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Muitas semanas se passaram. O inverno deu espaço à primavera e o calor já invadia meu corpo de forma desumana. Eu quase não me mexia ou mudava de posição. Passava dias apenas encolhida em um canto no meu quarto. Não queria ver ou ouvir ninguém.
Sempre me senti um pouco vazia por nunca ter sido aceita por ninguém. E então o Richard apareceu na minha vida e... Me mudou. Aquela perda eu não conseguia superar. Os gritos de lamentação ecoavam ainda nos meus ouvidos. Os gritos de socorro de seu pai. E a culpa era minha no fim das contas. Eu matei o Rick. Como pude ser tão egoísta?
Quando Koboa me disse para encontrar alguém de minha confiança para me ajudar eu sempre pensei nele. Ricky sempre foi a primeira opção. Não havia segunda, terceira nem quarta. Sempre foi ele. O que eu sou sem ele? O que minha vida é sem ele? Koboa que me perdoe, mas não poderei ajudá-lo nesta vida.
Vida? O que é vida agora para mim?
Me levantei e fui até meu closet. Lá eu tinha algumas coisas antigas que eu não usava há muito tempo. Encontrei uma velha corda que eu usava pra brincar quando era mais nova.
Vida? Eu sou capaz de viver assim? Se Deus acha que eu consigo, ele que venha me salvar então.
Peguei a cadeira da minha escrivaninha e coloquei na direção do ventilador. Amarrei a corda bem firme e em seguida coloquei a corda em volta de meu pescoço. As lágrimas já me deixaram cega e eu m*l conseguia raciocinar, meu choro ficava cada vez mais alto e eu já não me importava mais com isso.
Algumas batidas fortes na porta me deixaram um pouco desorientada e acabei por escorregar da cadeira antes da hora certa. Sentia a corda impedindo o sangue de continuar e meus pulmões também não trabalhavam como antes. Aos poucos tudo foi ficando preto e meus ouvidos já não ouviam direito. Pude ouvir algo parecido com a minha porta sendo posta a baixo, mas pra mim, eu já estava morta.
- Zahra!
Uma voz do além? Ricky? Ah... eu estou morta. Então devo encontrar com ele!
Eu estava em lugar nenhum. Meus pés pisavam um chão invisível e minhas roupas estavam completamente brancas. Uma brisa fraca passou pelo meu corpo e isso me fez ficar arrepiada.
Mais adiante eu pude ver um homem sentado em um banco, contemplando uma paisagem que só ele podia ver. Olhei na mesma direção e só pude enxergar a escuridão. Me aproximei.
- Perdão, mas onde nós estamos? – o homem me olhou e eu dei um pulo de surpresa, era Koboa!
- Estamos na sua cabeça. Aqui não tem nada mesmo, né? Cabeça vazia.
- Co-como poderíamos estar dentro da minha cabeça?
- Simples! – ele sorriu. – Eu sou um anjo e você uma suicida, podemos fazer o que quisermos.
- Então eu morri mesmo!
O homem se levantou balançando a cabeça em negação.
- Não achei que você ficaria tão animada com a morte. Mas você ainda não pode morrer, Zahra. Deus ainda tem uma missão pra você que deve cumprir ainda viva.
- O que?
- Você não pode morrer, Zahra. Cumpra seu destino.
Koboa começou a ficar cada vez mais distante de mim, não é como se ele estivesse indo para longe... Mas como se – mesmo sem nos movermos – nós estivéssemos distantes demais um do outro. Sua voz fazia eco e a palavra destino continuava a ser dita até eu sentir uma mão em meu ombro. Ao me virar vi o rosto sorridente de Richard.
- Zahra.
Mesmo eu sabendo que aquilo poderia ser apenas um sonho ou miragem minha, eu fiquei feliz em vê-lo.
- Não desista ainda, vou dar um jeito de estar ao seu lado em breve. Seja forte e não desvie de seu caminho.
Não durou muito, em alguns segundos ele começou a ficar distante de mim, como Koboa e sua voz foi ficando cada vez menos audível. Sua voz passou a ser um mero sussurro.
- Zahra... Zahra...
E continuava me chamando... Sua mão estendida... Mas tão longe...
- Ricky... Ricky! Richard! – eu dizia seu nome desesperadamente e sentia o suor escorrer por minha testa. Um nós se formou em minha garganta e ao invés de chama-lo eu chorava na escuridão completamente só.
- Querida, acho que ela está acordando. Vou buscar água, fiquem com ela. – era a voz de meu pai que começara a ficar cada vez mais alta em meus ouvidos, era como despertar de um coma.
Meus olhos eram uma escuridão total. Eu sabia que estava acordada, mas não queria abrir meus olhos. As mãos de minha mãe estavam apertando fortemente as minhas. Ela passou uma delas em minha testa e xingou.
- Santo Cristo, a menina está queimando em febre. – ouvi um arrastar de cadeiras e minha mãe se afastou. – Mike fique com ela um segundo, por favor.
Mike? Aquele Mike que eu sempre quis saber quem era? Ele estava ali? Me mexi um pouco para sentir meu corpo e abri lentamente os meus olhos. Minha cabeça era uma bagunça total e doía muito. Me sentei com um certo esforço e encarei o homem sentado ao lado da porta.
- Oh, vejo que acordou. Tente não se mexer muito por que...
- Quem é você? – achei melhor ser direta no caso de não ter muitas oportunidades de perguntar. Ele apenas deu risada.
- Você é durona, não é? Acho que sei por que meu filho se apaixonou por você.
Eu congelei na mesma hora. Mas é claro, não tinha como negar que eram parecidos. Ruivo, rosto longo e fino, olhos intensos, voz firme. Era claramente Mike Fire.
- Sinto muito pela sua perda.
- Está tudo bem. Depois da morte da minha mulher eu não me impressiono mais com essas coisas. A dor foi forte, sabe? Mas nos ensinaram que não se pode sofrer pra sempre pelo mesmo motivo, temos que superar e seguir em frente.
- Como você pode? É seu filho.
- E você espera que eu faça como você? Me mate? Não acho que ele ficaria feliz em ver você fazendo isso.
- Você não sabe nada sobre mim! E nem deveria estar aqui! Aqui é área dos Contothis, sabia? Você devia ir embora.
- Eu como m****o líder do Conselho, acredito que eu possa ir onde eu bem entender, mocinha. Eu vim ajudar uns amigos, apenas isso. Não pense que tenho pena de você. Eu tenho nojo.
- Então você é do tipo que se faz de bom moço, mas na verdade é uma víbora.
- Ah, ah... Cuidado com sua língua, pode acabar sem ela. – ele se levantou e ainda acrescentou antes de sair: - Eu só vou viver em paz quando te ver morta ou bem contida dentro de uma masmorra. Você só trará desgraça a esse povo, bruxa. Deveria ter morrido quando tentou se m***r, por que não será fácil daqui pra frente.
Eu fiquei encolhida por um longo tempo até meus pais voltarem. Minha mãe trouxe uma bacia com água e um pano para por na minha testa, papai trouxe água e uns comprimidos.
- O que você tinha na cabeça? – me perguntou ele com uma ruga na testa.
- Nada. Só estava cansada de viver assim. Sozinha.
- Você sempre será sozinha, Zahra. – meu irmão estava segurando a maçaneta da porta e parecia intrigado com alguma coisa. – Mas nunca mais faça isso de novo. Nós ficamos realmente com medo de te perder, sua i****a.
- Kobe...
- Vê se melhora logo!
Meu irmão saiu do meu quarto batendo a porta e foi para o seu. Meu pai sorriu e me deu uns tapinhas no ombro.
- Seu irmão só agora com quinze anos foi saber que você existia, quem diria! – e riu novamente. – Descanse um pouco mais, querida. Eu e sua mãe vamos estar aqui com você.
- O-bri-ga-da...
Não me lembro de mais nada depois disso, pois entrei em um sono profundo, como se não dormisse há milhares de anos.
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