Recebi aquela resposta afiadas como um soco no rosto. Desci do camarote com passos largos, a música batendo no peito, e fui direto até ela. A amiga tentou se meter, veio com aquela fala de defesa — quis dizer que eu não tinha direito de cobrar — e aquilo só alimentou o fogo que já queimava dentro de mim. Cada palavra dela me soou como desrespeito, uma provocação entregue no prato para um monte de urubu que só queria olhar a cena e rir.
O que me deixou realmente fora de mim foi vê-la puxar a Maisie para o meio da pista, fazendo-a dançar com aquele pedaço de pano colado ao corpo. Pensei a mesma coisa que todo homem aqui pensaria: a menina exposta, vulnerável, transformada em espetáculo pros outros. Aquilo atravessou qualquer freio que eu ainda tinha. Não foi ciúme bobo — foi raiva de ver alguém reduzindo alguém que eu protejo a mero entretenimento.
A raiva subiu tão rápido que meus dedos fecharam no braço dela sem aviso.
Segurei firme, e não com brandura; a mão doeu quando forcei o aperto. Puxei-a comigo pelo meio do povo, ignorando cotoveladas, corpos que tentavam bloquear meu avanço, os olhos que se viravam. Subi no camarote como quem empurra uma porta quebrada: ninguém impediu, ninguém ousou. Sentei-a numa cadeira e mantive a mão sobre o braço dela, não para ferir, mas para marcar território — deixar claro que ali não se brinca com a minha ordem.
Não senti remorso. A sensação era crua: proteção misturada com posse. Queria arrancar aquela audácia da cara dela, fazer com que entendesse que com a Maisie não se brinca. Enquanto o som continuava, o mundo ao meu redor ficou mais nítido — o cheiro de bebida, as luzes tremendo, o suor das pessoas. E, no meio disso tudo, eu ardia, pronto pra qualquer merda que ousasse transformar a minha parada em espetáculo.
— Não acredito que tu tirou a mina da pista. — ouvi o Coringa ali do meu lado, a voz dele vindo com aquele jeito de quem tenta minimizar a p***a toda. Olhei pra ele, sem humor.
— Não vem você falar merda nenhuma, p***a. — rosnei, e vi as mãos dele subirem em rendição, lento, porque sabia que a p***a ali não era brincadeira.
A música espirrava pelas caixas, luz estroboscópica cortando os corpos, cheiro de suor e bebida e droga no ar. Aquilo só deixava tudo mais denso. Enquanto o som martelava, senti o calor da raiva queimando no peito; não era só pela cena, era pela audácia, pela falta de respeito. Ela veio se aproximando, a voz alta cortando o barulho como navalha.
— Pantera, você não pode me deixar aqui em cima. — falou ela, com aquele ar de quem tem direito a qualquer coisa. Aquilo foi o suficiente pra eu perder a paciência.
— Mas que c*****o, p***a. — disse, a voz saindo grossa, cortante. Ela recuou um passo, porque sabia que ali não havia brincadeira.
Sam me olhava com aquele desdém fino, a expressão como se eu tivesse ultrapassado uma regra qualquer dela.
— Quem é essa? — perguntou, afiada.
— Quem é você, querida? — a resposta da Maisie, curta, afrontou a Sam de um jeito que me surpreendeu. A menina tinha uma p***a de coragem escondida.
— Ela não é da sua conta, Sam. — eu disse, e a voz saiu mais ríspida do que eu queria. — Vaza daqui, filha da p**a. — rosnei, empurrando a ordem como quem joga chumbo quente.
Sam pigarreou, a boca se curvando num sorriso falso. — Mas a gente iria t*****r. — cuspiu, por cima do som, querendo provocar. A p***a da audácia final. Olhei pra ela com o olhar que não tem perdão; foi um silêncio pesado que fez até a música parecer mais baixa por um segundo. A diferença entre ameaça e ação ficou pendurada no ar. Ela percebeu. Correu. Sumiu pela multidão.
Fiquei ali um segundo, o braço ainda queimando por onde tinha segurado, a respiração pesada. O camarote parecia menor, a pressão do olhar das pessoas me atravessava como frio. Segurei a cadeira com a mão, senti o couro quente, e respirei fundo, acertando onde colocar a raiva. A festa continuou — p***a, a vida continua —, mas eu sabia que ali marquei território. Ninguém ali ia se divertir às custas dela. Ninguém.
A tensão no ar cortou a música como uma lâmina. A festa seguia frenética — corpos rebolando, copos quebrando, risadas grossas — mas uma linha invisível se formou entre mim, ela e o resto do mundo. Tudo ficou mais lento pros meus olhos, como se a p***a do tempo tivesse decidido me mostrar cada detalhe: o suor brilhando na testa das pessoas, a luz batendo na jaqueta do Coringa, a expressão divertida no rosto de alguns que achavam aquilo um entretenimento.
Aí o Neguin chegou. O cara que manda na Maré entrou no baile como se entrasse pra reinar. Trouxe os seus, cheiro de colônia cara, sorriso calculado e a postura de quem compra e vende territórios com o olhar. Cumprimentou o Coringa com dois tapas fortes no ombro, trocou conversa de pilantra com o Vicente e, claro, me olhou de leve — avaliando, medindo. Negócios não começam com carinho; começam com análise. E eu senti o peso daquele olhar como se fosse aço atravessando a minha pele.
Ele veio falar comigo como se tudo estivesse certo entre a gente. Negócios, respeito, termos. Conversa de homem grande. Pegou o copo, enrolou a fala, mexeu com as mãos. Eu ouvi tudo, mas só respondia o mínimo: palavra curta, olhar fixo. Negócio tem que ser fechado com cabeça fria. Só que a p***a da cabeça fria foi escaldando quando percebi que ele não tirava os olhos da Maisie. Primeiro foi um olhar casual; depois, um interesse fino que subiu pela espinha como cobra.
— Ei, Pantera — ele falou de canto, como quem oferece parceria. — Tua festa tá da hora.
— Tá do meu jeito. — respondi, seco.
Enquanto isso, o Neguin se aproximou da pista. Andou tranquilo, como quem vai checar o produto num mercado. Parou do lado onde a Vanessa e a Maisie dançavam, fez um comentário qualquer e sorriu sugerindo — o tipo de sorriso que já traz intenção. A Vanessa riu sem graça; a Maisie nem percebeu o perigo no começo, estava entretida, olhando pro lado, solta na música.
A raiva me subiu como chama. Não era só posse; era fúria por ver alguém transformando algo meu em objeto de avaliação. Meu corpo enrijeceu, cada músculo pronto pra puxar a arma escondida, se preciso. A respiração ficou curta e eu senti a mandíbula travar. Quando Neguin tocou no braço dela com aquele toque de dono, eu perdi a paciência.
— Sai de perto dela — falei, e a voz saiu fina, carregada.
Ele se virou, com o sorriso calculado ainda no rosto, como se aquilo fosse brincadeira entre poderosos.
— Calma, Pantera. Tô só conversando. Não precisa esquentar. — Neguin respondeu, as palavras ensaiadas como quem vende confiança.
Mas eu não tava a fim de jogar charme com mané. Não com ele perto dela. Avancei. O Coringa apertou o meu ombro, o Vicente prendeu a respiração. Lá fora, a música nem notou que algo maior começava a se formar — mas eu senti cada segundo como pólvora. Quando estendi a mão pra afastar Neguin, ele sorriu como se já estivesse esperando a cena. A p***a da festa virou ringue.
— Toca nela de novo e eu acerto teu rosto — falei colando a cara na dele.
Neguin riu baixo, sacudiu a cabeça, tipo “vamos resolver com calma”. Aquilo só foi combustível. Dei um passo adiante. O resto do morro parou de dançar; os corpos fizeram roda, olhos fixos. O cheiro de bebida, suor e pólvora se misturou com a tensão que só termina quando alguém cai. Eu sentia o coração martelar, a atenção inteira presa naquele segundo.
— Não vou tolerar que ninguém toque nela — repeti, com a voz que carrega ordem. — Sai daqui, Neguin. Sai antes que essa festa vire teu cemitério.
— Calma, pô. — o Neguin tentou por a voz mansa no meio da tensão, mas a pergunta que soltou me cortou como lâmina: — Ela é tua mulher?
A pergunta era armadilha. Senti o ar apertar ao redor, os olhares grudados na gente. Meu irmão veio de leve por trás, encostou no ombro do Neguin e falou umas poucas palavras no ouvido dele — nada longo, algo seco — e o corpo do outro recuou um pouco. Todo mundo ali já sabia da minha fama; saber que eu havia cruzado a linha era motivo pra afastar o riso. Eu sou o pior quando o assunto é o que é meu.
— Você não devia reagir assim — a Vanessa soltou num tom que devia ser de preocupação. Ou talvez falso moralismo. Aquilo me cortou mais que eu esperava.
— Cala a boca, vagabunda. — eu disse, a voz grossa, sem paciência. A mão já segurava a arma. A adrenalina aquecia as veias. Nesse instante, a Maisie se enfiou na minha frente, os olhos fechando por um segundo como se tentasse formar coragem.
— Eu quero ir pra casa. — a voz dela saiu miúda, tensa. — Eu nem deveria ter vindo.
Eu sabia que aquilo não era lugar pra ela; a festa não era terreno seguro pra menina que vinha de tanto horror. De repente ela virou a cabeça, e algo no seu olhar me fez congelar: horror, reconhecimento, pânico. — Meu Deus, meu Deus — ela murmurou, repetindo como quem não consegue acreditar.
— O que foi? — perguntei, já sentindo o cheiro r**m do medo. Ela se agarrou em mim, encolhida, escondendo o rosto no meu peito.
— Ele tá aqui. — ela repetiu, o corpo tremendo. Aquela frase acionou um estalo na minha cabeça — o pai dela. Aquela merda que eu prometi arrancar do mundo estava ali, espalhado entre a gente.
— O seu pai tá aqui? — a pergunta saiu dura, e quando ela confirmou com a cabeça, a calma sumiu de vez. — Me mostra quem é esse filho da p**a. — falei curto, sem cerimônia.
Levei ela até a grade, encostei ela lateralmente pra não expor demais, e pedi que apontasse. A mão tremia, o dedo vacilou, até que ela mirou em alguém no meio da multidão. Não pensei duas vezes. Fiz sinal pro Vicente, que já tava ali pertinho, com o olhar pronto. Aproximei, indiquei o alvo e mandei que trouxesse nosso brinquedinho — minha forma de dizer que iria resolver à moda deles.
Afastei a Maisie da grade e mantive ela colada em mim, sentindo o corpo dela tremer como molas soltas. Alguns minutos depois desci com ela e a amiga, empurrando a multidão até a saída. No meio do caminho, a raiva queimava como ácido: cada passo era promessa. Coloquei as duas no carro, tranquei as portas e dirigi curto até a casa dela.
Quando estacionei em frente à porta, falei baixo, firme: — Eu vou resolver o resto. Ela só assentiu, pequena, e correu pra dentro do barraco chorando, fechando a porta como quem tenta selar a segurança.
Do lado de fora, fiz o que precisava ser feito com a cabeça fervendo. Rasguei o pneu do carro no asfalto da favela — um gesto de raiva e aviso — e então fui direto pro quartinho de jogos, o meu lugar pra organizar a p***a das coisas. Lá eu não penso bonito; eu penso certeiro. E a conta com aquele verme ia ser cobrada.