Lobo Dourado

1007 Words
Zara Sentia o meu corpo inteiro tremer com uma onda intensa de dor, algo que jamais poderia ter imaginado experimentar. O quarto onde eu estava parecia desfocado, como se estivesse preso num pesadelo impossível de despertar. Estava cercada pelo olhar tenso de Fenrir, que me observava em completo desespero, sem poder fazer mais que assistir à luta que me consumia. Os meus ossos quebravam-se como vidro, cada estalo se repetindo na minha mente como um eco que não findava. Era como se estivesse sendo despedaçada por dentro, esvaziada de tudo o que fora até aquele momento. Fechava os olhos, ansiando pelo escuro, por um mínimo de paz, mas as ondas de dor não permitiam trégua. A cada novo espasmo, sentia me mais afastada do que antes eu sabia ser o meu corpo. E se antes eu temia não resistir, agora era essa transformação que me dava medo. O que restaria de mim depois disso? Quando eu por fim estivesse completamente transformada, o que se revelaria no meu lugar? Nos breves momentos de alívio, enquanto Koda e Fenrir passavam parte da sua energia para mim eu conseguia dormir. Mas mesmo então, ao acordar, era invadida por um cansaço que parecia crescer em espiral. Passados três dias desde que a transformação iniciara, não que eu tivesse contado, mas as conversas a minha volta me mantinham informada, a minha pele doía, os meus ossos latejavam, e os gritos haviam diminuído porque o meu corpo já não possuía força para emiti-los. Diana e Dante apareciam frequentemente para me confortar, e fiquei grata quando Dante havia tirado Diana do meu quarto, não queria que ela me vê-se daquela forma. Sentia uma profunda gratidão por Fenrir, que permanecia inabalável ao meu lado, me protegendo como um ponto fixo numa tempestade. O fato dele estar sofrendo comigo me incomodava terrivelmente, mas era algo que eu não tinha controle naquele momento Ao ver a sua expressão de dor e o esforço em continuar compartilhando a energia para me manter viva, o meu coração vibrava com uma gratidão que se mesclava ao amor que sabia que estava começando a nutrir por ele. Era como se as palavras não fossem suficientes para expressar o quanto significava o fato de ele estar ali, forte por mim. Naquela noite, quando Isacar, o conselheiro, propôs acelerar o processo de transformação ao oferecer o seu sangue, eu senti que não conseguiria suportar mais um dia sem qualquer mudança. Ao ver a gota de sangue dele escorrer até os seus lábios, senti uma energia diferente inundar o meu corpo, algo quente e potente que descia em ondas pela minha garganta, infiltrando-se em cada célula. Foi então que uma nova sensação me percorreu. A dor intensa foi substituída por uma energia densa e concentrada, como uma explosão de calor que me preencheu completamente, dominando todos os espaços vazios e reconstruindo o que fora destruído. Cada osso quebrado reformava-se em algo maior, cada músculo reagia, contraindo-se e ampliando-se, até que eu senti um poder pulsante em todo o meu corpo, uma força que jamais tinha experimentado. De olhos fechados, tento entender o que acontecia; contudo, quando os abri, o que vi no reflexo dos olhares de Fenrir e dos outros presentes me deixou sem palavras. Completamente transformada, o meu corpo brilhava com um tom dourado, um brilho intenso e cálido como a própria luz do sol. Eu não via a mim mesma, mas pela expressão dos outros, pela admiração no rosto de Fenrir e o respeito nos olhos de Isacar, soube que algo extraordinário tinha acontecido. Sentia me poderosa, viva como nunca. Podia ouvir o batimento acelerado do coração de Fenrir, o som distante de outros lobos a respirarem ao seu redor, a própria energia como um ritmo imponente pulsando em si. Quando movo as patas — e agora eram patas —, senti uma força que não sabia existir. Com um único movimento, percebo a destreza de cada músculo e o controle absoluto que possuía sobre a sua nova forma. Era uma loba, mas uma loba como jamais sonhara em ser. Olho para Fenrir, que estava à minha frente com os olhos arregalados e, com um impulso instintivo, aproximou-se dele, esfregando o focinho contra o seu corpo. Era meu modo de dizer obrigada, de reconhecer o quanto ele significava. Queria que ele soubesse que cada segundo de sofrimento tinha valido a pena por esse instante. — Uma loba dourada — murmurou Isacar, com um toque de reverência na voz. Daquele modo, os meus olhos encontrar os dele. Algo na energia de Isacar ressoava com a sua, como se o próprio sangue que ele dera a ajudasse a ver além do que era visível. Sentiu uma gratidão serena ao encostar o focinho na testa dele, como um cumprimento sutil e respeitoso. Sabia que ele a compreenderia, que ele sentia a intensidade daquele momento tanto quanto ela. Ainda fascinada por tudo ao seu redor, sentia o poder crescendo, um êxtase que me preenchia o corpo até ao limite. Cada pedaço de mim reverberava com a energia que me impulsionava a explorar, a correr, a ser livre. Porém, mesmo envolvida nesse êxtase, o cansaço se instalava lentamente. Era como se toda a energia tivesse vindo, mas, agora, o meu corpo, finalmente transformado, precisasse repousar. A visão começou a oscilar, tornando-se cada vez mais indistinta. Fenrir chama por mim ao ver minhas patas vacilarem. Tento dar mais um passo na sua direção, queria senti-lo, me manter junto dele antes que o sono inevitável me vencesse. Por fim, já sem forças, a minha forma foi voltando a encolher, e a pele dourada retornou ao que era antes. O poder desvaneceu suavemente, levando me novamente para um sono profundo, mas desta vez restaurador sem nenhum traço de dor, me deixando entregue aos braços de Fenrir enquanto caía no mais profundo sono. Ele me segurava com a delicadeza de quem guardava um tesouro. Antes de adormecer completamente, uma última imagem surgiu na minha mente: a expressão de orgulho e amor nos olhos dele, que acompanhara cada instante da minha transformação.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD