Matteo ficou sentado sem saber como reagir. Tudo parecia tão irreal, ele sentia como se tudo estivesse acontecendo com outra pessoa. Por um momento, uma ponta de descontrole tentou tomar conta dele, quase se desesperando, mas ele conseguiu conter esse sentimento. Levantou-se, caminhou até o bar e serviu-se um copo de whisky, que tomou de uma vez só. Ele nunca se permitia descontrolar, e não começaria agora.
As palavras de Gálata continuaram ecoando em sua mente. Ele se recusava a acreditar que suas vidas tinham sido daquele jeito, mas, após alguns minutos de reflexão e relembrando o passado, chegou a uma dolorosa conclusão, algo que ele havia negado por muito tempo: talvez ela estivesse certa. Era inevitável evitar as lembranças que começaram a surgir.
"Chegou do trabalho depois de várias reuniões com os arquitetos, revisando os planos para a construção de um novo complexo hoteleiro. Assim que chegou, afrouxou a gravata e caminhou em direção à cozinha. Encontrou Gálata assando um peru.
— Matteo, você chegou cedo! — exclamou sua esposa, com o rosto corado pelo calor do forno.
— Sim, terminei cedo — foi sua simples resposta, sem sequer lhe dar um beijo de cumprimento. — Onde está Xavier?
— Consegui colocá-lo para dormir há menos de uma hora. Ele está no quarto — respondeu ela, olhando para ele como se quisesse dizer algo mais, mas, em vez disso, apertou os lábios num gesto de frustração e preferiu ficar em silêncio.
Ele a observou por alguns momentos, esperando que ela dissesse algo, mas as palavras nunca vieram. Encolheu os ombros com aparente indiferença.
— Quer dizer algo? — perguntou ele, levantando as sobrancelhas em confusão. Ela balançou a cabeça, negando.
No entanto, quando ele estava saindo da cozinha, ela o chamou.
— Matteo! — exclamou, e ele se virou com uma expressão interrogativa. — Você pode me dar um beijo?
Por alguns segundos, ele ficou pasmo, sem saber se deveria dar uma resposta afirmativa ou negativa. Quando ela voltou sua atenção para o forno, Matteo se aproximou, a segurou pelo braço, deu-lhe um rápido beijo nos lábios e saiu, caminhando em direção ao quarto do filho."
Ao lembrar desses momentos, Matteo balançou a cabeça negativamente e, imediatamente, outras cenas semelhantes invadiram sua mente. Ele se sentiu profundamente envergonhado de si mesmo.
— Será possível que eu nunca tenha amado Gálata? — perguntou em voz alta, enquanto tomava mais um copo do líquido âmbar.
— E Helena? Quais são meus sentimentos por ela?
Perguntou-se em voz alta. Tudo estava relacionado ao passado, quando eles realmente foram felizes. Naquela época, só de vê-la, o sangue pulsava com força em suas veias, talvez porque ele fosse jovem e inexperiente, mas, depois de acreditar que ela o havia traído, suas emoções se tornaram frias e ele se manteve impassível, para não sentir e não voltar a ser machucado.
Matteo deu um tapa forte em sua própria cabeça, irritado consigo mesmo. Não quis ir para o quarto nem para o de seu filho, porque não queria sentir o cheiro deles. Por mais que parecesse mentira, ele nunca havia se separado de sua esposa e de seu filho, a menos que estivesse em viagem. E, para ser sincero, ele estava sentindo falta deles, a ponto de doer fisicamente e de dificultar sua respiração.
Quanto mais pensava, mais acreditava que talvez Gálata estivesse apenas tentando fazê-lo reagir. Era melhor acreditar nisso, embora as fotos e o vídeo fossem claros. De repente, surgiu outra dúvida em sua mente: "Quem mandou aquelas fotos? Será que foi Helena capaz de fazer isso?" Ele balançou a cabeça, não acreditava que ela pudesse conspirar contra ele. Afinal, eles tinham se despedido para sempre.
— Se não foi Helena, quem enviou? Quem poderia ter sido? Será que tenho um inimigo oculto? — perguntou-se.
"Quem me odeia o suficiente para fazer isso? Ninguém mais sabia sobre minha visita a Helena, apenas nós dois", refletiu.
Assim, ele passou o dia inteiro, a tarde e a noite, sem comer ou beber água, apenas whisky, mantendo-se num estado de ansiedade e pensamentos incessantes que o atormentavam cada vez mais. Já perto do amanhecer, ele adormeceu e acontecimentos, que ele não sabia se eram do passado, futuro ou fruto de sua imaginação, invadiram seus sonhos.
"Chegou ao apartamento cansado de um dia intenso de trabalho e ela veio recebê-lo. Sua camisola transparente deixava à mostra uma lingerie sexy que não escondia nada. Seus m*****s rosados podiam ser vistos através do tecido. Seus cabelos eram lindos, dourados como raios de sol, sua pele branca como a mais fina porcelana. Imediatamente, seu corpo reagiu à sua presença, seu m****o se ergueu orgulhoso por debaixo da calça. Sem pensar mais, aproximou-se dela, segurou-a pela nuca e começou a beijá-la com desespero.
Ela foi despindo-o lentamente, enquanto ele não parava de acariciá-la. Ele a despiu completamente e a deitou na cama. Quando ergueu o olhar, viu cabelos castanhos e aqueles olhos cinzentos metálicos como prata, e uma boca que o convidava a beijá-la. Seu coração disparou e, sem pensar mais, ele lançou-se para devorar aqueles lábios que o enlouqueciam. Tinham o sabor do mais puro e delicioso mel.
Ele não podia acreditar que tinha Gálata em seus braços.
— Meu amor, estou tão feliz por você ter voltado. Sabia que não me deixaria, pois não poderia viver sem você — disse ela novamente.
No entanto, quando ele levantou o olhar, eram novamente os cabelos dourados. Ele se levantou da cama, assustado, dando passos para trás e gritando:
— Não! Você não é Gálata! Você é Helena! — gritou, apavorado."
O grito foi real. Ao abrir os olhos, ele estava jogado no chão, suando abundantemente e com o corpo tremendo. Tudo aquilo havia sido um sonho, ou melhor, um pesadelo terrível.
*****
Gálata ouviu as palavras de seu pai com preocupação. Sabia o quanto ele a protegia, o quão ciumento e cuidadoso ele era com ela. Tinha certeza de que, ao contar a verdade, ele não apenas partiria para bater em Matteo, mas também enfrentaria Nick. Conhecendo seu lado infantil, uma guerra empresarial poderia começar para vingar-se, pois aquela veia vingativa, por mais que ele tentasse neutralizá-la, ainda estava ali. Gálata não queria um confronto entre os Ferrari e os Sebastini, afinal, seus filhos eram Sebastini, e isso nunca mudaria.
Ela pigarreou, tentando esconder a tristeza em sua voz, enquanto engolia toda a sua dor.
— Papai, eu estou bem. Estou indo para a casa de Ângello e Martina buscar meu filho e, de lá, vamos para sua casa. Tenho algumas coisas para conversar com vocês — disse ela, mas, apesar de tentar disfarçar, sua voz falhou no final.
— Gálata, minha filha, você está bem?! Diga onde você está que vou te buscar agora. Levo Xavier comigo — disse ele, desesperado.
— Não, papai! Calma! Sua atitude está me deixando mais ansiosa e nervosa. Por favor, vamos nos encontrar na mansão Ferrari — respondeu, encerrando a ligação.
Quando estava prestes a ligar o carro, recebeu outra chamada e parou novamente.
— Alô? Gálata? Você está bem? — era sua amiga Paula, que soava desesperada do outro lado da linha. — Você tomou uma decisão?
— Ah, Paula, sim, tomei. Eu o deixei. Mas nunca imaginei que seria tão difícil lutar contra mim mesma. Eu só quero correr até ele, voltar para casa e esquecer tudo isso. Sinto as feridas da alma abertas, como se alguém tivesse colocado sal nelas para doerem mais. Sinto como se estivesse morrendo, achando que não vou suportar.
Ela soluçou, tentando conter as lágrimas que corriam descontroladamente por seu rosto.
— Você consegue sim! Sempre foi uma mulher forte. Mesmo que doa, você não vai voltar atrás. O passado ficou no passado, Gálata Ferrari. O mais difícil é tomar a decisão de se afastar, de romper os laços que só te machucam. O resto você vai superar, tendo ao seu lado aqueles que te amam. Estaremos aqui para te apoiar, para te ajudar a se reerguer quantas vezes forem necessárias — disse Paula com uma voz tranquila, mas firme.
— Sempre me lembro da história da sua cunhada Alondra, que você mesma me contou. Você tem que ser como ela, renascer como uma fênix. Cada passo será doloroso, pois as feridas são recentes, mas, quando cicatrizarem, mesmo que as marcas permaneçam, elas te lembrarão da guerreira que você foi e da vitória que alcançou em suas batalhas.
— Obrigada, Paula. O que eu faria sem você? — respondeu Gálata, agradecida à amiga.
—Você viveria triste, desamparada, desanimada e sem tempero na vida —disse em um tom tão dramático que fez Gálata sorrir, apesar das circunstâncias. — Mais tarde vou te visitar, mas antes preciso resolver uma coisa. Tenho procurado o bonitão do Gianluca e, desde o ridículo anúncio dele, ele sumiu —concluiu, irritada.
— Paula, nesse caso é você quem precisa ceder. Ele te deu tudo, e você deu muito pouco de si —recriminou Gálata.
— Tenho medo, amiga. Vi meu pai sofrer por tanto tempo até que Martina apareceu como um raio de luz, assim como Taddeo e você. Não quero sofrer, me recuso. Não tenho vocação para mártir —disse Paula, suspirando.
— Neste caso, você é quem está fazendo ele sofrer. Você precisa deixar esse medo de lado, porque vai perdê-lo, e quando isso acontecer, vai se arrepender profundamente —conversaram por mais alguns minutos antes de se despedirem.
Gálata ligou o carro, mas seus olhos ainda estavam cheios de lágrimas, e ela não percebeu um Porsche passando. Ela quase bateu na traseira dele.
— Merda! Merda! —tentou frear, mas, em vez de pisar no freio, pisou no acelerador, e foi inevitável colidir com o carro luxuoso.
— Merda! E agora? —perguntou-se, com o coração acelerado, tomada pelos nervos.