Terror
Thaís desgrudou de mim quando eu estacionei em frente à casa do DG, onde eles já estavam esperando. Ela me entregou o capacete enquanto arrumava o cabelo com uma mão, e eu fiquei um bom tempo parado só admirando a beleza da garota.
A menina era bonita pra p***a. Sempre foi. Mas nos vimos poucas vezes; não era um convívio comum. Sempre que o VH ou o DG queriam ver as crianças ou a Thaís, eles saíam do morro e iam até eles, então, desde que eu entrei na vida dos mano, nunca tinha visto a garota pisar no morro.
Mas eu sabia: o que tinha de bonita tinha de brava e mimada. Os caras faziam de tudo por ela, e a garota não era capaz de amolecer pro lado deles — a palavra e a decisão dela sempre tinham que ser respeitadas. Nunca entendi por que isso, bandido abaixando a guarda pra mulher.
Thaís: Meu braço tá cansando — resmungou, e só aí eu percebi que estava parado demais, encarando ela.
Peguei o capacete, que continuava estendido na minha direção, e ela entrou na casa correndo.
Fui atrás.
DG precisava dos remédios que eu fui comprar.
O velho tava sentado no sofá, com os pés pra cima, e quando viu a filha sorriu feito b***a. Vitor, mesmo preocupado com o pai, tava feliz pra c*****o de ver a irmã ali também. Além deles dois e eu, o Neguinho — chefe do Cantagalo e nosso aliado — também estava presente. Tinha todo o rolo dele com a Thaís também, e as cria deles; pela forma como ele encarava a garota, me perguntei se era tão verdade assim o que o VH tinha me dito... que a Thaís não conseguia nem olhar pro Neguinho direito.
Thaís: Você quer me matar do coração? — ela se ajoelhou no chão, na frente do pai, beijando a mão dele. Mas o sorriso do velho tinha sumido. — O que foi?
DG: Cadê meus netos?
Thaís: Na escola — falou como se fosse óbvio.
DG: Eu queria eles aqui, com você, com a gente!
Thaís soltou a mão do pai, respirou fundo e desviou o olhar.
Thaís: Pai, você acabou de levar um tiro. Vamos deixar isso pra depois.
DG: É exatamente isso que eu não quero! Não quero deixar pra depois! Não sei nem se depois eu vou estar aqui.
Thaís: Não diz isso — ela voltou a olhar pra ele. — Eu só realmente acho que é melhor assim.
DG: Mas eu não acho. — foi firme. — Não quero morrer sem ver meus netos andando pelas ruas onde eu cresci, onde você e o seu irmão cresceram. Quero eles perto de mim, Thaís.
Thaís: Pai, eles são meus filhos. E se eu tiver que decepcionar o senhor pra ter certeza de que eles vão estar em segurança, eu vou fazer sem pensar duas vezes!
VH: Mas você não tem certeza, cara. Lá fora é mais arriscado que aqui dentro.
Ela encarou o irmão com deboche.
Neguinho: Os menorzinho são meus também.
Ela tirou os olhos do Vitor pra encarar o Neguinho com um ódio que me fez tremer na base... e nem foi pra mim.
Thaís: Cala a boca, Flávio.
Neguinho: Cala você, maluca. Já deu dessa história de brincar de faz de conta lá fora, Thaís. O bagulho tá ficando feio pro nosso lado e já já todo mundo vai associar meus filhos a mim. Ou ao teu pai. Ou ao teu irmão. E só aqui dentro a gente vai conseguir proteger eles!
Os olhos da garota passaram lentamente por cada um daquela sala, até por mim, mesmo que eu não tivesse nada a ver com isso. Vi que ela tava chorando e, mesmo que achasse os bagulho que ela fazia mó errado, não achei que era o melhor momento pra discutir aquele assunto.
Thaís: Tá bom. — ela secou o rosto com a palma da mão, mas havia ódio na fala. — Destruam o que eu levei cinco anos pra conseguir. Agora é com vocês! Mas eu juro... juro com todas as minhas forças que se eu ver um fio de cabelo do Pedro ou da Vitória fora do lugar, eu sumo com eles no mundo e vocês nunca mais vão ver nenhum deles!
DG: Não precisa ameaçar, eu jamais deixaria meus netos desprotegidos aqui! — respondeu, boladíssimo.
Neguinho: A gente nunca deixou lá na pista; não é dentro do nosso morro que vamos deixar.
Ela concordou com um aceno, levantando-se. Não tava nada bem. Tava cuspindo fogo pelos olhos.
VH: Onde tu vai?
Thaís: Se a gente vai vir pra cá, eu preciso pelo menos pegar as nossas coisas.
Neguinho: Vou junto com tu.
Ela fez careta.
Thaís: Não preciso de você!
A doidona meteu o pé rapidinho e o outro ficou puto; me deu até vontade de rir da cara que ele fez, mas eu nem tinha i********e com o cara pra zoar. Nosso contato era só por conta dos morros aliados.
DG: Ela vai perdoar a gente?
VH: Sei não, Thaís é dura na queda.
O DG pegou a carta que tinham deixado na casa dele com várias fotos da filha e dos netos e ficou analisando. Fazia umas duas semanas desse bagulho, e o velho tava ficando doidão e paranoico pra c*****o. Ninguém sabia quem tinha deixado, e eram tantas opções de nóia querendo invadir o morro que a gente não sabia nem de quem suspeitar.
Terror: Aê, DG. Teus bagulho. — entreguei a sacola de remédio pro velho, que agradeceu.
Fiz um toque com os mano e saí rapidinho, descendo o morro sem intenção nenhuma, e dei de cara com a Thaís putona descendo umas ruas mais abaixo. Achei que o mínimo que os caras tinham que dizer a ela era que ela estava no alvo, junto com os filhos, de algum inimigo. Mas como não era assunto meu, fiquei na minha.
Terror: Aê, Thaís — chamei, parando do lado dela. Ela me encarou com aquela cara de surtada. — Quer que eu te deixe em algum lugar?
Thaís: Você tá do lado deles, né? — eu não respondi. — Não. Obrigada!
Terror: Para de ser difícil, pô. Eles só querem ficar perto de vocês. Pode até ser bom pros pivetinho.
Thaís: Não se mete, Terror — falou séria.
Terror: Não vou. Sobe aí, te deixo na tua casa.
Ela bufou e arrancou o capacete da minha mão. Colocou na cabeça e eu estendi a minha mão, como o bom cavalheiro que sou, pra ajudar a doida a subir na moto. Mas ela nem aceitou. Subiu do jeito dela e só não caiu porque eu segurei, prendendo o riso. Recebi um tapão no braço e liguei a moto, negando com a cabeça.
Garota mó doidona!
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