Uma semana se passou desde a chegada de Bárbara a casa de Otávio e cada vez mais ela se sentia sozinha, naquela semana, ela o viu apenas três vezes, ele estava sempre fora, sempre ocupado, e quando estava em casa, m*l saia de seu quarto, ela havia crescido com atenção, carinho, proximidade, para ela era estranho conviver com alguém tão distante. Naquela manhã, Bárbara acordou se sentindo ainda mais triste e melancólica, então após o café da manhã, ela retornou a seu quarto, sentou-se na cama, pegou seu tablet e ligou por chamada de vídeo para sua amiga, precisava desabafar, até ali havia apontado apenas os pontos bons, mas não aguentava mais tanta solidão, só não imaginava ela que, Otávio sem querer iria escutar. Bárbara desde criança tinha a mania de esquecer a porta entreaberta, e assim fez quando sua amiga atendeu a ligação, ela arrumou sua postura ficando em uma melhor posição.
– oi amiga, como está? – Priscila perguntou.
– oi Pri…tô bem mais ou menos?
– o que houve? – ela perguntou, naquele instante, Otávio havia acabado de sair do seu quarto e ouvindo as distantes vozes, se aproximou.
– tenho me sentido tão sozinha.
– sério amiga, e o Otávio? – ela perguntou, Otávio não pretendia ficar ali para escutar, mas ao ouvir seu nome, decidiu ficar e escutar do que se tratava.
– ele está sempre fora, sai cedo, chega tarde da noite, as vezes nem volta.
– vai ver ele tem uma namorada, por isso fica tanto fora. – disse Priscilla.
– perguntei ao Roger, ele disse que não sabe, não sei, as vezes chego a pensar que sou realmente indesejada aqui.
– claro que não Baby, se ele não te quisesse aí, nem teria te levado.
– talvez você tenha razão, mas tenho me sentido m*l, não esperava que ele me desse um abraço todas as manhãs e me deixasse dormir na cama dele como minha mãe fazia, mas não estou acostumada com tanta distância, me sinto uma inquilina indesejada na casa m*l assombrada de um fantasma. – ao ouvir aquilo, Otávio suspirou, não tinha ideia de que ela estava se sentindo daquela forma.
– e no caso ele é o fantasma?
– é estranho, ele parece não existir dentro da própria casa, isso me preocupa. – disse ela, Otávio franziu a testa, a única pessoa a quem ouvia dizer que se preocupava com ele era Mariana, e não pensava que depois da morte dela, voltaria a escutar isso.
– tenta conversar com ele.
– não quero ser nem parecer egoísta, ele deve está bem com a forma que vive, eu não sou ninguém pra cobrar atenção ou qualquer coisa dele.
– então não cobre, mas procure entender o porquê disso, pelo menos vai tirar dessa sua cabecinha loira que você é indesejada aí.
– é, você tem razão, só vai ser difícil, não sei quando vou ver ele.
– o que esse homem tem gato tem de difícil. – disse Priscilla, Otávio ainda ali no corredor, balançou a cabeça em negação e saiu dali, mas sua mente havia mudado, não queria que ela se sentisse indesejada, e pensava que, sua irmã não ficaria nada feliz que, sua filha se sentisse sozinha, sendo que havia deixado para ele a missão de cuidar dela.
As horas ali pareciam se arrastar, Bárbara estava em seu quarto, planejando em breve sair, conhecer a cidade, buscar um trabalho, ficar dentro daquela casa apenas remoendo a solidão não levaria a lugar nenhum, mas mesmo com esses pensamentos, ela se sentia sem ânimo, sem forças.
– Bárbara, o almoço está pronto. – disse Roger após bater na porta.
– já estou indo. – disse ela, logo foi até a porta e a abriu, em seguida em silêncio acompanhou Roger.
– na sala de jantar. – disse ele.
– Roger, não quero comer sozinha naquela mesa enorme.
– Otávio está à mesa lhe esperando. – disse ele.
– o Otávio?
– sim.
– ele está doente? – ela perguntou, até ali não havia o visto fazer nenhuma refeição naquela mesa.
– não.
– hoje é feriado por aqui? – ela perguntou e Roger riu.
– eu também estranhei, é raridade ele comer em casa, mas hoje está, e pediu pra lhe chamar para almoçar com ele.
– estranho. – disse ela, mas acompanhou Roger, ao chegar à mesa ele a olhou e deu um sorriso meio ensaiado, enquanto Roger puxou a cadeira pra ela, que agradeceu e logo em seguida sentou. – estranhei, você nunca come em casa. – disse ela.
– pois é, mas hoje decidi comer, como está? – ele perguntou, estava disposto a mudar sua conduta, não iria se tornar nenhum tio amoroso, afinal nem era seu tio, mas também não queria ser para ela, uma sombra dentro da própria casa.
– Estou bem, na medida do possível. – disse ela, em seguida deu de ombros e começou a montar seu prato, mas então se deu conta de que aquele era o momento perfeito para fazer o que sua amiga havia aconselhado. – Otávio.
– diga.
– você me quer mesmo aqui? – ela perguntou, ele já sabia o motivo da pergunta e sem hesitar respondeu.
– sim Bárbara, se não quisesse nem teria te trago comigo.
– é que é estranho, você está sempre distante, m*l nos vemos, eu não esperava que do exato nada você se tornasse um tio carinhoso, ou qualquer coisa assim, mas também não esperava tanta ausência, não entenda como uma cobrança, eu só…só queria entender.
– você tem toda razão em perguntar, peço desculpas por isso, não achei que isso iria incomodar, eu sou assim, estou acostumado assim…são quatorze anos Bárbara. – ela suspirou, aquela frase a fez entender tudo, eram quatorze anos sozinho, sem interação de carinho, de proximidade, não sabia ao certo como conviver com alguém dessa forma.
– desculpe mesmo, não queria que tivesse que entrar nesse assunto. – ela disse encolhendo os ombros, não queria que ele se sentisse m*l.
– mas foi necessário, não só pra você, pra mim também, eu vou tentar melhorar isso. – ele disse de forma sincera, queria que ela se sentisse em casa, não abandonada quando havia alguém mais morando com ela.
– Otávio, você não precisa mudar apenas porque estranhei seu modo de ser. – disse ela, ele franziu a testa, esperava que ela apenas se alegrasse por ele prometer uma mudança, mas ela parecia verdadeiramente preocupada com ele. – Somos diferentes, mas entendo seu modo, seu pensamento, e não seria egoísta em pedir algo que pra você seria difícil, está tudo bem, você não precisa mudar por mim. – disse ela colocando sua mão sobre a dele de forma compreensiva, agora que as coisas estavam claras, ela sentiu um peso sair de seu peito, mas não totalmente, pois ela conheceu através de sua mãe, um lado de Otávio, um que só existiu até a descoberta e doía nela que as escolhas cruéis de alguém tivessem feito tanto m*l a ele.
– Agradeço pela compreensão, mas também não é certo que você viva aqui se sentindo sozinha quando eu também moro aqui, eu quero mudar, talvez isso seja bom pra mim, talvez eu tenha me fechado até demais para o mundo.
– tem certeza disso?
– Sim, não é justo, tampouco certo ou normal que vivamos solitários debaixo do mesmo teto, temos que construir uma relação. – ela sorriu e sentiu certa emoção, porque no fundo, o que ela tinha, era medo da solidão, do abandono.
– obrigada mesmo Otávio.
– mas e então, como está se adaptando?
– ainda não estou, não botei os pés fora dessa casa ainda, mas me adaptei perfeitamente a aquele quarto.
– fiz bem em não mudar ele, quando comprei essa casa, ela estava impecável, não quis mudar muito, e também porque no fundo eu tinha uma ponta de esperança da sua mãe vir morar aqui, gostou do closet? – ele perguntou.
– sim, é lindo, mas minhas coisas ocuparam apenas um terço dele, ele é enorme.
– era da filha mais velha do casal que morava aqui, o corretor me falou na época que comprei.
– eu adorei, até a cor das paredes é perfeita, posso te fazer uma pergunta?
– claro.
– você tem namorada?
– não. – ele respondeu simples.
– posso fazer mais uma pergunta? – ele sorriu, então confirmou.
– sim.
– e onde que você passa a noite quando não volta pra casa? porque teve uns dias que reparei que você não voltou.
– tenho um apartamento próximo a um dos meus restaurantes, quando fico até muito tarde, durmo por lá mesmo. – mas não era apenas isso, apesar de não ter nada sério com ninguém, Otávio era um homem adulto, com desejos obviamente, mas para ele, sua casa e sua cama eram sagradas e não colocava qualquer uma debaixo de seu teto, então sempre que passava a noite com alguém, levava para o apartamento.
– entendi, você trabalha bastante, não é atoa que está onde está, quando crescer quero ser como você. – disse ela o fazendo rir.
– vai ser, falei com meu advogado, ele está buscando uma boa universidade para que possa se matricular.
– mas passou o período dos vestibulares, em pouco tempo as aulas já estarão iniciando.
– influência e dinheiro resolvem isso.
– Otávio…
– nem diga que não precisa, ou qualquer coisa do tipo, confio no seu potencial e qualquer esforço vale a pena.
– não vou decepcionar.