Alana evitou Dante durante dois dias inteiros.
Cada passo que dava na fazenda era cuidadosamente calculado para não cruzar o caminho dele. Tinha medo do que ele podia fazer... mas, ainda mais, medo do que ela mesma podia sentir se o visse novamente.
No entanto, Dante não era homem de aceitar o silêncio como resposta. E muito menos, de ignorar algo que mexia tanto com ele.
Desde o beijo impulsivo e bruto que trocara com Alana, Dante não fora mais o mesmo. A lembrança da boca dela ainda pesava no seu peito como uma corrente apertada.
Ele já beijara mulheres — muitas, demais — mas nunca perdera o controle. Nunca sentira a urgência de voltar. De entender. De... cuidar.
“Ela não é como as outras.”
Esse pensamento o incomodava.
Na varanda da casa principal, Dante observava os campos ao longe, mas era a imagem de Alana que dominava sua mente. O jeito como ela tremia, mas não se curvava. O olhar desafiador, mesmo com medo. A boca vermelha. Os olhos que queimavam de raiva e desejo.
Rosália, a empregada mais antiga da fazenda, percebeu a inquietação do patrão.
— Desde que voltou, o senhor não parou um segundo... Agora, vive olhando pro nada.
Dante nem respondeu. Apenas se afastou e desceu as escadas com passos decididos. Se Alana queria distância, ele respeitaria. Mas não por muito tempo.
Ele precisava entender o que era aquilo que sentia.
Do outro lado da casa, Alana esfregava as tábuas da cozinha com força, tentando remover uma mancha que nem existia.
O suor escorria pelo rosto, a respiração pesada, o coração ainda mais.
Rosália havia tentado conversar com ela, mas Alana estava fechada em si. Cada vez que a memória do beijo surgia, ela a empurrava para longe, como se fosse possível negar o que acontecera.
Mas negar não apagava o calor que havia sentido.
Nem o arrepio na nuca.
Nem o vazio estranho depois que ele se afastou.
Marta entrou na cozinha como uma tempestade disfarçada.
— Olha só... a protegida do velho está trabalhando. Milagre — disse, apoiando-se na pia, com os braços cruzados e um sorriso venenoso nos lábios.
Alana ergueu os olhos, mas não respondeu.
— Já sei o que você está fazendo — continuou Marta. — Tá querendo fisgar o Dante. Igual fez com o pai dele. Deve estar achando que vai virar dona dessa fazenda, né?
Alana se levantou, respirando fundo.
— Eu não preciso provar nada pra você.
— Não mesmo — Marta sorriu, se aproximando. — Mas saiba que o Dante sempre foi meu. Desde crianças. E você? Você é só mais uma. O tipo de mulher que se esquece quando a noite termina.
As palavras de Marta doíam.
Porque tocavam num ponto que Alana tentava desesperadamente esquecer: ela não pertencia àquele lugar. Era uma estranha. Uma prisioneira.
E mesmo assim... algo dentro dela queria pertencer a ele.
Sem dizer mais nada, Alana saiu da cozinha e correu para os fundos da casa. Precisava de ar. De distância.
Mas quando dobrou o corredor lateral, deu de cara com Dante.
O mundo parou.
O som dos grilos desapareceu. O farfalhar das folhas, o crepitar distante da lenha no fogão, até o leve assobio do vento entre as janelas — tudo se calou naquele instante. Só restaram os olhos de Dante, cravados nos dela, como se o tempo se curvasse diante daquela colisão inevitável.
Alana congelou, os dedos crispados na barra do vestido puído, o peito arfando como se tivesse corrido léguas. Não esperava encontrá-lo ali. Não daquele jeito. Tão perto. Tão... perigoso.
Ele também parou. Mas não recuou.
Havia algo nos olhos dele — não era raiva, nem apenas desejo. Era algo mais denso, um tipo de dor misturada à curiosidade. Um tormento silencioso.
— Estava te procurando — disse ele, com a voz rouca, baixa, como se temesse assustá-la.
Ela engoliu em seco, os músculos tensos como cordas prestes a arrebentar.
— Por quê? — perguntou, erguendo o queixo numa ousadia que não sentia, mas precisava fingir.
Dante deu um passo adiante. O chão de madeira antiga rangeu sob suas botas.
— Porque eu preciso entender o que está acontecendo entre nós.
Entre nós... não existe “nós”, Dante.
As palavras saíram rápidas, afiadas. Como escudos de uma guerreira assustada.
Ela cruzou os braços, como se quisesse manter o coração dentro do peito. Como se temesse que ele visse o quanto já estava vulnerável.
Dante parou a um passo de distância. E abaixou o tom, como quem fala com um animal arisco.
— Você sente, Alana. Não minta. Eu vejo nos seus olhos.
Ela virou o rosto, determinada a cortar o laço invisível que o olhar dele insistia em costurar entre os dois. Mas não conseguiu fugir do toque: a mão dele segurou seu braço. Não com brutalidade — como o pai dele faria — mas com firmeza. Uma âncora no meio do furacão.
— Me solta — ela pediu, com a voz falha, como um sussurro quebrado pelo próprio medo.
— Eu não sou meu pai — Dante sussurrou de volta, a respiração dele roçando o ar ao redor do rosto dela. — E não quero que você tenha medo de mim.
Essas palavras a desmontaram.
Ela o olhou, e seus olhos estavam cheios d’água. Mas não de tristeza.
Era um turbilhão de sentimentos. Era raiva por sentir algo. Era desejo por alguém que ela deveria odiar. Era vergonha por não conseguir controlar o corpo quando ele se aproximava. E era medo. Medo de confiar. Medo de cair. Medo de se machucar de novo.
— Mas eu tenho — ela disse com honestidade brutal, encarando-o como quem encara um precipício.
Dante parou. Pela primeira vez, hesitou.
Viu nela a menina ferida. A mulher empurrada para dentro de uma prisão disfarçada de fazenda. E sentiu uma dor aguda no estômago. Como se ele fosse cúmplice de tudo aquilo apenas por carregar o sobrenome Oliveira.
— Eu vou provar que você pode confiar em mim — disse ele, enfim, soltando o braço dela com um cuidado que contrariava tudo que ela sabia sobre homens como ele. — Mesmo que demore. Mesmo que você não queira agora.
As palavras pairaram no ar, entre eles. Quentes. Cheias de promessas que ele talvez nem soubesse como cumprir.
Ela o observou por um segundo a mais. Os olhos dele não tinham desvio. Não havia deboche. Nem arrogância. Apenas uma verdade crua, difícil, absurda.
Sentiu o nó apertar na garganta. Uma parte dela queria ficar. Queria perguntar se tudo aquilo era real. Se o Dante que a beijou era o mesmo homem que agora prometia cuidado.
Mas a outra parte — a parte ferida, acuada, moldada pela dor e pela perda — venceu.
Alana se virou. E correu.
Não por covardia.
Mas por sobrevivência.
.
Na mesma noite, Marta entrou no quarto de Seu Augusto.
Ela sabia exatamente como envenenar os pensamentos do velho.
— A moça que o senhor comprou... Alana... ela anda muito próxima do Dante.
O velho arqueou a sobrancelha.
— Que história é essa?
— Vi com meus próprios olhos. Os dois no corredor dos fundos. Pareciam íntimos. Bem íntimos.
Augusto cerrou os dentes.
Aquela garota era sua posse. Uma moeda de troca.
Não admitiria que ela subisse de posição... nem mesmo por meio do próprio filho.
— Fique de olho — ele ordenou. — E se ela tentar alguma gracinha, me avise. Antes que essa v***a destrua o que resta do meu império.
Alana se encolheu na cama durante a madrugada.
Sonhou com Dante. Com o beijo.
Com o toque gentil que ele demonstrara naquele dia, ao dizer que não era o pai.
Mas também sonhou com a raiva de Augusto. Com Marta rindo em sua cara.
E com a certeza de que sua vida estava se tornando um labirinto sem saída.
O coração dela estava dividido.
Entre o medo... e o que poderia ser amor.