**Fenrir**
Segurar Zara nos meus braços enquanto o corpo dela tremia de febre foi uma das experiências mais aterrorizantes que já enfrentei. Já lidei com ameaças à minha alcateia, já estive em batalhas onde vidas estavam em jogo, mas nada me preparou para o pavor de perder Zara. A cada segundo que ela ficava mais quente, sentia o medo subir pela minha espinha, como se estivesse prestes a perder a única coisa que me mantinha centrado.
A febre a deixou inconsciente por horas, e eu permaneci ao lado dela o tempo todo. Chamei a doutora rapidamente, que veio e fez o que pôde, explicando que aquilo era parte da transformação forçada que o corpo de Zara estava atravessando. Ela não tinha energia suficiente para suportar a transição, mas seu corpo não estava desistindo. Eu podia sentir que algo dentro dela estava lutando, e sabia que Nala também estava fazendo o possível para não permitir que Zara sucumbisse.
Passei a noite em claro, com os olhos fixos nela. A doutora disse que tudo o que podíamos fazer era esperar, o que só aumentava a minha frustração e o meu medo. O que aconteceria se ela não tivesse forças para sobreviver? Não conseguia sequer imaginar minha vida sem Zara. Desde o momento em que a vi naquele porão, suja, ferida e cheia de cicatrizes, soube que faria qualquer coisa por ela. E agora, enquanto ela lutava entre a vida e a morte, eu me sentia impotente.
A cada respiração que ela dava, eu sentia a tensão no meu peito se intensificar. Cada vez que o seu corpo tremia, segurava as suas mãos mais firmemente, desejando poder transferir toda a minha energia para ela, se isso fosse suficiente para mantê-la viva. O que eu tinha passado havia sido o suficiente para mantê-la estável, e a doutora havia me dito que a febre passaria ocasionalmente, não havia nada a se fazer quanto a isso.
Quando finalmente senti o calor da sua pele começar a diminuir, quase não acreditei. Levei horas para processar que ela estava estabilizando. A febre ainda estava ali, mas não parecia mais consumir cada pedaço de energia que ela tinha. Seu corpo parou de tremer e sua respiração se tornou mais tranquila, mais regular. Sentia o cansaço pesando sobre mim, mas não queria fechar os olhos até ter certeza de que ela estava fora de perigo.
E então, em algum momento da manhã, os olhos de Zara se abriram.
— Fenrir...? — ela murmurou, a voz fraca, mas consciente.
Eu praticamente pulei da cadeira ao lado da cama, aproximando-me dela com o coração disparado no peito. Não conseguia controlar o alívio que me invadiu ao vê-la acordada, a febre já não queimando tão intensamente.
— Zara! — disse, aliviado. — Você está bem? Como está se sentindo?
Ela olhou para mim, os olhos ainda pesados de exaustão, mas havia uma pequena centelha de vida ali que me fez acreditar que ela realmente estava melhorando.
— Cansada... mas estou bem — respondeu ela, com um pequeno sorriso que quase me fez esquecer todas as horas de desespero.
— Graças aos deuses... — suspirei, segurando a mão dela com cuidado, como se ela fosse quebrar a qualquer momento. — Você me deixou apavorado, amor. Nunca mais faça isso comigo.
Ela riu fraco, apertando a minha mão de volta, e eu me inclinei para beijar a sua testa, sentindo o calor suave de sua pele. Não era mais o calor febril que me preocupava, mas sim o calor reconfortante de alguém que estava se recuperando.
**Dias depois...**
Zara vinha melhorando gradualmente a cada dia. A febre tinha finalmente desaparecido, e a doutora confirmou que o seu corpo parecia estar estabilizado, embora ainda precisássemos ficar atentos a qualquer outro sinal de exaustão durante a transformação. O processo de cura não seria rápido, e eu sabia que precisávamos continuar monitorando-a de perto, mas o pior parecia ter passado. E com Zara acordada e mais forte, comecei a relaxar um pouco.
Porém, o medo de perdê-la nunca havia deixado completamente o meu peito. Mesmo agora, enquanto ela caminhava ao meu lado, livre dos sinais visíveis de febre, eu não conseguia afastar a preocupação. Tinha medo de que algo pudesse acontecer novamente, de que outra crise aparecesse sem aviso. Por isso, resolvi que um passeio ao ar livre faria bem a ambos, permitindo-lhe respirar o ar fresco da floresta e a mim, tranquilizar um pouco a minha mente sobre a sua recuperação.
— Para onde vamos? — perguntou Zara, enquanto caminhávamos pela alcateia.
— Pensei que seria bom você sair um pouco do quarto. O tempo está agradável, e um passeio pode ajudar a fortalecer os seus músculos — respondi, sorrindo para ela, que olhava ao redor como se estivesse descobrindo o lugar pela primeira vez.
Os outros membros da alcateia passavam por nós, acenando com respeito, mas com olhares curiosos em direção a Zara. Muitos deles ainda a viam como a sobrevivente que resgatamos das mãos do alfa James. Eles sabiam o que ela tinha enfrentado, mas poucos sabiam da extensão do seu sofrimento. No entanto, eu não permitiria que ninguém a tratasse de forma diferente. Ela era minha companheira, e eu garantiria que todos a respeitassem como tal.
Caminhamos por trilhas que serpenteavam pela floresta ao redor da alcateia, onde o som das folhas sob os nossos pés e o farfalhar suave das árvores ao vento criavam uma atmosfera de paz. Zara parecia mais tranquila a cada passo, e aos poucos, o peso que carregava nos ombros se dissipava.
— Não pensei que estivesse tão bonita aqui fora... — comentou ela, olhando para as árvores altas que cercavam o caminho.
— Achei que você gostaria de ver isso com calma. — Respondi. — O parque é o meu lugar favorito na alcateia, e pensei que talvez se tornasse o seu também.
Depois de caminhar por mais alguns minutos, chegamos ao parque da alcateia, um lugar tranquilo cercado por árvores frondosas. Algumas crianças brincavam perto de um lago mais adiante, enquanto casais e famílias faziam piqueniques ou apenas apreciavam a beleza do lugar. Escolhi um canto afastado, onde poderíamos ter um pouco de privacidade.
— Que tal um piquenique? — perguntei, pegando a cesta que tinha trazido.
Os olhos de Zara brilharam por um momento, e ela se sentou na manta que estendi no chão com um sorriso tímido.
— Nunca fiz isso na vida — admitiu ela.
— Bem, então é hora de mudar isso — disse, puxando os lanches que tinha preparado, enquanto ela ria suavemente da minha tentativa de ser um bom anfitrião. Ver Zara rindo, finalmente relaxada, era tudo o que eu queria. Sabia que ainda havia um longo caminho pela frente, mas momentos como aquele faziam todo o esforço valer a pena.
Compartilhamos sanduíches e frutas frescas, e Zara até brincou que eu exagerava nos cuidados, sempre garantindo que ela comesse o suficiente. Mas ela sabia que eu só queria o melhor para ela. Assistimos as crianças correndo à beira do lago e conversamos sobre coisas simples, mas a normalidade daquilo era revigorante.
— Fenrir... — ela começou, de repente mais séria. — Obrigada por tudo. Sei que não foi fácil...
— Não me agradeça, Zara. Cuidar de você não é um fardo. Eu faria isso todos os dias da minha vida sem hesitar — respondi, encarando os seus olhos com intensidade. Eu era seu companheiro era minha obrigação cuidar dela, sem contar que me sentia bem ao fazer aquilo.
Ela parecia prestes a dizer algo mais, quando, subitamente, ouvi um som familiar atrás de nós. Ao virar a cabeça, vi Dante correndo em nossa direção, o rosto sério e preocupado.
— Fenrir — ele disse, assim que chegou perto o suficiente — temos um problema. Lobos foram avistados na fronteira. Os Belmonte.
Meu corpo imediatamente entrou em alerta. Os Belmonte. Sabia que eles não estavam satisfeitos com nossa paz, e parecia que estavam finalmente prontos para agir.
— Quantos? — perguntei, já me levantando, enquanto Zara também começava a se mover.
— Um grupo pequeno, mas estão observando. Ainda não cruzaram, mas temos batedores monitorando-os de perto — explicou Dante.
Olhei para Zara, que parecia preocupada. Não queria envolvê-la nisso, mas ela merecia saber o que estava acontecendo.
— Você vai ficar bem aqui? — perguntei, segurando seu olhar.
Ela assentiu, embora eu pudesse ver a incerteza nos seus olhos.
— Vou ficar com Dante — ela disse, tentando me tranquilizar.
Sabia que não tinha escolha. Precisava lidar com a possível ameaça à alcateia, mas uma parte de mim queria ficar ali e protegê-la. No entanto, Zara sempre foi mais forte do que eu a imaginava, e sabia que ela não queria ser tratada como alguém indefesa.
— Eu volto assim que puder. Cuide dela, Dante — ordenei, antes de me virar e seguir na direção dos limites da alcateia, sentindo a tensão da ameaça de uma possível invasão crescer a cada passo.