Heloísa
Minhas mãos envolvem uma caneca fumegante de café enquanto me encosto no balcão da cozinha. Os eventos da noite passada ainda ecoam na minha mente, mas me esforço para afastá-los, mantendo uma expressão corajosa.
Os olhos preocupados do Sr. Salva encontram os meus.
— Helô, você tem certeza de que está bem? — pergunta em voz baixa.
Concordo com a cabeça, tentando parecer mais confiante do que realmente me sinto.
— Tenho que estar, vovô. Pela Sophia.
Ele suspira, colocando sua própria caneca sobre o balcão.
— Vou passar lá hoje para ver o estrago.
— Ah, não, Vovô. Não quero que você se machuque... — começo, mas ele levanta a mão, abafando meus protestos com firmeza.
— Essa loja é tanto minha quanto sua, Querida. — diz com aquela severidade suave que só ele consegue. — Estarei lá hoje.
Antes que eu possa responder, Sophia irrompe na cozinha. Seu rosto se ilumina ao me ver, e a expressão que ela carrega faz meu coração amolecer.
— Mãe! Você chegou!
Consigo sorrir de verdade, largando minha caneca para envolvê-la em um abraço apertado.
— Bom dia, querida. Dormiu bem?
Ela acena com entusiasmo.
— Sim, mas eu estava preocupada com você. A loja está bem?
Troco um olhar rápido com o Vovô antes de responder.
— Falaremos sobre isso depois, meu amor. Agora, que tal eu te levar para a escola?
Os olhos azuis de Sophia se arregalam de surpresa e alegria. Embora ela tenha puxado o pai fisicamente, seus gestos, sorrisos e até o jeito de franzir o nariz são todos meus.
— Sério? Você vai me levar?
A empolgação dela me dá uma pontada de culpa. Faz tanto tempo que não consigo algo tão simples quanto acompanhá-la até o portão.
— Claro — respondo, forçando alguma animação na voz. — Está pronta para ir?
Sophia corre para buscar sua mochila, e eu me viro para o meu avô.
— Preciso melhorar — murmuro. — Ela não deveria ficar tão animada por algo tão básico.
O Sr. Salva aperta meu ombro com carinho.
— Você está dando o seu melhor, Heloísa. E Sophia sabe disso.
Assinto, mas a culpa ainda se agarra em mim como sombra. Quando Sophia retorna com a mochila nas costas e um sorriso radiante no rosto, faço uma promessa silenciosa. Não importa o que aconteça com a loja, preciso estar mais presente. Para ela. É hora de mudar.
— Pronta pra ir, garota esperta? — pergunto, estendendo a mão.
Sophia a segura, seus dedinhos quentes entrelaçados aos meus.
— Pronta!
O sol da manhã projeta longas sombras na calçada enquanto caminhamos pelas ruas movimentadas de Nova York. A cidade já pulsa com vida: buzinas, passos apressados, vozes dispersas.
— Mãe, olha aquele mural! — Sophia aponta animadamente para uma pintura vibrante em um prédio próximo.
Sorrio, mas minha mente foge para a Elegance. Quanto foi destruído? Será que vamos conseguir recuperar alguma coisa? Um nó se forma no meu estômago.
Passamos por um pequeno café. O aroma de café fresco e doces recém-assados paira no ar, e, inevitavelmente, penso em Damian. Sinto uma pontada no peito. Sou tão grata por ele ter estado lá ontem à noite. Sem ele…
Sophia me puxa de volta ao presente.
— Podemos tomar chocolate quente aí um dia desses?
— Claro, querida — respondo, afastando momentaneamente os pensamentos sobre Damian.
Mas eles voltam sorrateiros enquanto espero com Sophia na faixa de pedestres. A lembrança da nossa noite me aquece por dentro. Foi... intensa. Inesperada. A melhor que já tive. Mas eu não posso me dar ao luxo de deixar meu coração se envolver. Relacionamentos são imprevisíveis. E minha vida, não.
Entramos numa rua arborizada, folhas começando a tingir-se de dourado e ferrugem. Sophia fala animadamente sobre seu projeto de ciências. Me esforço para manter o foco nela.
Talvez relacionamentos não sejam pra mim. Mas isso — cuidar da minha filha, manter a loja, construir uma rotina — é o que importa. É seguro. É conhecido.
A escola se ergue à frente, um bloco imponente de tijolos, envolto em um mar de crianças e pais nos portões.
— Heloísa?
Viro a cabeça devagar, sentindo a respiração prender na garganta. E então o vejo.
Alto. Loiro. Os olhos azuis me encaram, incrédulos.
Klaus McLaren .
Meu estômago se revira.
Não. Não pode ser.
Um pânico gélido me atravessa, se infiltrando nos meus ossos. Me forço a inspirar fundo, a encontrar algum controle. A mão de Sophia está quente na minha. Me abaixo, beijo sua bochecha com ternura.
— Tenha um bom dia, querida — sussurro. Minha voz quase se perde no barulho da cidade. Com um último aperto de seus dedinhos, vejo-a desaparecer pelos portões.
— Heloísa!
Ouço a voz dele novamente, agora mais perto. Meus joelhos vacilam. Começo a andar rápido, olhos fixos no chão. Mas os passos dele são mais rápidos.
Isso não pode estar acontecendo. A náusea me atinge. Ontem à noite sonhei com ele. Com aquilo. E agora... aqui está ele. Um fantasma. Um pesadelo com rosto real.
Como ele me achou? Como?
E então me ocorre. Sophia.
Meu coração dispara. Ela é a cara dele. Os mesmos olhos, o mesmo tom de cabelo. Ele só precisa olhar direito para saber.
Por favor, que ele não tenha notado. Por favor.
As lágrimas brotam. Apresso os passos, mas ele está perto. Muito perto. Sinto seu calor atrás de mim. Sua voz.
— Heloísa — diz, hesitante. — Como você está?
A pergunta paira no ar, pesada e absurda. Como se houvesse algo simples a dizer. Minha mente gira, entre raiva, medo e nojo. Quero gritar. Mas tudo trava na garganta.
— Vi o noticiário hoje de manhã... sobre o incêndio — continua, a voz com uma nota falsa de preocupação. — Te vi. Estava indo ver como você estava.
Meu coração para.
Ele me viu. E agora está aqui. Fingindo se importar. Onde estava esse carinho nove anos atrás, Klaus? Quando você me violentou?
A fúria me invade, quente, amarga.
As lembranças me atacam com violência — sua respiração ofegante, o peso do seu corpo, minhas súplicas ignoradas.
— Me deixa em paz — sussurro. Fraco. Quase inaudível.
— Eu só quero conversar — diz ele, insistente.
— Não há nada para conversar — retruco, mais firme agora.
— Eu... não sabia que você tinha uma filha — diz, observando meu rosto.
Não. Não. Não.
— Não é da sua conta — solto, cuspindo as palavras.
Viro para sair. Mas uma mão agarra meu braço.
O gelo me atravessa. Arranco meu braço com força, cravando as unhas nas palmas.
— NÃO me toque! — sibilo.
Ele parece surpreso. Depois, sua expressão muda.
— Quantos anos ela tem?
— NÃO É DA SUA CONTA! — grito. A voz ecoa pela calçada. Algumas pessoas olham.
Os olhos dele se estreitam. Há um brilho estranho neles, ameaçador.
— Eu olhei bem para o rosto dela — diz com frieza. — Ela é a cara da minha irmã.
Meu mundo gira. Não consigo respirar. Ele sabe. Ele está ligando os pontos.
— Não — sussurro. — Não…
— Ela é minha? — ele pergunta, apertando meu braço com mais força.
Balanço a cabeça violentamente, minha negação tão desesperada quanto fútil.
— Não — repito, com a voz trêmula.
Ele não acredita em mim. Seus olhos penetram os meus, em busca de uma mentira. Sinto-me exposta, em carne viva, como um animal ferido. Quero correr, me esconder. Mas estou paralisada, paralisada pelo medo.
Meu corpo está em alerta máximo, cada terminação nervosa gritando para eu correr. Esse é o mesmo homem que roubou minha inocência, minha segurança. E agora, ele está...
Parado aqui, a centímetros de mim, agindo como se fosse uma conversa normal. Tento manter a voz firme, soar racional, mas minha mente é uma tempestade caótica.
— Mesmo que fosse sua, você me estuprou para me engravidar — consigo dizer, com a voz trêmula. — Você não se lembra disso?
Ele parece confuso, então um lampejo de algo sombrio atravessa seu rosto.
— Do que você está falando?
Quero bater nele, fazê-lo sentir a dor que me causou. Mas sei que não posso. Preciso manter a calma para proteger Sophia. — Você sabe exatamente do que estou falando — digo, elevando a voz. — Você me estuprou.
Klaus fica boquiaberto. — Estupro? — sibila ele. — Eu não te estuprei. Você claramente gostou de t*****r comigo.
— Eu estava bêbada e louca, com quinze anos! — retruco, com o coração disparado. — Gritei para você me soltar — para me deixar ir para casa. Gritei para alguém me ajudar. Como foi esse consentimento, Klaus?
O desgraçado dá de ombros — ele dá de ombros de verdade.
— Vamos ter que concordar em discordar. Foi há muito tempo. Sua memória provavelmente está confusa, mas você me queria, Heloísa. Agora, sobre a nossa filha...
— Minha filha — sibilo. Quero bater nele, para que sinta a dor que ele me causou. Mas sei que não posso. Preciso manter a calma para proteger a Sophia.
Ele ignora. — Quero um teste de DNA.
— Você está Louco — eu suspiro, meu coração prestes a saltar do meu peito. — Somos estranhos. Você precisa me deixar em paz.
Tento recuar, mas ele está bloqueando meu caminho. Seus olhos estão fixos nos meus, e sinto uma onda de pânico. Preciso me afastar dele.
— É uma bênção ter encontrado você — diz Klaus, descontraído, embora seu olhar seja tudo menos educado.
Minha esposa e eu estamos nos divorciando. Nós dois queremos filhos, mas nunca conseguimos ter. E descobrir que tenho uma filha esse tempo todo? Finalmente posso ser pai.
— Você nunca será o pai dela! — eu grito.
Ele estende a mão e toca meu braço. Meu corpo reage antes que minha mente consiga processar. Eu grito, minha voz um grito estridente que ecoa no ar da manhã. Golpeio meu punho, acertando seu queixo. Ele cambaleia para trás, surpreso, emitindo um grito de dor. Aproveito o momento e corro, minhas pernas se movimentando o mais rápido que posso.
Ouço-o gritar meu nome, mas me recuso a olhar para trás. Corro cada vez mais rápido. Minhas pernas queimam, meus pulmões gritam.
Um beco escuro surge, um farol de esperança desesperada. Eu mergulho, com o coração martelando nas costelas. A parede de tijolos está fria contra minhas costas enquanto deslizo para baixo, meus joelhos cedendo. Lágrimas escorrem pelo meu rosto, embaçando minha visão. Minha respiração sai em arquejos irregulares, cada um deles um soluço.
O que eu devo fazer agora? Klaus nunca deveria ter encontrado a mim e a Sophia. Nova York tem milhões de habitantes. Como ele conseguiu finalmente me encontrar?
Esse não é o fim de Klaus. Ele quer um teste de DNA. Ele quer ser pai de Sophia.
Ah, Deus, e se ele tirar ela de mim?
Uma onda de terror me invade, ameaçando me afogar. O que vou fazer?
De repente, meu telefone vibra e eu respiro fundo. Tiro o celular da bolsa e vejo que recebi uma mensagem do Katherine.
Ei, garota! Acabei de me sentar no restaurante. m*l posso esperar para te ver!
Merda. Merda. Merda. Merda . Esqueci completamente do meu encontro com a minha melhor amiga, Katherine, para o brunch. Onde diabos a gente ia se encontrar mesmo?
Com as mãos trêmulas, vou subindo as mensagens até encontrar nossa conversa sobre o brunch. Parece que combinamos de ir a um restaurante perto da escola do Elegance e da Sophia, então, felizmente, fica a apenas alguns minutos de caminhada.
Já estou indo!
Chego ao restaurante em tempo recorde. Alisando o cabelo, respiro fundo ao entrar. Meu coração ainda está acelerado pelo encontro com Klaus, mas me forço a me concentrar no presente. Katherine está me esperando, e não quero preocupá-la.
Eu a vejo imediatamente, sua pele de ébano brilhando sob a luz suave do restaurante enquanto ela analisa o cardápio. Ela olha para cima, e seus olhos castanhos se iluminam ao me ver, e ela me faz sinal para ir até a mesa.
— Helô! Aí está você — diz ela, levantando-se para me dar um abraço rápido. — Eu estava começando a achar que você tinha se esquecido de mim.
Consigo sorrir enquanto entro na mesa em frente a ela.
— Nunca. Desculpe o atraso.
Os olhos de Katherine se estreitam levemente enquanto ela analisa meu rosto. — Certo, desembucha. O que houve?
— O quê? Não tem nada — digo, talvez um pouco rápido demais.
Katherine ergue uma sobrancelha, cética. — Helô, a gente se conhece desde o ensino fundamental. Eu sei quando você está escondendo alguma coisa. É a loja? Aconteceu algo?
Suspiro, vencida pela percepção dela. Não dá pra esconder nada da Katherine. Ela tem sido meu porto seguro em tantos momentos difíceis — a pessoa que segurou minha mão quando descobri a gravidez da Sophia, que me ajudou a reerguer depois que todo mundo virou as costas. Ela é mais irmã do que amiga.
— É... muita coisa — admito com um fio de voz. — A loja... teve um incêndio ontem à noite.
Os olhos de Katherine se arregalam em choque. — Meu Deus, Helô. Você está bem? E a loja? Perdeu tudo?
Balanço a cabeça, o peso da realidade caindo mais uma vez sobre mim. — Ainda não sei. Não foi perda total, mas... é r**m. Bem r**m.
Ela estende a mão por cima da mesa, apertando a minha com força e carinho. — Eu sinto muito. Quer que eu faça alguma coisa? Posso falar com alguns dos meus clientes, ver se eles estariam dispostos a fazer pedidos antecipados, ajudar com os custos da reconstrução...
A generosidade dela me desmonta. As lágrimas brotam antes que eu consiga contê-las.
— Obrigada, Katherine. Isso... isso seria incrível.
Ela assente, os olhos voltando a me examinar com aquela expressão analítica. — Mas não é só isso, né? Tem mais coisa te deixando assim.
Hesito. Parte de mim quer guardar aquele encontro só pra mim, manter a dor encapsulada. Mas essa é a Katherine. Se tem alguém com quem posso dividir tudo, é ela.
— Eu... eu vi o Klaus essa manhã — sussurro, como se dizendo em voz alta tornasse mais real.
Katherine prende a respiração. — Klaus? Tipo... o Klaus?
Concordo com a cabeça, os olhos colados na xícara de café, como se ela tivesse as respostas.
— Ah, Helô... — ela diz, baixando o tom, compreensiva. — Sinto muito. Quer me contar?
O rosto preocupado dela me lembra por que confio tanto nela. Com um nó na garganta, conto tudo. Desde o encontro com Klaus e a Sophia, até o desejo dele de fazer um teste de DNA. Falo também sobre Giovanni, a ameaça, o incêndio — e como tudo parece parte de uma sequência de desgraças. Até menciono o ataque, com relutância. Quando começo a falar de Damian, Katherine me interrompe.
— Espera, espera! Volta. Quem é Damian? — pergunta, olhos arregalados.
Corando, percebo que tinha esquecido completamente de mencionar aquele detalhe. — Ah. O Damian é... ele apareceu na loja ontem. Tá me ajudando com essa história toda do Giovanni.
— E? — insiste ela, claramente farejando mais.
Mordo o lábio. — E... ele é provavelmente o cara mais gato que eu já conheci.
Os olhos de Katherine se iluminam como se fosse Natal. — Sério? Em que nível de gato estamos falando?
Antes que eu possa responder, ela já está com o celular na mão, os dedos voando. — Qual o sobrenome dele?
— Lucchese — digo, meio rindo da empolgação dela.
De repente, Katherine ofega, arregalando os olhos. Alterna o olhar entre mim e o celular.
— Helô... quando você disse “gostoso”, você não tava brincando. Esse cara é um copo d’água no deserto!
Dou risada, mais leve. — Eu te avisei!
Ela balança a cabeça, incrédula. — Se fosse comigo, eu já estaria derretida no chão. Como você tá se segurando?
Por um instante, esqueço tudo — o incêndio, Klaus, o medo — e me vejo apenas sendo uma mulher comum, rindo com a melhor amiga.
— Já dormiu com ele? — pergunta Katherine, em tom provocante. — Eu teria pulado em cima dele na hora!
Sinto minhas bochechas queimarem. — Foi só uma transa de uma noite, ok? Nada demais.
— Helô Saldano, sua safada! — exclama ela, batendo palmas e gargalhando. — Conta tudo! Foi bom?
— Foi... foi incrível. Nunca gozei com tanta força na vida.
— Caramba! — Ela quase bate a mão na mesa. — E você ainda vem me dizer que não quer saber de relacionamento?
— Porque eu não quero — respondo com firmeza. — Amor é bagunçado. Relacionamentos são imprevisíveis. Eu preciso de estabilidade pra mim e pra Sophia. Algo confiável, planejado.
— Mas, Helô...
Ela não termina. O toque agudo do meu celular corta o ar. Pego rapidamente da bolsa e congelo ao ver o número da escola de Sophia.
— Alô?
Enquanto escuto, sinto meu estômago despencar.
— Desaparecida? Como assim?
Katherine se endireita na cadeira, assustada com meu tom.
Olho pra ela, com o coração disparado.
— É a Sophia. Houve um treinamento de incêndio na escola... e agora ela está desaparecida.
O mundo para. O chão some sob meus pés.
Sophia, meu bebê, sumiu.
E eu não faço ideia de onde ela está. Ou com quem.