Golpe de uma espada afiada.

1589 Words
Adriano levou Gálata até a mesa, uma localizada no lado esquerdo, em uma área que oferecia mais privacidade. Ele puxou a cadeira, e a jovem se sentou com um sorriso. — Muito obrigada, você esperou muito tempo por mim? — perguntou, olhando para aqueles olhos verdes, tão diferentes dos outros que conhecia. "Chega, Gálata! Não vale a pena continuar lembrando do cubo de gelo, quando você tem na sua frente um homem tão caloroso quanto o sol ardente de verão", pensou consigo mesma. — Cheguei faz uns quinze minutos. Estou acostumado a chegar cedo para os meus compromissos. Como estão as suas coisas? E o seu pequeno, como ele está? Com quem você o deixou? — Adriano fez uma série de perguntas, provocando outro sorriso em Gálata. — Se você me fizer uma pergunta de cada vez, posso respondê-las uma a uma, porque assim você está me sobrecarregando — comentou, sem esconder seu pensamento. — Desculpe, preciso confessar algo... Também estou um pouco nervoso. Faz tempo que não convido uma mulher para jantar que chame tanto minha atenção — admitiu com um tom de nostalgia. — Isso é tristeza que percebo nas suas palavras? — perguntou, sem desviar os olhos dos dele. — Sim, um pouco. Embora o tempo seja o melhor remédio para as dores da alma, elas nunca são completamente esquecidas — disse, com o olhar distante. — Você tem muitas dores na alma? — indagou, e de repente se sentiu envergonhada por sua curiosidade. — Desculpe, não deveria ser tão intrometida. — Não me incomoda sua curiosidade. Muitas vezes, falar sobre isso nos faz sentir melhor. Sim, perdi minha esposa há quatro anos, quando ela deu à luz ao nosso filho. Tenho dois filhos, uma menina de oito anos e um menino de quatro. — Nesse momento, o garçom chegou com garrafas de água e uma de vinho, e o silêncio tomou conta até que ele se retirasse, permitindo que continuassem a conversa. » Ela morreu ao dar à luz, e infelizmente eu não estava com ela naquele momento — disse, com aparente tranquilidade, embora fosse evidente o tormento em sua voz. — Por quê? Você estava trabalhando? — perguntou, curiosa. — Porque eu estava com outra pessoa — disse ele com tranquilidade. Gálata estava tomando um gole de água e, ao ouvir isso, engasgou e começou a tossir. Adriano se levantou e deu leves batidas nas costas dela até vê-la respirar melhor. — Desculpe! Fiquei surpresa com a sua sinceridade. Então você era casado e não amava sua esposa? — continuou, intrigada com sua confissão. — Sim, eu a amava mais do que a minha própria vida. Veja bem, antes de conhecê-la, tive incontáveis amantes. Eu me recusava a me comprometer porque, embora não demonstrasse, o passado dos meus pais também me afetou. Apenas consegui esconder isso melhor do que Fabián, meu irmão gêmeo. No entanto, isso não é uma vantagem, porque ninguém vai tratar uma doença se você não apresentar os sintomas. » Crescemos em uma casa onde meu pai maltratava e humilhava minha mãe constantemente, usando chantagem emocional, nos usando como armas contra ela para impedi-la de deixá-lo. Até que um dia, depois que ela decidiu ir embora, levou minha irmã para o Paraguai. Ao voltar, após alguns meses, ele mandou sequestrá-la com seus homens e quase a matou. Só descobrimos isso porque coloquei um rastreador no celular dela, e conseguimos encontrá-la com a ajuda do pai da minha irmã, que agora é o marido dela. Hoje, ela é feliz como sempre deveria ter sido. — Não entendo, ele sempre a maltratou? — ao ver Adriano assentir, fez outra pergunta. — Por que ela nunca pediu ajuda? — Ela pediu ajuda, mas ninguém a ouviu. Ela se resignou, sabendo que não poderia enfrentar o grande magistrado da Suprema Corte do país, Enrico Colombo. Ele controlava os fios da justiça, e ninguém estava disposto a desafiá-lo. » Eu temia ser como ele. Quando conheci minha esposa, me apaixonei à primeira vista. Nos casamos, éramos felizes, tivemos nossa primeira filha e os anos passaram muito bem. Mas uma vez discutimos, e eu fiquei tão bravo que dei um soco na parede. Isso me congelou por completo. A partir desse dia, tudo começou a mudar. Percebi que aquele gene violento estava em mim, e eu não queria machucá-la. » Me afastei dela, da minha filha e do bebê que ela carregava. Por isso, quando Stella deu à luz, eu estava em minhas aventuras, tentando esquecê-la. No entanto, nunca deixei de pensar nela. » E sabe por que ela morreu? — perguntou, com lágrimas nos olhos. — Porque ela caiu da escada sozinha e me ligou pedindo ajuda, e eu desliguei o celular. Pode existir algo mais miserável do que isso? Gálata ficou impactada com sua história. Sentiu pena daquela mulher, embora não a tivesse conhecido, e também daquele homem cujas lágrimas começaram a rolar. Sem pensar, ela limpou suas lágrimas com suavidade. O toque de Gálata no rosto de Adriano provocou uma onda de desejo em seu corpo. Sentiu o sangue correr rapidamente pelas veias, um formigamento que o excitou de uma forma que ele só conhecia com sua esposa. Ficou olhando para ela, hipnotizado. Os olhares de ambos se encontraram, e Gálata sentiu uma espécie de corrente elétrica. Seu coração disparou, e ela começou a sentir uma umidade entre as pernas. Sentia-se viva, vibrante. "Depois de tudo, você ainda pode provocar desejo em um homem", pensou consigo mesma, fechando os olhos por um momento, imaginando Adriano entre suas pernas, apagando o fogo que sentia. Lutava entre se controlar ou se entregar, deixando as consequências para depois. Adriano, por sua vez, a via como a mulher mais bela e desejável. Mexeu as pernas, tentando disfarçar sua excitação crescente. Não resistiu, e antes que Gálata pudesse perceber, cobriu os lábios dela com os seus. Por um momento, ela manteve a boca fechada, mas, ao sentir o calor pulsando dentro de si, abriu os lábios, deixando-o invadir sua boca, enquanto ambos desfrutavam daquele beijo ardente. ***** Matteo, depois da partida de seu filho, não conseguia suportar tanta solidão. Sentia que as lembranças o machucavam, e, se ficasse ali, provavelmente acabaria enlouquecendo. Levantou-se e vestiu uma roupa casual: jeans e uma camisa de mangas longas que arregaçou até os cotovelos. Ajustou a pulseira de couro que sua Gala lhe havia dado e sorriu, embora com tristeza. — Minha Gala, não faço ideia de como fazer para que você volte para mim — disse com um suspiro. Saiu da garagem com o carro que havia estacionado logo após a despedida de seu filho, e começou a dirigir pelas ruas de Roma sem destino fixo. Não conseguia parar de pensar, sua mente estava cheia de pensamentos e lembranças que o perturbavam. Ele sempre foi muito racional, analisava tudo como se estivesse resolvendo um complexo problema empresarial, e não gostava de tomar nenhuma atitude sem refletir profundamente antes. Acostumou-se a fazer as coisas dessa maneira e, mesmo tentando mudar sua forma de pensar, era difícil. Agora, estava tentando. Porém, sentia-se preso às lembranças com Gálata, e isso parecia estranho, porque quando terminou seu relacionamento com Helena, mesmo a amando e sentindo-se ferido por seu comportamento, ele simplesmente decidiu seguir em frente, e a dor não foi tão grande. Mas, naquele momento, estar distante de sua esposa lhe causava uma angústia insuportável. Estava tão perdido em seus pensamentos que nem percebeu como chegou ao "DOC" Cruderia Bistrot, o restaurante onde costumavam ir para celebrar aniversários ou o Dia dos Namorados. Nunca foram encontros espontâneos, sempre seguiam um compromisso previamente planejado, sem improvisos ou gestos genuínos. Franziu o cenho com desgosto ao perceber isso; ele havia se transformado em um robô, incapaz de sair da rotina pré-estabelecida. Estacionou o carro e viu o de Gálata. Não pôde evitar sorrir de felicidade. Finalmente a encontraria cara a cara e poderiam conversar. No entanto, de repente, sentiu seu corpo tremer e um suor frio percorreu sua espinha, como se algo terrível estivesse prestes a acontecer. Tentou afastar essa sensação e entrou no restaurante. Era um cliente frequente, sempre levando seus sócios e colegas de negócios para comer ali, então, quando perguntou sobre a proprietária do carro, o funcionário prontamente indicou onde ela estava. — Senhor Sebastini, ela está sentada no reservado à esquerda. Se quiser, posso acompanhá-lo até lá — disse o funcionário com cortesia. — Não se preocupe, Marcelo. Eu conheço o caminho. Além disso, não vou tirá-lo de suas funções para me atender — respondeu Matteo gentilmente. Caminhou até a área indicada, sorrindo. Fazia muito tempo que não sorria, mas naquele momento estava disposto a mudar alguns aspectos de sua vida para ser uma pessoa melhor, para sua esposa, para seus filhos. No entanto, nada poderia prepará-lo para a cena que testemunharia. Lá estava Gálata, sua esposa, beijando outro homem. Naquele instante, ele sentiu como se sua alma tivesse sido perfurada por uma espada afiada. Ficou sem ar, como se seus pulmões tivessem parado de funcionar. Sentiu que suas pernas cederiam, e ele cairia ali mesmo. Por alguns segundos, ele se debateu entre confrontá-los, reclamar, mostrar o quanto ela o estava machucando com sua atitude. Queria fazer um escândalo, esmurrar o homem até quebrar seu rosto. Apertou os punhos ao lado do corpo, e, pela primeira vez, sentiu as lágrimas escorrerem de seus olhos, como consequência de ter seu coração partido por uma mulher. O pior de tudo era que nem mesmo com Helena, seu primeiro amor, ele havia sentido uma tristeza tão profunda.
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