Os Lacerdas
— Qual é seu nome?— a senhora ruiva me perguntou.
Olhei para ela, e vi o olhar de reprovação nítido no seus olhos enrugados.
— Louise Lee.— disse olhando nos olhos esverdeados da senhora
— Muito bem Louise... O serviço é de faxineira e as vezes você terá que acompanhar a minha filha em alguns eventos, mas sobre a minha filha eu irei pagar por fora. Você vai trabalhar das 10 às 17:00. Está interessada no serviço?— a senhora perguntou.
— Sim...
— Muito bem. Você com certeza já deve ter experiência como faxineira, o salário é aquele que você viu no anúncio.
Arregalei os olhos e sorri, daria para eu pagar as mensalidades do hospital, e comprar comida para a casa.
— Quando posso começar?— perguntei sentindo uma pontinha de esperança.
— Pode começar amanhã.
De repente um moço muito bonito entrou pela porta, ele me encarou e sorriu.
— Achou a nova empregada?— ele perguntou olhando para mim.
O homem tinha cerca de uns 27 anos, ele tinha cabelos pretos e sua pele era branca, como se nunca tivesse tomado Sol na vida. Seus olhos eram azuis e ele tinha um corpo bastante atlético. O moço provavelmente era o filho mais velho da senhora que estava me entrevistando, eles não tinham muitas coisas em comum, o que era estranho.
— Oi meu amor!— a senhora disse olhando para o homem.
O homem se aproximou dela, e então a beijou. Eu fiquei sem reação, aquilo me deixou levemente desconfortável.
O sorriso desapareceu dos lábios da senhora, e ela me encarou novamente.
— Sim... Ela vai ser perfeita.— a senhora disse rispidamente.
Olhei então para a senhora e me senti um pouco intimidada, mas tentei manter toda a postura, afinal, eu precisava do emprego.
— Qual é seu nome?— o homem me perguntou.
— Louise... Lee.— disse quase em um sussurro.
— Muito prazer Louise, meu nome é Samuel sou o marido da Amélia.— O homem disse com um sorriso encantador.
Eu sorri meio sem graça e Amélia começou a falar.
— Muito bem Louise, você começa amanhã.— Amélia disse seriamente.— Traga a sua carteira de trabalho, e não se atrase.
Me levantei da cadeira e sorri.
— Muito obrigada senhora Amélia.— disse me retirando da sala.
Saí da enorme mansão dos Lacerda pulando de alegria, os meus problemas estavam começando a se resolver, e isso era ótimo. Fui para o ponto de ônibus, e esperei o ônibus enquanto pensava que minha mãe poderia continuar o tratamento no hospital. O ônibus demorou cerca de 15 minutos, e assim que entrei no ônibus, suspirei de alívio, agora era só me aconchegar e esperar uma hora até chegar no ponto que eu iria descer.
Assim que desci do ônibus, caminhei por cerca de 10 minutos pelos becos até chegar na minha casa. Abri o portão, e depois entrei em casa. Assim que entrei, senti um cheiro fantástico. Olhei para o fogão e vi Liana.
— O que você está fazendo aqui, Liana? Eu disse que não precisava vim cozinhar para mim.— disse olhando para a Liana.
Liana era a minha melhor amiga, nos conhecemos no quarto ano da escola e desde então ficamos inseparáveis. Ela parecia um anjinho de tão meiga e carinhosa. Ela tinha cabelos negros e lisos, sua pele era morena e seus olhos eram escuros como uma noite sem estrelas. Ela parecia uma Índia, tinha herdado essa beleza dos seus antepassados que eram indígenas.
Liana se virou e sorriu docemente.
— Então pare de deixar a chave escondida no vaso das plantas! Mas me diga que tem boas noticias Lu..— Liana disse com o semblante preocupado.
Olhei para Liana e abaixei a cabeça, e ela logo presumiu que eu não havia conseguido o trabalho. Mas poucos segundos depois, eu pulei de alegria.
— Eu consegui! Começo amanhã Liana!!— disse sorridente.
Minha amiga logo sorriu alegremente e se aproximou para me abraçar.
— Graças a deus! Eu já a estava preocupado com o hospital... você sabe que se eu tivesse algum dinheiro, eu te daria Louise, mas o que eu ganho m*l da para pagar a faculdade.— Liana suspirou.
— Eu sei amiga, não se preocupe.
— Já foi visitá-la?— Liana perguntou.
— Ainda não, eu vou tomar um banho, e vou lá vê-la.— disse suavemente.
Liana concordou com a cabeça, e eu fui para o banheiro. Tomei meu banho lentamente, enquanto deixava a água quente levar todo o meu estresse dos últimos dias. Depois do banho, coloquei uma roupa simples, e comi um pouco da comida de Liana. Logo em seguida fui para o hospital ver mamãe. Assim que cheguei, a enfermeira me levou para o quarto que mamãe estava internada.
Quando eu entrei no quarto, me deparei com uma cena que partia meu coração em pedacinhos. Minha mãe estava aparentemente inconsciente, ela estava pálida e sua boca estava ressecada. Ela estava tomando remédios pelas veias, e seu semblante era de uma pessoa cansada. Logo ela despertou e olhou para mim com o seus olhos escuros e tristes.
— Filha?— ela me chamou com sua voz fraca.
Me aproximei da cama, e peguei em suas mãos.
— Oi mãe...
— Como foi a faculdade hoje?— minha mãe perguntou com os olhos brilhando, enquanto dava um sorriso fraco.
Eu iniciei a minha faculdade de marketing a 3 anos atrás, assim que eu completei meus 19 anos. Minha mãe sempre me incentivou muito a estudar, então, ela trabalhava para sustentar a casa e eu trabalhava em uma cafeteria para pagar a minha faculdade. Quando eu estava no meu último ano da faculdade, ela adoeceu, e precisou ser internada. Mas, a mensalidade do hospital era muito cara, e eu parei de estudar para poder pagar o hospital. O problema é que o tratamento foi aumentando, e eu tive que procurar um emprego que pagasse mais, para a minha mãe poder continuar recebendo o tratamento necessário, foi aí que eu encontrei o anúncio da família Lacerda. A questão, é que ela não sabe que eu parei de estudar para pagar o hospital, ela acha que eu ainda estou na faculdade e que eu estou vendendo bolos para pagar o hospital. Eu não tenho coragem de contar, então todas as vezes que eu venho visitá-la, eu minto.
— Filha?— minha mãe me chamou, me despertando dos meus pensamentos.
Olhei para mamãe, e olhando nos seus olhos eu menti.
— A aula foi ótima mãe...