capítulo 17

1213 Words
Vegas on O quarto estava silencioso, iluminado apenas pela luz suave do abajur. Vegas recostou-se na cabeceira da cama, observando Pete do outro lado do cômodo. O ar entre eles parecia carregado, mas não de palavras, e sim de tudo que não estava sendo dito. Pete tinha acabado de falar. As palavras ainda ecoavam na mente de Vegas. —Você já tem uma resposta para o que eu disse? — A voz de Pete era calma, mas havia algo ali, algo que fazia Vegas prender a respiração por um instante. Vegas passou a língua pelos lábios, sentindo uma leve tensão nos ombros. Não era uma pergunta que ele queria responder. Durante toda a sua vida, tinha aprendido que as pessoas queriam escapar dele, fugir do seu controle. Mas Pete… Pete queria que ele escolhesse. Que desse uma resposta definitiva. O silêncio entre eles era pesado, cheio de significados não ditos. Vegas inclinou a cabeça, observando cada detalhe do rosto de Pete. O olhar dele era firme, sem hesitação. Era isso que mais o desarmava—Pete não tinha medo. Mesmo depois de tudo, depois de toda a dor, ele ainda estava ali, esperando por algo que Vegas não sabia se podia dar. Vegas soltou uma risada baixa, mais para si mesmo do que para Pete. —Você é louco — murmurou, passando a mão pelos cabelos. Pete não respondeu de imediato. Apenas continuou ali, imóvel, esperando. Ele queria uma resposta, e Vegas sabia que não podia enrolá-lo para sempre. Vegas odiava essa sensação. Odiava não ter controle da situação. Ele era quem dava as cartas, sempre. Mas com Pete… com Pete era diferente. Pete o tirava do eixo, o fazia questionar tudo o que acreditava sobre posse, poder e vulnerabilidade. E, no fundo, Vegas sabia a verdade. Ele não podia fugir disso. Ele era um mafioso. Estava tomando conta do império que seu pai deixou quando morreu. Não havia uma saída para ele, não sem sangue, não sem consequências. Mas dizer isso para Pete… admitir isso em voz alta… seria como decepcioná-lo. Como destruir a esperança que brilhava nos olhos dele. Vegas respirou fundo, sentindo o peso da escolha que nunca teve. Ele poderia dizer algo c***l, afastá-lo, fingir que nada daquilo importava. Mas, pela primeira vez, Vegas não teve certeza se queria que Pete fosse embora. Talvez Pete estivesse certo. Talvez não houvesse outra vida para eles. Mas, se houvesse… Vegas não sabia se poderia dar isso a ele. Vegas suspirou e desviou o olhar antes de finalmente dizer: —Talvez seja melhor você se afastar. Ir embora. A reação de Pete foi imediata. Seus punhos se fecharam ao lado do corpo, e a calma forçada que ele mantinha se desfez em segundos. —É isso? — Pete deu um passo à frente, sua voz carregada de irritação. — Depois de tudo, essa é a sua resposta? Me mandar embora? Vegas manteve a expressão impassível, mas por dentro, algo nele se contorcia. Ele sabia que essa era a única saída lógica. Ele era um mafioso. Essa vida não mudaria. Mas ver Pete reagir daquela forma, ver a frustração nos olhos dele, fazia seu peito apertar de um jeito que ele não queria admitir. —Estou te poupando, Pete — disse em um tom baixo, mas firme. Pete riu sem humor, balançando a cabeça. —Poupando? Você acha que eu preciso disso? Que eu não sei exatamente o que estou fazendo aqui? Vegas não respondeu. Ele não podia. Porque no fundo, talvez fosse ele que precisasse se convencer de que estava fazendo a coisa certa. Pete soltou um suspiro pesado e passou a mão pelo rosto, tentando conter a frustração. —Sabe qual é o problema, Vegas? Você se esconde atrás dessa merda de "eu sou um mafioso" como se isso fosse a única coisa que te define. Como se você não pudesse ser mais do que isso. Vegas estreitou os olhos, sua postura ficando rígida. —E se for? — Ele desafiou. — E se eu não quiser ser mais do que isso? E se essa for a única coisa que eu sei fazer? Pete deu um passo ainda mais próximo, sua voz firme, sem hesitação. —Mentira. — Ele cuspiu a palavra, encarando Vegas de perto. — Você quer mais. Você só tem medo de admitir. Vegas sentiu o peito apertar. Pete o via de uma forma que ninguém mais via. Isso o assustava mais do que qualquer arma apontada para sua cabeça. —Vai embora, Pete. — Sua voz saiu mais baixa do que ele queria. Pete o estudou por um longo momento, seus olhos escuros ardendo de emoções. Então, ele soltou um riso curto, incrédulo. —Não. — Foi tudo o que ele disse. Vegas franziu o cenho. —O quê? —Eu não vou embora. — Pete cruzou os braços. — Você pode mentir para si mesmo o quanto quiser, Vegas. Mas eu não vou a lugar nenhum. O silêncio caiu sobre os dois novamente, mas dessa vez era diferente. Dessa vez, Vegas sabia que não havia mais como fugir. Pete deu um passo ainda mais próximo, invadindo o espaço de Vegas. Seus olhos estavam cheios de fúria, mas também de algo mais profundo. Algo que fazia Vegas se sentir vulnerável. —Se você realmente quisesse que eu fosse embora, Vegas, já teria me feito ir. Mas não fez. Sabe por quê? Porque você me quer aqui. Porque você não quer ficar sozinho nisso tudo. Só não tem coragem de admitir. Vegas desviou o olhar, os dedos apertando o lençol ao seu lado. Ele queria discutir, negar, mandar Pete calar a boca. Mas não conseguia. Porque Pete estava certo. Pete se inclinou um pouco mais, o suficiente para Vegas sentir sua respiração quente contra a pele. —Então pare de tentar me afastar. Eu já tomei minha decisão. Agora é você que precisa tomar a sua. Vegas fechou os olhos por um instante, sentindo o peso das palavras de Pete. Ele sempre soube que esse momento chegaria. O momento em que ele teria que escolher entre a solidão segura de sempre ou o risco de ter alguém ao seu lado. Quando abriu os olhos novamente, Pete ainda estava ali, esperando. Vegas engoliu seco, seu coração martelando forte contra o peito. E, pela primeira vez, ele não sabia o que fazer. Pete esperou por alguns segundos, mas não obteve resposta. Ele suspirou, irritado, e virou-se, andando até a porta. —Quer saber, Vegas? Eu estou cansado de esperar por você. Cansado de tentar te convencer de algo que você já sabe. — Ele passou a mão pelos cabelos, a frustração evidente. — Você precisa decidir se vai continuar fugindo ou se vai encarar o que sente. Mas eu não vou ficar aqui implorando por algo que você mesmo quer e não tem coragem de admitir. Vegas sentiu um aperto no peito ao ver Pete girar a maçaneta. Ele queria chamá-lo de volta, segurá-lo, impedi-lo de sair. Mas suas mãos permaneceram imóveis, os lábios cerrados. Porque o medo de escolher ainda era maior do que o desejo de mantê-lo ali. Pete parou por um segundo, sem olhar para trás. —Dessa vez, a decisão é sua. — E então, ele saiu, deixando Vegas sozinho com seu silêncio e sua indecisão.
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