— O que houve, Vivi? Pergunto um pouco ansioso, já que ela não costuma ligar por bobagens.
— Senhor, Frederico está com dores muito fortes. Ela responde, agitada. — Vou levá-lo ao pronto-socorro.
Os alarmes no meu corpo disparam na velocidade da luz enquanto milhares de pensamentos invadem a minha mente.
Não, meu filho não.
— Escute, Vivi. Tento acalmar a mulher enquanto também tento controlar as minhas emoções. — Leve-o ao Hospital de Palermo, estarei lá em cerca de quinze minutos.
Mantendo a cabeça fria, dou as instruções apropriadas à minha secretária antes de ir para o hospital.
— Por que está demorando tanto? Eu xingo, olhando para o relógio. — Já se passaram mais de vinte minutos desde a ligação.
— Há muito trânsito, senhor. Responde o meu motorista. — Mas estamos quase lá.
Nem espero os protocolos de segurança, ou até mesmo que o carro pare completamente, antes de disparar em direção à entrada do pronto-socorro.
— Papai! A minha filhinha se joga em meus braços e eu rapidamente a pego no colo. — O Fred não vai morrer, certo?
— Claro que não, Ella. Beijo a sua bochecha enquanto uma enfermeira me atualiza sobre a condição do meu filho mais velho, garantindo que não é nada sério. Sem perder mais um minuto, assino a autorização para a operação.
Sento-me em uma das poltronas da sala de espera com a minha filhinha no colo, tentando acalmar a minha impaciência com o calor que emana de seu pequeno corpo. Não quero que ela tenha outro ataque, o último foi difícil de controlar.
Ultimamente tenho tido dificuldade em encontrar tempo livre para os meus filhos. Fiquei muito envolvido nos negócios, mas se não tivesse ficado, eu não seria o homem mais poderoso de Florença, o Magnata do Aço, como costumam me chamar.
— Isso não teria acontecido se você tivesse uma mulher para cuidar deles. Reclama minha mãe. — Tentamos com babás, mas não funcionou.
— Você não me dizendo nada de novo, mãe. Respondi. — Pare de me incomodar, não é hora para isso.
— Você precisa de uma esposa, Adriano! Os meus netos precisam de uma mãe! Quando você vai perceber? Ela começa com a mesma velha canção. — Vivi não consegue acompanhar as crianças. Por quanto tempo você vai adiar esse assunto? Mostrei a você as melhores mulheres de Florença e venho insistindo há meses para que você se decida. Já falei sobre isso um milhão de vezes. Alexa Di Lauro pega a minha mão e a acaricia num gesto maternal. Sei que ela está fazendo isso para o meu bem, mas não quero tomar uma decisão precipitada e Carina ainda não me convenceu. — O luto acabou, filho. É hora de virar a página.
— Meu filho está no meio de uma cirurgia, mãe. Bufei, exasperado. — Deixemos o assunto por enquanto. Já concordei com os seus desejos, só preciso encontrar a mulher certa.
— Terei uma nova mãe, papai? Ella para de esconder a cabeça sob o meu peito para me olhar com aqueles olhos que tanto me torturam nos meus sonhos. Ela se parece muito com a mãe...
— Não crie muitas expectativas, querida. A minha mãe interrompe com um bufo. — O seu pai não está falando sério, ele só está brincando com a gente e com a minha paciência. Ela acrescenta as últimas palavras num sussurro para que só eu possa ouvi-la.
— Mas eu quero uma mãe, não uma "avó". Protesta a menina com os lábios franzidos. Pela primeira vez, elA parece ter quatro anos e não sete ou oito. Isso só me diz que o que aconteceu com o irmão dela a assustou.
— Por enquanto você tem sua linda avó. A minha mãe a pega para colocá-la no colo. Ela é leve como uma pena. — Eu sou bonita?
— A mais linda de todas as avós. Reafirma a minha filha ao mesmo tempo em que reviro os olhos.
Se a víbora de sua avó materna a ouvisse, ela gritaria para os céus.
Os minutos passam como se fossem horas. Permaneço sentado, sem expressão no rosto. Preciso manter a cabeça fria. No entanto, a impaciência está começando a ultrapassar osmeus limites. Então, uma loira com rosto angelical se aproxima de nós.
Ela abre um sorriso e parece iluminar o ambiente com ele.
— O Fred está bem? A minha filha surpreende a todos nós com seu comportamento, pois ela é muito introvertida e não conversa com quase ninguém, muito menos com estranhos.
Enquanto a médica fala lenta e compreensivelmente com o me*mbro mais novo da família, eu permaneço hipnotizado, contemplando a pintura. A mulher continua sorrindo e até acaricia a bochecha da minha filha de forma inconsistente, e ela parece muito confortável perto dela, até mesmo exibindo a sua dentição incompleta.
Ela está rindo.
Minha filha está rindo.
Parece que elas se conhecem há muito tempo...
É estranho, desconcertante e, ao mesmo tempo, agradável. Uma sensação quente começa a se instalar na minha pele enquanto o desejo de repente começa a surgir.
É a primeira vez que algo assim acontece. A primeira vez que desejo saber o nome de uma mulher antes de levá-la para a cama. E o mais impressionante é que é a primeira vez que Ella fala com um estranho sem problemas. Tem um magnetismo que cativa.
Examino a médica detalhadamente; Ela é linda, seu uniforme de médica parece um terno de grife de supermodelo e os fios de cabelo dourado e os olhos verdes brilhantes combinam perfeitamente. Ela é bonita, elegante, mas não superficial como a maioria das mulheres do meu círculo social. Ela parece ser uma virtuose com crianças pelo jeito que a minha filha se comporta e se ela é médica, deve ter uma inteligência acima da média. O suficiente para aceitar a realidade e cumprir os termos estabelecidos.
A esposa perfeita...
A mulher levanta a cabeça e, automaticamente, os nossos olhares se cruzam, deixando-nos ambos impressionados. Agora não tenho mais dúvidas e não preciso mais ficar procurando candidatas. Eu fiz a minha escolha e a provo em apenas duas palavras: encontrei você.
Cassandra
Pelo que parece uma eternidade eu o encaro. O cabelo preto azeviche, o queixo proeminente e... os olhos azuis. Aqueles mesmos que vi nas profundezas do mar... Ele é o príncipe encantado dos meus sonhos. Mas... como é possível? Tenho certeza de que nunca vi esse homem na minha vida. Se eu tivesse feito isso, certamente me lembraria.
Como é bonito, por Deus!
E a declaração que ele fez... As mesmas palavras que ouvi esta manhã. É como reviver o meu sonho, mas de uma forma muito melhor. Não acredito. Estou ficando louca?
— O que você disse? Estou tão atordoada que de repente esqueci o idioma e estou falando em inglês.
— Como está o meu filho, doutora? Ele ignora a minha pergunta, o que me faz voltar à razão. Então afasto os meus pensamentos tolos e respiro fundo antes de responder, desta vez em italiano: a operação foi simples. O paciente apresentou apendicite aguda não complicada. É bastante comum em crianças da idade dele... Continuo explicando o comportamento e a condição atual de Frederico Di Lauro. Sei que há mais familiares na sala ouvindo as minhas palavras, mas só consigo prestar atenção ao italiano na minha frente. Caí numa espécie de hipnose. — Vamos mantê-lo em observação por pelo menos quarenta e oito horas. Eu concluo. — Depois vamos reavaliá-lo e mandá-lo para casa.
— Podemos ver o meu neto? Intervém uma senhora muito bonita. A sua semelhança com o italiano é evidente.
— A enfermeirA Falco levará vocês ao quarto do paciente em alguns minutos. Respondo. — Podem ficar tranquilos: concentro os meus olhos novamente no príncipe dos meus sonhos e, enquanto olho para ele, um filme inteiro passa na minha cabeça.
Lembro-me da sua aparição quando pensei que iria me afogar no mar, os seus braços fortes segurando o meu pequeno corpo, nossas respirações sincronizadas, o calor de sua pele, a voz rouca e máscula que me faz estremecer por dentro e, finalmente, seus beijos... Ainda posso sentir o calor de seus lábios nos meus.
Lembro-me da minha exc*itação, do desejo, da antecipação...
Olho de suas esferas azuis para seus lábios apetitosos e tenho que lutar com todas as minhas forças para não corar.
É estranho e impossível, mas sinto como se o conhecesse desde antes, muito antes.
Fecho os olhos e respiro para poder continuar: como eu disse à pequena, a recuperação é rápida e ele poderá retornar às suas atividades normais em cerca de duas semanas.
— Muito obrigada por tudo, doutora. Disse a mesma mulher de antes.
— Não é necessario agradecer. Respondi em um tom amigável e profissional. — Estou apenas fazendo meu trabalho.
— De qualquer forma, minha mãe está certa. Intervém o pai do meu paciente. A sua voz é tão impetuosa que consegue atiçar o calor nas minhas bochechas. Deus! Falar assim deveria ser um crime. — Você tem nossa eterna gratidão, Doutora...
— Reid. Concluiu.
— Prazer em conhecê-lo, Dra. Reid. Sem aviso, ele pega a minha mão e a envolve na sua, no que parece ser uma saudação cordial. — Eu sou Adriano Di Lauro.
— O prazer é todo meu. Respondo automaticamente, cativada por seu sorriso torto. Este homem poderia conquistar o mundo com um simples gesto ou um simples olhar.
— Diga-me, Dra. Reid. Ele diz, com a voz tão baixa que m*al consigo ouvi-lo. — A senhora acredita em destino?
— Desculpe? Sinto-me cada vez mais desorientada e hipnotizada. — Receio que não estou entendendo, senhor.
— Não se preocupe, você vai conseguir...
Continuamos nos encarando, com as mãos ainda entrelaçadas, até que sinto um puxão no meu jaleco, me forçando a abaixar a cabeça para encontrar o rostinho mais fofo que já vi.
Ela está tão bonita com os seus cabelos pretos, os seus olhos azuis-claros cheios de um brilho especial, e o vestido da mesma cor adornado com renda e alguns brilhos que não parecem reais.