(Narrado pela autora)
O morro tinha códigos. Uns eram escritos, outros viviam apenas no silêncio dos becos, mas todos sabiam que quem quebrava esses códigos não tinha volta. Carlinhos, o Gerente, conhecia essas regras melhor do que ninguém. Só que, ironicamente, ele próprio já as tinha rompido — e agora alguém havia descoberto.
Esse alguém era Pardal, seu sub. Pardal não era burro. Pelo contrário, era atento, observador, do tipo que prestava mais atenção no que não era dito do que nas palavras jogadas ao vento. Tinha aprendido cedo que, em um lugar como aquele, sobreviver dependia de entender as entrelinhas. E foi assim que acabou notando algo errado nas movimentações de Carlinhos.
As conversas rápidas no celular, os encontros fora de hora, as ordens que pareciam estranhas… até que, juntando peças soltas, Pardal concluiu o impossível: Carlinhos estava passando informações para uma facção rival.
Traição ao Comando.
Aquilo não podia ser falado. Nem em voz baixa. Nem para a sombra.
Mas Carlinhos percebeu que Pardal sabia. Bastou um olhar atravessado, uma palavra atravancada durante uma reunião, para que o Gerente entendesse que o sub tinha visto além do que deveria. E ali, no instante em que seus olhos se cruzaram, a sentença foi assinada.
Não era sobre dinheiro.
Não era sobre erro de operação.
Era sobre sobrevivência. Pardal tinha descoberto demais.
Naquela noite, Carlinhos o chamou para uma “conversa”. O tom era normal, quase amigável, como sempre. Cordão de ouro brilhando sob a luz fraca, tatuagens à mostra, sorriso aberto que não revelava nada do que estava por vir.
— Cola aí comigo, irmão. Bora trocar uma ideia — disse, apoiando a mão pesada no ombro de Pardal.
O beco escolhido era um dos mais escondidos, atrás de uma oficina abandonada. O tipo de lugar onde ninguém entrava sem motivo. Escuro, com cheiro de mofo e ferrugem, só se ouvia o gotejar de uma calha e, ao longe, o ronco de algumas motos.
Pardal caminhou ao lado dele, inquieto. Por mais que tivesse o sangue frio dos que crescem no morro, não conseguia afastar a sensação de que aquele encontro não ia terminar bem. Ainda assim, foi.
Talvez por lealdade.
Talvez por medo.
Parados no meio da viela, Carlinhos se encostou no muro e acendeu um cigarro, tragando com calma. O silêncio parecia pesar mais do que as palavras.
— E aí, chefe… Quê que pega? — começou Pardal, tentando disfarçar a tensão.
Carlinhos soltou a fumaça devagar, os olhos fixos nele.
— O que pega, moleque, é que você andou vendo coisa demais.
A expressão de Pardal mudou. Os ombros enrijeceram.
— Eu não falei nada pra ninguém… Ninguém sabe que tu traiu o Comando. — respondeu rápido, ele também cresceu no morro, não ia abaixar a cabeça para o erro.
— Não precisa falar. Eu vi no teu olhar. Você sabe. — retrucou Carlinhos, com a calma fria que o tornava tão temido.
O silêncio se estendeu, denso como fumaça. Pardal respirou fundo, tentando manter a postura, mas a verdade estava escancarada entre eles.
— Cê tá vendendo o morro pros cara, né? Tá entregando informação…— disse por fim, com voz baixa, quase um sussurro.
Carlinhos não respondeu. Nem precisava. O sorriso que se abriu em seu rosto não tinha humor. Era o sorriso de quem já decidira o destino do outro.
— Esse tipo de coisa não sai daqui. E você também não vai sair. — Ele jogou o cigarro no chão, esmagando com a ponta do tênis. —
O movimento foi rápido. A mão deslizou para dentro do casaco, puxando a pistola com silenciador já rosqueado. Pardal tentou recuar, mas o beco era estreito, não havia saída.
— Covarde.. como sempre.. — Pardal falou, frio. Sabia o seu fim.
Carlinhos não tremeu, não hesitou. O primeiro tiro atingiu o peito de Pardal, jogando-o contra a parede. O segundo, no mesmo instante, calou qualquer outra palavra. O corpo escorregou para o chão, deixando um rastro escuro no cimento.
O beco voltou ao silêncio. Carlinhos observou a cena por alguns segundos, a respiração firme, sem pressa. Não havia ódio em seu rosto — apenas a frieza de quem eliminava um problema.
— Sabia demais, moleque. — Murmurou, cuspindo no chão.
Preparava-se para arrastar o corpo quando um som leve chamou sua atenção. Passos.
Do outro lado da viela, Marina surgiu.
Trazia a bolsa pendurada no ombro, exausta depois de um dia longo no asfalto. O ônibus atrasara, e, sem pensar muito, ela escolhera aquele caminho por ser mais curto. Jamais imaginaria que, justamente ali, encontraria o inferno à sua frente.
O corpo de Pardal caído, o sangue ainda fresco.
O Gerente parado diante da cena, arma na mão.
E então, o olhar dele encontrando o dela.
O choque paralisou Marina. O coração bateu forte, as pernas vacilaram. Por um instante, tudo o que conseguiu fazer foi prender a respiração.
Carlinhos não se moveu. Apenas a encarou, avaliando, como se medisse o peso da situação. Ela era uma testemunha. Ela tinha visto demais.
Lentamente, ele caminhou até ela. Cada passo parecia ecoar na cabeça da garota, como um tambor anunciando sua sentença. Marina engoliu seco, a bolsa tremendo em sua mão.
Quando Carlinhos parou diante dela, tão perto que ela podia sentir o cheiro da pólvora misturado ao cigarro, falou com a voz baixa, carregada de ameaça:
— Você não devia estar aqui.
Marina respirou fundo, tentando não chorar.
— Eu… eu não vi nada… — balbuciou, a voz trêmula.
Carlinhos ficou em silêncio por alguns segundos, apenas fitando seus olhos. Podia matá-la ali mesmo, apagar a testemunha junto com o corpo de Pardal. Mas, por alguma razão que nem ele soube explicar, não o fez. Deu um passo atrás e suspirou, como se tivesse chegado a uma decisão temporária.
— Vai pra casa, garota. E esquece o que viu. — Disse, com calma assustadora.
Marina não esperou outra ordem. Passou por ele rápido, quase tropeçando, e sumiu no fim do beco, com o coração em disparada e a mente em choque. Carlinhos voltou o olhar para o corpo de Pardal. Acendeu outro cigarro, tragou fundo e murmurou para si mesmo:
— Dois problemas agora. Mas cada um na sua hora.
A fumaça subiu no ar pesado, misturando-se ao silêncio do beco.
Ele sabia que Marina não conseguiria esquecer. E, mais cedo ou mais tarde, teria que voltar por ela também.