Angelina Clark
Acordo cedo, mesmo sendo sábado. Os problemas que me cercam finalmente estão começando a tirar o meu sono. Suspiro profundamente, me forçando a sair da cama. Abro a janela e dou uma olhada no dia de sol lá fora, tentando, pelo menos, apreciar a paisagem. Mas, ao olhar para o prédio em frente, lá está o Iron, me observando. Um lembrete silencioso de que eu devo um cara barra pesada. Ele nunca rondou minha casa antes, e isso está me deixando inquieta.
Fecho a janela rapidamente e me dou conta de que preciso seguir com o meu dia, então vou para o banheiro fazer minha higiene matinal. O café forte me espera depois, algo para dar conta da energia que vou precisar para encarar mais um dia. Enquanto tomo meu café e como algumas torradas, me distraio com as redes sociais. Claro, a internet está fraca, sem Wi-Fi, mas a 3G ainda ajuda o suficiente para enviar currículos por e-mail, e também para tentar me distrair um pouco.
Logo nos primeiros stories que vejo, uma foto do Felipe aparece. Ele está em um carro que não parece ser o dele, sorrindo com um boné na cabeça. Não posso negar que ele é bonito—um daqueles tipos que, se tivesse filhos, com certeza seriam lindos. Tento não reagir à foto, mas não consigo evitar um pequeno sorriso. Então, me forço a continuar assistindo os stories dos outros, a maioria são de pessoas famosas. Não tenho muitos amigos por aqui, então me contento com o que aparece.
Acabo meu café, me levanto e começo a dar um jeito na cozinha. O apartamento é pequeno, e apesar de ser mobiliado, parece que nada aqui realmente me pertence. Mas, enquanto arrumo a cozinha, meu cérebro já começa a traçar as próximas tarefas. Preciso deixar tudo organizado, porque ainda tenho que trabalhar mais tarde na boate.
Coloco uma música no rádio, algo animado, para me dar um ânimo enquanto faço a faxina. Não é que eu goste muito de limpar, mas é uma maneira de ocupar a mente e tentar esquecer um pouco do que me espera.
A noite no bar estava agitada. Como sempre acontece aos sábados, depois das 23:00, o lugar se transformava em uma espécie de boate. As mesas foram empurradas para o canto para abrir espaço para a pista de dança, e o DJ já estava lá, comandando a noite com seus sets de música eletrônica que agitam a galera. O som pesado vibrava no ar, preenchendo cada canto, e a energia das pessoas parecia um convite para se perder na diversão.
Me jogo no banquinho atrás do balcão, um suspiro pesado escapando dos meus lábios. O cansaço tomou conta de mim mais cedo do que eu esperava. O ambiente estava animado, mas meu corpo pedia descanso. O relógio marcava já quase meia-noite, e o Felipe ainda não tinha chegado. Fiquei um pouco preocupada. Será que algo aconteceu? Ele sempre aparece quando diz que vai, mesmo que só para tomar uma bebida e bater um papo.
Decido mandar uma mensagem para ele, uma desculpa qualquer para puxar conversa.
“Oi Fe, você não vem essa noite?”
O telefone vibra logo em seguida. É ele.
“Oi Angel, hoje não. Meu irmão chegou na cidade hoje, estou na fazenda, na casa dos meus avós.”
Sorrio um pouco, tentando esconder a frustração que começa a crescer em meu peito. Claro, a família é sempre prioridade. Não posso esperar que ele venha só para me fazer companhia, certo? Não é como se fosse minha responsabilidade mantê-lo entretido.
“Certo, aproveita aí com eles, bom fim de semana.”
Fecho o celular e respiro fundo, tentando não deixar que a sensação de decepção me consuma. Era só um sábado qualquer, mas, ao mesmo tempo, algo em mim queria que ele estivesse aqui. Eu sei que estamos apenas nos tornando amigos, mas, por algum motivo, me pego esperando demais, como se a presença dele fosse uma fuga para os meus próprios problemas. Não era justo com ele.
Carla me encara com um olhar curioso enquanto limpa um copo com um pano já meio gasto.
— Tá tudo bem? Você parece chateada — ela comenta, inclinando um pouco a cabeça.
Forço um sorriso fraco, tentando disfarçar.
— Tá sim, só tô um pouco cansada.
Ela arqueia uma sobrancelha, claramente não acreditando muito na minha resposta, e então sorri de canto.
— Sei… Ou será que é porque seu boy não veio hoje? — Ela cutuca, divertida. — Mas fica tranquila, posso te fazer companhia hoje.
Reviro os olhos, mas acabo rindo um pouco.
— Ele não é meu boy, é só um amigo.
— Sei… Um amigo que vem todo dia, fica até tarde conversando contigo e ainda te dá carona pra casa. Isso grita “amizade”, com certeza.
— Carla! — Dou um empurrãozinho de leve nela, rindo. — Mas aceito sua companhia, eu tava precisando mesmo me distrair.
— Ótimo! E já tava na hora da gente conversar de verdade, né? A gente trabalha juntas e nunca trocou mais do que um “boa noite”.
Confirmo com a cabeça, mas antes que possa responder, vejo um grupo de rapazes se aproximando do balcão. Me levanto para atendê-los, servindo as bebidas com rapidez. Quando termino, volto a me sentar ao lado dela.
— Eu ando com a cabeça tão cheia que venho meio no automático pra cá. A única distração que eu tenho ultimamente é o Felipe. Espero que a gente se dê bem também, quem sabe assim eu não fico só focando nele o tempo todo.
— Ahhh, então o nome do “amigo que não é boy” é Felipe! — Ela solta uma risadinha. — Mas tudo bem, eu prometo te distrair essa noite.
— Você é terrível! — Dou de ombros, mudando de assunto. — Mas e você, o que faz da vida além de trabalhar aqui?
— Faço faculdade de Design. Saio da aula e venho direto pra cá. E você?
— No momento, só trabalho aqui. Eu tinha outro emprego, mas o lugar faliu e me ferrei bonito.
— Poxa, achei que você também fazia faculdade. Você me parece tão nova…
— Tenho 19. Mas as coisas nunca foram fáceis pra mim, então faculdade ficou em segundo plano.
— 19? Caramba, pensei que tivesse uns 21 pelo menos! Eu tenho 23. Trabalho aqui pra ganhar uma graninha e, no resto do dia, durmo ou faço os trabalhos da faculdade.
Antes que eu possa responder, ela se levanta para atender um grupo que acaba de chegar. Aproveito para limpar o balcão e servir algumas meninas animadas que já estão no clima da festa. O DJ muda a batida para algo mais dançante, e o bar lotado se agita ainda mais.
Quando Carla volta, ela joga um pano de lado e me encara com um sorriso travesso.
— Tava afim de dançar hoje. Tem tanto tempo que não danço! O que acha da gente sair depois que acabar o seu expediente? Hoje eu fico até fechar.
— Sério? — Arqueio as sobrancelhas, um pouco surpresa.
Aqui no bar somos quatro funcionários. Eu e mais um rapaz saímos às 2:00, enquanto Carla e outro colega ficam até às 4:00 nos fins de semana. Durante a semana, todo mundo sai às 2:00.
— Por mim tudo bem. Acho que preciso mesmo aproveitar um pouco.
— Boa escolha! E como eu tô muito boazinha hoje, a gente vai comer e beber por conta da casa.
Arregalo os olhos.
— Tá doida? Quer ser demitida?
Ela gargalha, jogando os cabelos para trás.
— Relaxa, Angelina. Meus pais são os donos daqui.
Paro por um segundo, piscando surpresa. Eu não fazia ideia de que ela era filha dos donos.
— Uau, você nunca falou isso antes.
— Pois é, eu prefiro que as pessoas não saibam. Assim ninguém acha que eu tô aqui só de enfeite.
— Faz sentido.
— E além disso… — Ela sorri de lado. — Depois eu ainda te dou uma carona pra casa.
Cruzo os braços, pensativa. A ideia de sair um pouco, me divertir, parecia algo tão distante da minha realidade. Quando foi a última vez que me permiti isso? Talvez quando criança, correndo pela rua e brincando com as outras crianças da vizinhança. Desde que minha mãe se foi, desde que meu pai se perdeu… eu só vivi para sobreviver.
Talvez hoje fosse a noite certa para mudar isso.
— Fechado, então. Vamos dançar.
Carla sorri satisfeita, e pela primeira vez em muito tempo, sinto que posso esquecer um pouco dos meus problemas.
A noite com Carla estava sendo surpreendentemente boa. Entre atender clientes, jogar conversa fora e comentar sobre as pessoas ao redor, fui percebendo que ela era do tipo que fazia qualquer ambiente parecer mais leve. Divertida, espontânea e com um humor afiado, era impossível não gostar dela.
Quando finalmente deu o horário em que eu normalmente iria para casa, senti meu celular vibrar no bolso. Peguei o aparelho e vi uma mensagem do Felipe na tela.
“Quando pegar o Uber, me manda a placa, a localização e me liga pra irmos conversando.”
Sorri sozinha. Mesmo longe, ele sempre fazia questão de cuidar de mim. E esse era exatamente o problema. Ele era atencioso demais, presente demais. Me fazia sentir protegida de um jeito que eu não devia me acostumar. Porque, no fundo, eu sabia que não podia—e nem devia—me apaixonar por ele. Mas como resistir, quando ele dificultava tanto a minha missão?
“Obrigada por se preocupar, mas fiz uma amiga e vamos dançar um pouco. Ela vai me deixar em casa depois.”
Mandei a mensagem e, em segundos, a resposta chegou:
“Que bom, mas cuidado com a bebida e com estranhos. Quando chegar em casa, me avisa. Divirta-se!”
Revirei os olhos, mas um sorriso bobo já tomava conta do meu rosto. Antes que eu pudesse responder, Carla apareceu ao meu lado segurando dois copinhos de shot. O líquido transparente denunciava o que eu já imaginava: vodka.
— Um shot pra esquentar e depois vamos balançar esse esqueleto! — anunciou, me entregando um dos copos com um sorriso travesso.
— Você não está me dando opção, né? — arqueei a sobrancelha, pegando o copo.
— Exatamente — ela piscou.
Levei o copinho aos lábios e virei de uma vez, sentindo o líquido descer queimando pela garganta. Fiz uma careta imediata, o que fez Carla rir alto.
— Espero que você não me faça passar vergonha hoje — brinquei, piscando os olhos para afastar a ardência. — Acho que nem sei dançar mais.
Ela bateu de leve no meu ombro, fingindo indignação.
— Ah, minha querida, hoje a pista é nossa. E se for pra passar vergonha, que seja com estilo!
Pegou minha mão e me puxou para o centro da pista, onde as luzes piscavam em sincronia com o grave da música. A energia do lugar era contagiante, e por um instante, decidi simplesmente aproveitar. Afinal, algumas noites não precisam de regras, apenas de bons momentos.
— Não se preocupe, a essa hora todo mundo já está bêbado demais pra julgar a dança de alguém. Só aproveita! — Carla piscou, segurando minha mão.
Eu ri e concordei com a cabeça. Antes que eu pudesse mudar de ideia, ela já me puxava pela mão para fora do balcão, nos guiando direto para a pista de dança.
O que percebi sobre Carla naquela noite é que ela simplesmente não se importa. Não está nem aí se seu vestido florido preto destoa do brilho e das roupas justas ao redor. Não liga se sua dança é exagerada ou se algumas pessoas lançam olhares curiosos. Ela apenas se diverte, sem medo de parecer ridícula ou fora do padrão.
E ao vê-la girar, rir e se jogar na música sem a menor preocupação, percebo que preciso fazer o mesmo.
Respirei fundo e, pela primeira vez em muito tempo, decidi deixar a preocupação de lado. Fechei os olhos por um segundo, sentindo a batida pulsar no meu peito, e quando abri de novo, Carla sorria para mim como se dissesse: Viu? Não é tão difícil.
Eram quatro da manhã, e eu esperava Carla fechar tudo para finalmente irmos embora. Meu corpo estava exausto, mas minha mente ainda vibrava com a energia da noite. Foi, sem dúvida, uma das mais divertidas da minha vida. Dançamos com completos desconhecidos—pessoas que provavelmente nunca mais veremos—bebemos (com moderação, claro) e devoramos batata frita com queijo como se fosse a melhor refeição do mundo.
Agora, no silêncio reconfortante do carro, Carla dirigia enquanto eu apenas observava a cidade adormecida passar pela janela.
— Foi muito bom te conhecer, Angelina — ela disse, sem tirar os olhos da estrada. — Espero que possamos nos divertir mais vezes.
Sorri, sentindo um calor genuíno no peito.
— Digo o mesmo. Obrigada por hoje. Foi incrível.
Assim que paramos, me despedi, entrei em casa e fui tirando as roupas pelo caminho. Peguei o celular e mandei uma mensagem rápida para Felipe antes de me deixar afundar no colchão. O sono me envolveu quase instantaneamente.