Pernas Quentes
— Então, porquê insistir nisso? Não há motivo para continuarmos a discutir sobre isso. - Disse Bernardo.
— E se não der certo? - Perguntou Helena.
— Eu tenho costas quentes, lá no topo, meu tio é braço direito do Director. Relaxa mulher, esse emprego é meu. Em breve, estaremos a morar na cidade. Confie em mim. - Disse Bernardo.
Foi dessa forma que os pais de Adriana, ainda jovens, saíram da vila onde nasceram e cresceram, e se mudaram para cidade, com o empurrão das ditas costas quentes.
Adriana é a terceira filha de Bernardo e Helena. Ela nasceu numa altura muito turbulenta na vida do casal do casal. Bernardo estava sem emprego, e Helena com seu salário de servente, tinha que custear todas as despesas da casa.
Deixa começar do começo: Bernardo e Helena não eram apaixonados, quando se casaram, também, naquela época, maior parte dos casamentos eram feitos por decisão dos mais velhos. O casal aprendeu a se gostar com a convivência. Bernardo trabalhava como vendedor em uma loja, o que lhe tornava um bom partido na zona.
Logo depois de se casarem, Helena engravidou e tiveram o primeiro filho, Alex. No ano seguinte, Bernardo, conseguiu um outro emprego. Foi contratado como fiel de armazém numa rede de farmácias, assim, mudaram-se para a cidade, como ja tinha um salário razoável, para o nível social deles, conseguiram arrendar uma casinha. Com sorte, meses depois, Helena conseguiu um emprego de servente, numa fábrica de sacos plásticos.
Com o rendimento do casal, tinham uma vida social não tão baixa, quase a espreitar a média.
Dois anos depois, foram agraciados com uma filha, Cecília. Depois de três anos, tiveram mais um filho, o Isac. Bernardo e Helena trabalhavam, não recebiam muito, mas tinham condições de cuidar dos filhos, e da casa. Depois, tiveram Adriana, um doce de menina, com brilho desde o dia que foi colocada no mundo. A menina chamou atenção de todas as parteiras e de outras mães, na maternidade, de tão linda que era.
Sorte ou azar, até parecia um pouco diferente dos outros membros da família, porque era única ligeiramente, mais clarinha.
No ano em que Adriana nasceu, Bernardo envolveu-se num esquema com colegas, acabou sendo expulso e perdeu todos os direitos. Não tinham dinheiro para pagar uma escolinha para Adriana, mas ela era tão querida, que aceitaram que entrasse na escolinha da igreja, como beneficiária. E foi magnífico, pois, com três anos, Adriana conhecia todas as letras e os números.
Curiosamente, com quatro anitos, já sabia ler e escrever, como fosse aluna da terceira classe. Era interessante ver como, com aquela idade, Adriana, lia jornais.
— Essa menina tem um processador acelerado. - Diziam uns.
— Deve ser superdotada. Como pode uma criança de quatro anos, conhecer a tabuada de soma?! - Diziam outros.
Seu irmão Alex, dava muita dor de cabeça aos pais, não gostava de estudar, andava envolvido em grupos de conduta duvidosa; reprovou duas vezes na décima classe, depois abandonou a escola, por dois anos. Envolveu-se em confusões, seus pais lhe deram um ultimato, que para viver com eles, devia voltar a estudar. Então, levou três anos para fazer a décima classe.
Iniciou a décima primeira, e logo se envolveu noutro barulho: engravidou uma miúda de um bairro vizinho. Quando as famílias forçaram-no a casar, ele fugiu. Ficou meses sem dar as caras, só voltou, quando a filha nasceu. Cheio de agressividade, disse que não ia se casar. A mãe obrigou-lhe a trabalhar, então, foi trabalhar numa bomba de combustível, como limpador de carros, para que pudesse ajudar a sustentar a filha.
Cecília era uma menina fechada, parecia ser bastante séria, não tinha problemas na escola, nem de relacionamento com outras pessoas, mas tinha algo que chamava bastante atenção nela,: é que era uma pessoa sem ambição, sem motivação, sem ideias, sem foco, até sem sonhos.
Durante anos, Bernardo ficou sem trabalho fixo, fazia alguns biscates, sem nada fixo, e em alguns meses, não conseguia ganhar nada. Helena segurou a família, tinham muitas discussões, porque Bernardo não conseguia nada, e o que conseguia gastava na bebida, pelo menos, é no que Helena acreditava.
Adriana, já na segunda classe, foi chamada para grupo de crianças que representavam a cidade, fazia as leituras das mensagens nas datas comemorativas. Sempre que houvesse alguma cerimónia na escola, Adriana era chamada para representar a escola, pois, para além de inteligente, era belíssima.
— É a queridinha dos professores. - Diziam os colegas.
Ela dispensou na quinta classe. Não se sabe se foi pelas ocupações, ou pelos problemas que enfrentavam, mas a menina não teve nenhum elogio. Ninguém a parabenizou, não ganhou nada, nem um abraço, nem um beijo de nenhum integrante da sua família.
Todos em sua casa, andavam muito ocupados com seus próprios problemas, que não tinham tempo para olhar pela pequena Adriana.
Filhos precisam de atenção, precisam de monitoramento frequente, muitos pais acabam se cegando somente em seus problemas, e se esquecem que aqueles a quem eles colocaram no mundo, precisam de atenção.
Quando crianças não têm merecido essa atenção, precisam ter caráter, para não se desviar e se manter focadas, sempre para continuar nos trilhos certos, ou acabam se desviando pelas ilusões do mundo.
Continua...