Amizades Falsas

1934 Words
A ligação de Leandro deu a Gálata uma sensação de desconforto. Ela sentiu uma rajada gelada congelar seus ossos, e, apesar de não querer ser grosseira, não gostava da ideia de recebê-lo, muito menos de encontrá-lo. Havia algo que a fazia querer mantê-lo afastado. — Leandro, que surpresa sua ligação! Embora suas palavras me deixem confusa. Por que eu precisaria de você? Nem somos tão próximos assim — mencionou ela, desconcertada. — Desculpe, Gálata! Minha intenção não é te incomodar. Eu te considero tão amiga quanto sou de Matteo e acho que você precisa de mim agora, porque talvez esteja sufocando com a volta de Helena. É bom desabafar com alguém, não é bom reprimir essas emoções, isso pode te fazer m*l, te adoecer — manifestou Leandro, com tom de preocupação. — Muito obrigada pela oferta, mas prefiro não te incomodar — declarou Gálata, tentando evitá-lo e se perguntando: "Como ele sabe que eu sei sobre a volta de Helena?". No entanto, ela afastou esses pensamentos e continuou prestando atenção às suas palavras. — Você não me incomoda. Já estou na porta da sua casa e trouxe um café da manhã delicioso, incluindo dois cappuccinos maravilhosos — acrescentou ele, com uma risada. Gálata fez uma careta e suspirou resignada. — Está bem, me dê cinco minutos e estarei pronta — respondeu ela. Ela desligou o telefone e foi se arrumar, fazendo-se mais apresentável para receber a visita, ainda que indesejada. ***** Matteo chegou ao hotel rapidamente, com a intenção de verificar o estado de Helena e voltar para casa o quanto antes. Ele rezava em silêncio para que Gálata não acordasse enquanto estivesse fora, pois ela lhe pediria explicações e ele não queria mentir. Contar a ela o que aconteceu com Helena poderia causar atritos entre eles, algo que ele não queria lidar naquele momento, justo quando percebeu que tudo poderia ser diferente entre eles. Ele teria gostado de ficar com sua esposa, abraçando seu corpo, saboreando seu elixir e enterrando-se nela. Pensar nesses momentos provocou-lhe uma forte ereção, e ele ficou tentado a voltar, encontrar sua mulher e ligar para o hotel pedindo que encontrassem outra solução. No entanto, sua consciência não permitiu, pois já havia errado com Helena no passado. Agora, sentia que tinha que compensá-la de alguma forma por tê-la abandonado quando mais precisou. Ao chegar ao hotel, entregou o carro ao manobrista e foi recebido no lobby, onde o conduziram até a suíte. Apesar de conhecer o caminho, preferiu ser guiado. Ao entrar, viu dois seguranças na sala, que o convidaram a ir ao quarto. Lá estava Helena, deitada na cama, de olhos fechados, o rosto incrivelmente pálido, como se fosse de porcelana. Seu cabelo loiro desgrenhado emoldurava seu rosto delicado; ela parecia frágil e vulnerável. Um lampejo de compaixão surgiu dentro dele, misturado com remorso. Ele suspirou, sem disfarçar a frustração. Ao vê-lo, o médico o cumprimentou. — Imagino que seja o marido da senhora Helena? Bem, deixe-me dizer que sua esposa... — começou o médico, mas foi interrompido por Matteo. — Ela não é minha esposa! É uma amiga que está passando por um momento difícil, e eu vim ajudá-la. Não há nenhum vínculo sentimental entre nós — afirmou Matteo, com firmeza. — Ah, me desculpe! Achei que fosse outra coisa. Bom, eu apliquei um sedativo nela, então vai dormir por algumas horas. O susto que levou foi grande. Alguém tentou abusá-la e rasgou suas roupas. Uma funcionária do hotel a trocou e colocou roupas limpas — explicou o médico. Matteo se dirigiu ao gerente do hotel, que estava de pé ao lado, e falou com irritação. — Vocês verificaram as câmeras de segurança? Viram quem foi o agressor? — perguntou ele, sem esconder a irritação. — Infelizmente, o homem usava um moletom preto com capuz. Seu rosto não apareceu nas câmeras. Parece que ele conhecia o local, porque sabia onde se esconder — respondeu o gerente, constrangido. — Esse incidente precisa ser investigado. Verifiquem a hora em que ele chegou, a descrição do carro, tudo. Usem até as câmeras de trânsito e de estabelecimentos próximos. O culpado deve ser punido, e vocês precisam garantir a segurança dos hóspedes — disse Matteo, friamente. — Isso nunca aconteceu neste hotel antes, é realmente estranho. Chamamos a polícia, eles já estão investigando. Inclusive, suspeitam que o agressor seja alguém conhecido da senhorita — explicou o gerente, com sinceridade. — Senhor Sebastini, aqui estão os medicamentos para a dor e os calmantes. E esta é minha carta com meu número. Se precisar de algo, não hesite em me ligar — disse o médico, antes de se despedir e sair com o restante das pessoas. Agora, sozinho no quarto, Matteo se aproximou da cama, puxou uma cadeira e se sentou ao lado dela. Ele não pôde resistir e estendeu a mão, quase tocando o rosto dela, mas recuou rapidamente ao perceber o que estava fazendo. —Diabos, o que estou fazendo! —os pensamentos começaram a inundá-lo com as lembranças de quando a conheceu. Foi em uma festa da família de sua mãe em Barcelona. Ela estava presente com algumas amigas, mas não como convidada, estava trabalhando como garçonete na festa. Ele estava conversando com alguns amigos, quando fez um movimento brusco e ela, que passava com uma bandeja de canapés, a derrubou no chão, causando um desastre que resultou na demissão da garota. Para compensá-la, ele a convidou para trocar de roupa e permanecer na festa, até mesmo oferecendo um vestido de sua irmã Alondra. No final, eles passaram a noite toda dançando, e ela conquistou seu coração até o dia em que a viu beijando Gerônimo. Helena havia se comportado de forma muito estranha nas últimas semanas antes da separação. Estava evasiva, sempre distraída, e durante esses dias nem sequer queria fazer amor com ele, o que nunca acontecia antes. Naquele tempo, bastava tocá-la e ela buscava uma desculpa para evitar. Quando Matteo conversou sobre suas preocupações com Leandro, este comentou que a tinha visto naquele mesmo dia almoçando com Gerônimo, de forma muito próxima. Por isso, apesar de já ter se despedido de Helena, ele saiu como um louco para confrontá-los. Seu amigo tentou impedi-lo, pedindo que ele esperasse até o dia seguinte para falar com eles, mas Matteo não o fez. Helena era a única pessoa que conseguia transformar seu temperamento frio em um poderoso vulcão. Quando Matteo viu a cena dela beijando Gerônimo, precisou apertar os punhos ao lado do corpo para se controlar, evitando se aproximar e acabar com ambos. Mas ele se recusou a se rebaixar a isso. Nunca havia brigado por uma mulher e não seria aquela a primeira vez. Simplesmente se virou e, embora tenha escutado os gritos de Helena, ele os ignorou e saiu de sua vida para sempre. Até agora, quando ela voltou para bagunçar seu mundo perfeito. Matteo pegou o celular para enviar uma mensagem a Gálata, mas ao pegá-lo, estava sem bateria. Pensava em ficar mais algumas horas e depois voltar para sua casa com sua família, torcendo para que Gálata não tivesse acordado. Sem querer, não conseguiu evitar refletir sobre suas duas relações, as únicas de sua vida, com Helena e com Gálata, tentando definir seus sentimentos por cada uma delas. Porque, embora tentasse negar, seu primeiro amor ainda o estremecia, provocava ternura e o desejo de protegê-la. No fundo, queria poupar Helena de qualquer sofrimento. Em relação a Gálata, ele queria acordar todos os dias ao lado dela, passar horas conversando, sentir sua pele. —Merda! E agora? —perguntou-se, no meio dessa tempestade de memórias e emoções. No fim, o sono o venceu, e ele adormeceu na poltrona. Duas horas depois, Matteo acordou sobressaltado e desorientado ao ouvir gritos. Ao se recompor um pouco, viu Helena com os olhos arregalados, olhando para a porta e soltando gritos aterrorizantes. Seu rosto demonstrava puro pavor enquanto ela se encolhia na cama, apontando para a porta com uma voz completamente histérica. —Ele está ali! Faça-o ir embora! Eu não quero que ele me toque! —ela gritava enquanto as lágrimas escorriam por seu rosto. —Não tem ninguém ali, Helena. Você está segura, nada de r**m vai acontecer com você —Matteo tentou tranquilizá-la com suas palavras. Quando ele se aproximou, Helena se agitou ainda mais, começou a bater nele, arranhando-o com força e dando-lhe chutes, completamente fora de controle. —Afaste-se! Me solte! Me deixe! —sua voz foi ficando rouca devido aos gritos incessantes. Matteo se viu obrigado a segurá-la com firmeza, tentando acalmá-la com um abraço. —Por favor, já não tem mais ninguém aqui! Acalme-se! —ele disse suavemente, acariciando suas costas. Pouco a pouco, Helena foi se acalmando. Matteo acabou deitado na cama com ela sobre seu peito, enquanto o corpo dela ainda tremia com suaves soluços, e ele a consolava. O tempo passou, e ele adormeceu, esquecendo-se de sua intenção de voltar para casa antes do amanhecer. ***** Gálata abriu a porta de casa e lá estava Leandro com um sorriso, apoiando o braço na parede da porta. —Olá —exclamou com uma voz tentando soar sensual. —Olá, Leandro, entre —cumprimentou Gálata, abrindo mais a porta para deixá-lo entrar, mas ao fazê-lo, não a fechou completamente, deixando-a entreaberta —. Matteo não está em casa —mencionou ela, esperando que isso o fizesse encurtar a visita. —Eu sei que ele não está, mas não vim para vê-lo, vim para ver você —seu tom de voz era estranho, o que deixou a jovem desconfiada. —Por acaso sabe que meu marido não passou a noite em casa? Sabe onde ele está? —as palavras saíram em um fluxo descontrolado de sua boca, sem que pudesse evitá-las. Ele deu de ombros e a olhou com compaixão, simulando uma expressão de quem estava tentando ajudar, mas ao mesmo tempo, não queria trair um amigo. —Gálata, isso é difícil para mim. Eu te quero muito bem e te aprecio, mas você precisa entender minha posição. Matteo é meu melhor amigo e o que ele me diz, não posso revelar, porque ele me fala em confiança —disse ele com uma expressão de conflito. —Entendo, mas eu não posso mais viver nessa incerteza. É um tormento imaginá-lo com aquela mulher, ele me deixou para ir atrás dela... isso dói aqui! —falou com raiva, batendo com força no peito. Leandro pegou sua mão para impedi-la de se machucar. —Vou te dizer uma coisa, Helena voltou e Matteo ainda a ama. Você precisa estar preparada. Eles vão ficar juntos, e você não poderá fazer nada, porque ele está disposto a tê-la e ser feliz com ela. Entre o dever com vocês e o amor, seu marido escolheu o amor, e Helena é o grande amor da vida dele, quem ele nunca conseguiu esquecer e nunca vai esquecer. Quanto mais rápido você entender isso, menos sofrerá, Gálata. As palavras de Leandro foram como punhais afiados que se cravaram sem piedade em seu coração. O queixo de Gálata começou a tremer e ela não conseguiu segurar as lágrimas. Justo nesse momento, a porta da sala se abriu de par em par e uma voz feminina se fez ouvir. —Nunca gostei de falsos amigos, aqueles que fingem lealdade e não perdem a oportunidade de apunhalar pelas costas aqueles que confiam neles. São verdadeiros abutres, esperando para ver quem cai para sair e devorá-los —disse a mulher com os olhos brilhando de fúria, enquanto Leandro virou o rosto e a olhou com ódio absoluto, como se quisesse destruí-la com um único olhar.
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