VH
Quando a Thaís saiu de casa dizendo que ia buscar as coisas dela, meu mano Terror saiu também, deixando meu coroa, eu e o Neguinho sozinhos. Papo reto: eu nem sabia qual de nós três tava mais nervoso com os bagulho que estavam acontecendo, mas chutava que era o velho.
Neguinho tava boladão e preocupado com os filhos, mas dava pra ver na cara dele que tinha segundas intenções pra tentar pegar minha irmã de volta. Coitado. Só se eu morrer.
A história dos dois foi mó chata e foi o que afastou a Thaís e meus pivete de mim e do nosso pai. Depois do que ela viu do lado do Neguinho, colocou na cabeça que aquela não era a vida que ela queria pros menores dela. Mas f**a-se, irmão. Os menorzinho eram sangue do meu sangue, meus afilhados e as miniaturas de gente mais maneiras que eu já tinha visto na vida; não tava mais sustentando o papo dela de deixar eles longe do morro. Por isso dei maior apoio pro pai quando ele decidiu trazer a Thaís de volta, nem que fosse na força.
Neguinho: Eu vou indo — falou, com o celular na mão e um cigarro no bico — Qualquer bagulho chama. Tenho uns esquema pra resolver aí.
Concordei fazendo um toque com ele, e o mano vazou.
Saí do lado do meu pai, me jogando no sofá onde o Neguinho tinha estado.
VH: Que cara é essa, maluco?
DG: Tá me dando dor de cabeça só de pensar no quanto tua irmã vai falar no meu ouvido.
Eu ri.
VH: Boto fé que vai mesmo, hein — apontei — Não mandei fazer filha doida. Tinha que fazer uma bonita que nem eu.
Ele me encarou sério e revirou o olho.
DG: Não sei onde foi que eu errei com vocês — zoou, ligando a televisão em qualquer coisa que eu nem dei bola.
Eu me considerava um moleque bom... coração gigante e pá. Mas depois que entrei pro crime algumas coisas tiveram que mudar. Eu não podia sair confiando em todo mundo que conhecia na rua — isso foi uma coisa que aprendi quebrando a cara. Tinha uns mano que tavam contigo pra tudo, fechamento maneiro, mas outros só te usavam pra subir... e por ser filho do chefe, eu lidei com muito disso. Ainda lido, se pá.
Mas um bagulho que nunca mudou em todos os meus anos de vida foi o olhar que eu tinha pro coroa. Nossa relação era dez, coisa de outra vida. Lembro quando ele entrou pros corres, Thaís internada no hospital sem conseguir nem respirar, e ele ralando pra c*****o pra conseguir tirar o nosso, pagar o tratamento da minha irmã e ainda colocar comida na mesa — dividir a atenção dos filhos e tudo isso sozinho.
DG: Eu sei que eu tô bonitão, mas não fica me olhando assim não. Já te falei que eu gosto de mulher.
VH: Uhum. Mas não pega ninguém — gastei.
Ele atirou uma almofada na minha cara, mas tava fraco porque o braço tava amarrado, então eu consegui desviar no sapatinho. Ainda teria que ficar por uma semana com aquele negócio no braço, pra não ter consequências. Mas como ele adorava um drama, eu não duvidava nada que fosse usar por um mês.
DG: Já consegui fazer tua irmã vir pro morro. Tu arrumou os quartos lá em cima pros meus netos?
VH: Tudo eu nessa p***a — bufei — Claro, mandei arrumar. Tá de tiração que vou ficar arrumando a casa pra receber a chata da Thaís. Gastei maior grana!
DG: Agora só falta tu e o Terror pegarem o meu lugar pra eu poder me aposentar, né não? — lançou a indireta.
Pistolei na hora.
VH: Ih, doidão. Começa com esses teus bagulho não. Tu ainda vai ficar na frente desses morro por uma cota.
DG: Vou nada, caraí. Agora vou curtir a vida com os meus netos!
VH: Tá bom, DG — levantei boladão, indo pro meu quarto no segundo andar — Sem papo pra tu hoje.
Eu queria pra c*****o aquele posto, tanto quanto o Terror queria, mas não gostava quando o DG vinha com essas historinha, porque aí já partia pro drama que o velho tava e que ia morrer.
Como tava sem paciência, fiquei no meu quarto bolando um, enquanto via pela janela os mano que chegavam na minha casa com várias parada que eu tinha comprado: piscina de bolinha, pula-pula, tobogã pra cair na piscina, pista de skate e um castelo rosa — que era a cor favorita da vitória a. Tava tudo nos trinques pra receber minha galera.