro dela. Mas, no fundo, nenhuma de nós acreditava de verdade naquelas palavras. Algumas horas depois, já vestida com minha roupa de dormir, tentei me desligar de tudo. A casa estava silenciosa, e parecia que Helena e o papai já tinham ido embora. Apaguei as luzes, deitei-me na cama bem forrada, virada para o lado da porta, tentando encontrar um pouco de paz. Mas meu coração ainda pesava. Foi quando a maçaneta se moveu. A porta abriu devagar, e Ethan entrou com passos calmos. Meu corpo gelou por um instante. Só então percebi… eu ainda estava no quarto dele. — “O que está fazendo aqui?” — perguntei, tentando esconder o incômodo na minha voz. Ele respondeu com naturalidade: — “Esse é o meu quarto.” E claro, ele tinha razão. Era eu quem tinha esquecido. Levantei-me de imediato, com pressa, indo até a porta para sair. Mas Ethan se adiantou, posicionando-se à minha frente. Tentei ir para o lado — ele também. Mudei para o outro — e ele fez igual. Como se estivesse brincando. — “Está de brincadeira?” — perguntei, irritada. — “Não. Só acho que marido e mulher dormem no mesmo quarto.” Minha respiração ficou presa por um instante. Engoli em seco e respondi: — Isso não é, e não “seria justo”. Nem comigo, nem com você. Somos duas pessoas que não se amam. Empurrei ele de lado, firme, e saí do quarto sem olhar para trás. Entrei no meu quarto e comecei a pensar na brincadeira que ele fez. Depois me dei um t**a e disse pra mim mesma: —“Volta pra terra mulher, volta” …
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