Capítulo 6

2377 Words
Damian A fumaça sobe em espirais densas em direção ao céu da manhã enquanto estou de pé, com os punhos cerrados, diante do Cristal Lake . O cheiro acre de borracha e gasolina queimadas invade minhas narinas, misturando-se ao ar frio. Meu carro — ou o que restou dele — é uma ruína carbonizada. O veículo que era absurdamente elegante, preto como a noite, agora é apenas um monte de metal retorcido e fumegante. Carlo está ao meu lado, o maxilar travado como uma mordaça de aço. Os outros Dons de La Familia também estão ali, cochichando entre si, as expressões oscilando entre preocupação e curiosidade velada. Estão esperando. Esperando que eu diga ou faça algo. Querem ver como um Lucchese responde a um insulto tão descarado. — Giovanni — grito, minha voz cortando o ar como uma lâmina gelada. Ele dá um passo à frente com aquele sorriso maroto que me dá vontade de esmagar seus dentes contra o meio-fio. — Parece que alguém quis te mandar um recado, Damian — diz ele com uma entonação quase debochada. — Está claro que você andou pisando em calos errados. Meu sangue ferve. Ele sabe exatamente o que isso significa. Um carro-bomba não é só um ataque — é uma mensagem. Um lembrete c***l de que não cheguei a tempo para salvar meu pai. Um fantasma do passado assombrando meu presente. Dou um passo em direção a Giovanni, mas ele, com toda sua pose insolente, tira um fiapo invisível do paletó. — Tut, tut, Damian. Sem necessidade de violência. Só estou dizendo o óbvio. O sorriso presunçoso dele só alimenta a raiva que cresce no meu peito. Quero apagar aquele olhar provocador do rosto dele com os nós dos meus dedos. Mas me contenho. Perder o controle agora seria um erro. Espancar Giovanni na frente dos outros só mostraria fraqueza. E fraqueza, nesse mundo, é uma sentença de morte. — Você está se divertindo com isso, não é? — rosno. Giovanni dá de ombros, sem perder a expressão irônica. — Só estou observando, Damian. Alguém está cutucando o vespeiro. Talvez você devesse descobrir quem, antes de sair batendo em todo mundo. Avanço num impulso, mas Carlo segura meu braço com força. — Aqui não, chefe. Agora não — murmura, tentando me ancorar à razão. Respiro fundo, deixando que a presença firme dele me contenha. — Saia da minha frente, Giovanni — digo entre os dentes. — Antes que eu mude de ideia. Ele faz uma reverência exagerada, teatral, ainda com o mesmo sorriso cínico de sempre. — Como quiser. E então some na multidão, como uma sombra m*l-intencionada. Solto o ar que nem percebi que estava prendendo. Os Dons ainda estão me observando. Avaliando. Pesando minha reação. Não posso me dar ao luxo de parecer frágil. Não agora. Não nunca. — Carlo, coloque nossos homens nisso. Quero nomes, rostos e motivos. — Minha voz sai firme, sem hesitação. Ele assente de imediato, já puxando o celular para acionar nossa rede. Volto-me para os restos fumegantes do carro, o estômago revirando. Quem fez isso cruzou uma linha. Tornou isso pessoal. E vão pagar com juros. A imagem do meu pai, ensanguentado no chão, relampeja na minha mente. Eu falhei com ele uma vez. Não deixarei que a história se repita. A rua agora está estranhamente silenciosa. As chamas já se apagaram, restando apenas o esqueleto do carro como uma cicatriz aberta na paisagem urbana. Os outros Dons começam a se dispersar, mas seus olhares dizem tudo — o equilíbrio de poder está tremendo. — Chefe — diz Carlo, chamando minha atenção. — Vamos encontrá-los. Quem fez isso vai se arrepender. Assinto, sentindo o peso da responsabilidade se firmar nos meus ombros. — Eles acham que vão me assustar com um maldito carro-bomba? Eles não têm a menor ideia do que começaram. Entro no carro de Romero, a expressão calma mascarando a tormenta dentro de mim. A imagem do carro ardendo ainda pisca na minha mente, um alerta constante de como tudo pode ruir em segundos. — Leve-nos até Lupita — ordeno, a voz cortante como vidro. Chegamos à Galeria de Arte. Respiro fundo, tentando acalmar a tempestade interna. Ligo para ela. Lupita atende com sua costumeira impaciência. — O quê? — Estou aqui — respondo simplesmente, antes de desligar. Poucos instantes depois, Lupita surge na porta. A cabeça raspada, a grande tatuagem sobre as cicatrizes de queimadura reluz sob a luz. Os olhos escuros dela, sempre atentos, me analisam rapidamente. — Damian — diz, surpresa misturada com uma sombra de preocupação. — O que você está fazendo aqui? — Giovanni voltou. Seus olhos se arregalam levemente, reconhecendo o peso dessas palavras. Ela recua, abrindo caminho para que entremos. Seguimos até o estúdio dela, onde o ar é tomado pelo cheiro de tinta fresca e terebintina. O espaço é amplo, com paredes de tijolos expostos e obras de arte vibrantes cobrindo quase todos os cantos. Há esculturas espalhadas, algumas completas, outras em construção. Em um canto, uma escada leva ao loft onde Lupita dorme. Mas o verdadeiro talento dela não está nas galerias — está nas falsificações. Ela é uma lenda entre os círculos mafiosos de Nova York. — Tenho alguns clientes novos chegando — começo, tentando aliviar o clima. — Vamos precisar falsificar documentos para os carros personalizados que vão pra Sicília... — Poupe seu fôlego, Damian — ela corta com um gesto. — Me diga por que Giovanni voltou. Antes que eu possa responder, Romero se mete. — Provavelmente não aguentou Chicago. Alvarez deve ter chutado ele pra fora. Veio rastejando pra causar confusão aqui. Lupita se vira bruscamente para ele, os olhos faiscando. — Pedi sua opinião, Romero? Não? Então feche a boca. A tensão entre os dois sempre foi um fio esticado, prestes a arrebentar. Uma dança constante entre provocação e algo mais que nenhum dos dois admite. Pigarreio, trazendo o foco de volta para mim. — Giovanni não voltou sozinho. Ele está fazendo movimentos grandes. Tem o apoio de Chicago. Não está mais brincando com as regras antigas. O rosto de Lupita fica tenso. — O quão r**m isso é? Hesito. A imagem do carro explodindo volta à minha mente. — Não tenho provas. Mas tudo aponta pra ele. Suspeito que Giovanni esteja por trás do carro-bomba. E acho que foi ele quem mandou incendiar a Elegance. Lupita empalidece. Nós dois lembramos da floricultura da família dela. Daquela noite. Do cheiro de fumaça e das sirenes. Do terror. Ela era uma criança, ferida por algo que nunca deveria tê-la tocado. A máfia Barrone queria dinheiro. Quando a família dela não pôde pagar, Giovanni resolveu mandar uma mensagem — em fogo. E eu, desesperado, corri para dentro quando ouvi gritos. Tirei Lupita de lá a tempo. Desde então, somos ligados por algo mais forte do que palavras. — Então ele voltou para terminar o que começou? — sussurra ela. — Parece que sim — diz Romero, quase num murmúrio, se recostando na parede. — Mas agora… ele não é apenas um peão rebelde. — Ele é o novo chefe da Família Barrone — completo. O silêncio que se instala é espesso como fumaça. Porque todos ali sabem: Giovanni não está mais jogando. Ele está liderando. E não veio para conversar. Veio para a guerra. Lupita morde o lábio. — O que Giovanni quer com a Elegance? Esse lugar é território neutro. Todo mundo sabe disso. — O desgraçado quer dinheiro para proteção — cuspi, ainda me lembrando dos gritos de Helô enquanto eu a carregava para fora da loja. — E eu pretendo fazê-lo pagar por isso. Lupita inclina a cabeça para o lado. — E o que isso importa pra você? Hesito, sem saber como explicar minha conexão com a Elegance… e com Heloísa. Lupita , sempre perspicaz, levanta um dedo. — Espera um minuto — diz ela, estreitando os olhos. — Qual é exatamente o seu envolvimento com a Elegance? Você nunca mencionou isso antes. Pigarreio, sentindo-me subitamente exposto. Ignoro o sorriso malicioso de Romero ao meu lado. — É... complicado. A dona, Heloísa, ela... — Ah — Lupita me interrompe, e um sorriso cúmplice começa a se formar em seu rosto. — Entendi. Heloísa, é? Me conta mais sobre ela. Me mexo desconfortavelmente. — Ela é só alguém que estou tentando ajudar. Giovanni está causando problemas pra loja dela. O sorriso de Lupita se alarga. — Só alguém que você está tentando ajudar? Damian, eu te conheço há anos. Consigo perceber quando tem mais coisa por trás. — Não é bem assim — protesto, mas até eu consigo ouvir a falta de convicção na minha voz. — Acho ótimo — diz ela, suavizando o tom. — Você merece alguém na sua vida, Damian. Balanço a cabeça, as lembranças queimando sob a superfície. — Amor não é pra mim, Lupita . Você sabe disso. As pessoas com quem me importo... elas sempre acabam como alvo. Meu pai, você... Nunca estou onde preciso estar pra impedir uma tragédia. A expressão de Lupita se torna séria. — Damian, você não pode continuar se punindo por coisas que não foram sua culpa. — Não posso? — murmuro, mais pra mim mesmo do que pra ela. Ela suspira e muda de assunto abruptamente. — Então, qual é o plano com o Giovanni? Vamos caçá-lo agora e cuidar da vida pessoal depois? — Não. Isso começaria uma guerra entre todas as Famílias. Precisamos agir com inteligência. Giovanni precisa cair, mas não por motivos ligados à Máfia. Um sorriso irônico surge nos lábios de Lupita . — A vingança é sempre mais doce quando é pessoal... — Ela suspira. — Mas você tem razão. Mesmo que eu fosse a responsável, ainda pareceria um golpe, dada a nossa história. — Exatamente. Precisamos ser cuidadosos e estratégicos. Um movimento em falso e tudo pode explodir na nossa cara. Lupita começa a andar de um lado para o outro, o cérebro claramente trabalhando. — E se descobrirmos alguma sujeira sobre ele? Algo que faça as outras Famílias virarem contra ele? — É um começo — admito. — Mas precisaríamos de provas concretas. E conhecendo o Giovanni, ele provavelmente já limpou todos os rastros. — Filho da p**a — murmura ela. — E nem pense em falsificar alguma coisa — aviso, sorrindo ao ver a expressão irritada no rosto dela. — Qual é, G. Você é a melhor do estado. Sabe que isso não funcionaria. Lupita abre a boca para responder quando meu telefone toca. O nome de Heloísa aparece na tela. Ela está quase histérica. — Damian, a Sophia desapareceu! — grita, com pânico na voz. — Fui até a Elegance, mas não consigo entrar! Alguém instalou um novo sistema de segurança! Por favor, me ajuda! Merda. Esqueci de contar pra ela sobre o novo sistema que instalei. — Já estou indo — digo antes que a ligação caia. Lupita ergue uma sobrancelha. — Aonde você vai? — A Heloísa precisa de ajuda na Elegance — respondo, já indo em direção à porta. O sorriso de Lupita se alarga, lembrando o do Gato de Cheshire. — Ah, entendi. Heloísa precisa de ajuda — diz, fazendo barulhos exagerados de beijo. Reviro os olhos, mas não consigo conter o sorrisinho que escapa. — Cai fora, Lupita . Ao sair, vejo Lupita e Romero já discutindo de novo. Num minuto estão brigando, no outro, são uma dupla imbatível. Como daquela vez em que passaram horas discutindo estratégia antes de bolar um plano brilhante que salvou nossas peles. Eles vivem de conflito. E, de algum modo, fazem isso funcionar. — Tentem não se matar enquanto eu estiver fora! — grito por cima do ombro. — Sem promessas — resmunga Romero, enquanto Lupita apenas sorri. Corro até meu carro e sigo para a Elegance. Ao estacionar, vejo Helô andando freneticamente do lado de fora, quase em pânico. Ao lado dela, uma mulher n***a, alta e bonita tenta acalmá-la. Lembro das medidas de segurança que instalei: fechaduras reforçadas, sistema de alarme de última geração, vidros à prova de balas... Tudo muito eficiente. Exceto quando se esquece de contar à dona da loja. — Helô! — grito, saindo do carro e correndo até ela. — Damian! — Ela se joga nos meus braços. — Não consigo encontrar a Sophia. A escola ligou dizendo que ela sumiu, então corri pra cá e... e não consigo entrar! — Vai ficar tudo bem — digo, apertando-a com força enquanto ela treme nos meus braços. — Eu tenho os códigos. Vamos entrar agora. A mulher ao lado de Helô me observa com curiosidade, um leve sorriso nos lábios. — Então esse é o famoso Damian — diz, com um toque de diversão. Helô cora, mesmo com os olhos cheios de lágrimas. — Ah... hum, Damian, essa é minha amiga Katherinea. Katherinea, Damian. Aceno para Katherinea e me viro para Helô. — Vamos te levar pra dentro, ok? Enquanto digito o código, sinto os olhos de Katherinea em mim. Imagino o que Helô contou sobre mim. A fechadura emite um clique e a porta se destrava. Heloísa suspira de alívio, empurra a porta com o ombro e corre para dentro. O interior da Elegance ainda cheira a fumaça. Há água pingando do teto e a bagunça do incêndio anterior continua evidente. Poderia ter sido pior. — Sophia! SOPHIA! — Helô grita, correndo escada acima em direção ao apartamento. Eu vou logo atrás, com Katherine nos seguindo. — Sophia, onde você está?! — A voz dela ecoa pelas paredes. Meu coração bate forte, acelerado. Se Sophia não está aqui... então onde diabos ela está? Pensamentos sombrios me atravessam, e todos os piores cenários me vêm à mente. Mas não posso me deixar levar pelo pânico agora. Helô chega à porta do apartamento primeiro, tentando destrancá-la com mãos trêmulas. Me aproximo, pego as chaves gentilmente e abro a porta. Entramos correndo. — Sophia! — Helô grita de novo, com a voz embargada. E então a vemos. Sophia está encolhida em um canto da sala, os joelhos abraçados contra o peito. Parece exausta, apavorada. Suas roupas estão sujas e o rosto manchado de lágrimas. O alívio me atinge com força, fazendo minhas pernas quase falharem. Mas esse alívio logo dá lugar à preocupação. O que aconteceu com ela?
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