Capítulo 4

1597 Words
Angelina Clark A semana passou voando, m*l percebi os dias passarem. Ainda não recebi notícias das entrevistas que fiz há alguns dias, mas consegui agendar mais duas e estou tentando manter a esperança. Enquanto isso, o síndico — que também é o dono do apartamento onde moro — me lembra diariamente que meu prazo está acabando, o que só aumenta minha ansiedade. Por outro lado, Felipe tem sido uma presença constante. Ele aparece todos os dias e, aos poucos, nos tornamos amigos. Compartilhamos muitas coisas um com o outro, e, no final da noite, ele sempre insiste em me dar uma carona para casa. Além disso, tem sido incrivelmente gentil ao tentar encontrar meu pai, mesmo sem nenhum sucesso até agora. Passo um pano no balcão do bar para limpar um pouco de vodka que derramei, depois me sento no banquinho para respirar por um instante. Como sempre, às 22h30 em ponto, Felipe chega e ocupa seu lugar habitual. — Boa noite, Fe. Vai querer algo hoje? — pergunto, sorrindo. — Boa noite, Angel. Hoje não, mas queria conversar sobre algo com você. — Ah, claro! Pode falar, a noite está bem tranquila. Ele parece pensativo antes de continuar: — Na verdade, queria te fazer algumas perguntas. Você se importa? Franzo a testa, curiosa, mas balanço a cabeça em negação. — Quantos anos você tem? — Dezenove. Acho que nunca perguntei a sua idade também… — tento me lembrar. — Tenho trinta — ele sorri. — Agora, me diz, você tem alguma doença crônica? Algum vício? Faz uso de medicamento controlado? Fico confusa, tentando entender aonde essa conversa vai dar, mas respondo com sinceridade: — Para todas as perguntas, a resposta é não. Sou bem saudável, na verdade. Ele assente, parecendo absorver a informação. — Qual é o seu tipo sanguíneo? Tem namorado? Algum parceiro? — O negativo. E não, sem namorados, peguetes ou qualquer coisa do tipo — digo, rindo. — Depois dessa entrevista, espero ser contratada, hein? — brinco antes de me afastar para atender alguns clientes. Quando volto, encontro Felipe ainda ali, me observando atentamente. — Sabe aquela ideia que você me deu sobre barriga de aluguel? — ele pergunta, e eu confirmo com um aceno. — Sim, claro. — Pesquisei bastante essa semana, visitei algumas clínicas e percebi que essa pode ser uma opção viável para mim. Minha expressão se ilumina. — Nossa, Fe, isso é incrível! Fico feliz que tenha encontrado um caminho. Mas… o que essa sua pequena entrevista tem a ver com isso? Ele sorri de canto, como se estivesse prestes a me contar algo que pode mudar tudo. Felipe respira fundo, como se estivesse reunindo coragem para falar. — Eu quero que você seja minha barriga de aluguel. Fico completamente sem reação. — Eu? Por quê? — Porque eu não confio em ninguém. Não quero pagar uma desconhecida para gerar meu filho. — Ele me encara com seriedade, mas arqueio a sobrancelha. Afinal, sou praticamente uma desconhecida para ele. — Eu confio parcialmente em você. Você é uma menina bacana, não é interesseira… e é linda. Cruzo os braços, tentando processar aquilo. — Felipe, isso é loucura. Nos conhecemos há uma semana! E, acredite, eu não vou t*****r com você. — Não precisa. Eu jamais pediria isso. Podemos fazer uma inseminação, eu já pesquisei sobre o processo. Só precisamos fazer alguns exames e seguir os passos certos. Olho para ele, incrédula. — Olha minha situação. Eu nem emprego consigo, imagina grávida. Eu não tenho condição de manter essa criança dentro de mim. — Suspiro pesadamente. — Tem dias que eu m*l consigo comer o suficiente, imagina ter que me alimentar por dois. Ele se inclina um pouco, sua expressão se suavizando. — Eu quitaria suas dívidas. Pagaria todas as despesas médicas, o procedimento, o parto. Além disso, te daria suporte financeiro nesses nove meses. Você não precisaria se preocupar com nada disso. Minha cabeça está girando. Me afasto para atender um grupo de clientes, tentando ganhar tempo para pensar. Quando volto, ainda estou atordoada. — Felipe, eu não sou esse tipo de mulher. Não quero nada do que é seu. Além disso, eu me sentiria como se estivesse vendendo uma criança, e isso não é certo. — Respiro fundo, sentindo um nó no peito. — Eu nem sei se tenho estrutura emocional para gerar um filho. Simplesmente… não estou pronta para isso. Ele sorri, mas seus olhos denunciam a decepção. Ainda assim, segura minha mão com gentileza. — Tudo bem. Acho que estou pedindo demais, né? Mas esquece isso, eu vou dar um jeito. — Me desculpa, eu só… não posso. Entende? Ele assente. — Eu entendo. Tá tudo bem. O silêncio paira entre nós por alguns instantes, até que ele muda de assunto. — Mas e você? Alguma resposta das entrevistas? Balanço a cabeça, frustrada. — Infelizmente, não. É difícil arrumar um emprego sem graduação e sem experiência suficiente. Ainda mais sendo tão nova. — Eu sei. O mercado tá complicado. Perguntei para alguns conhecidos, mas ninguém estava contratando para secretária ou copeira. Sorrio de leve. — Obrigada por tentar. Mas meus dias estão contados. O que eu ganho aqui não cobre a dívida absurda que meu pai deixou, muito menos os aluguéis e as contas. Suspiro e volto a atender um cliente. Quando retorno, Felipe me observa atentamente. — E o que você vai fazer? Dou um sorriso sem humor, me encostando no balcão. — Esperar um milagre. Já entreguei pra Deus. Se não conseguir nada, viro uma fugitiva sem teto. Mas uma coisa eu te garanto… eu não vou pra um prostíbulo nem arrastada. — Como assim? Felipe me encara, claramente confuso e preocupado. Respiro fundo, percebendo que talvez nunca tenha contado a ele toda a verdade sobre essa dívida. — Meu pai sumiu porque devia muito dinheiro a um agiota. Isso você já sabe. — Faço uma pausa, sentindo um aperto no peito. — Mas o que você não sabe é que a dívida passou para mim. E se eu não pagar, esse cara vai me levar para o prostíbulo dele para “trabalhar” e quitar o valor. Uma única lágrima escapa antes que eu possa segurá-la. Rapidamente a seco com a manga da blusa. Felipe fica tenso na mesma hora. Sua expressão muda completamente, o olhar antes tranquilo agora carregado de raiva contida. — Quem é esse cara? — Eu não sei o nome dele. Nem o rosto. Sempre tratei tudo com um intermediário. Na verdade, acho que nem meu pai sabe quem ele realmente é. Esses caras nunca aparecem, sempre agem nas sombras. Felipe se recosta no banco, respirando fundo como se estivesse tentando conter a frustração. — Angel, me deixa te ajudar. Pelo menos com os aluguéis atrasados, até você conseguir um emprego. Balanço a cabeça, tentando sorrir, mas minha voz sai mais baixa do que eu gostaria. — Não precisa, Fe. Obrigada, de verdade, mas eu não me sentiria bem com isso. Além do mais, já devo dinheiro demais… não posso dever mais ninguém. Ele segura meu olhar, insistente. — Você não ia me dever nada. Quero te ajudar como um amigo. Isso é muita coisa para você enfrentar sozinha. E você é muito nova. — Não se preocupa comigo. Eu sempre dou um jeito. Vou conseguir sair dessa. — Tento passar confiança, mas sei que não estou convencendo nem a mim mesma. Felipe solta um suspiro pesado. Ele não parece satisfeito, mas respeita minha decisão. Mudamos de assunto, tentando aliviar o clima pesado da conversa. Ainda assim, sinto que Fe ficou incomodado. Como se essa história estivesse martelando na cabeça dele. … — Hora de ir, vamos? — pergunto, pegando minha bolsa. — Vamos. — Felipe sorri de lado, mas seu olhar ainda carrega um resquício de tristeza. Como de costume, ele passa no caixa para pagar a comanda, mesmo que hoje só tenha bebido um suco. Depois seguimos para o carro. No caminho, observo Felipe enquanto ele dirige. Ele é bonito, gentil e educado. Em outra situação, talvez eu me permitisse gostar dele. E, com certeza, não faria o que a ex-noiva dele fez. Mesmo conhecendo Felipe há apenas uma semana, já sei que ele é um homem incrível. Só alguém muito tola o deixaria escapar. Mas o que mais me chama atenção agora é o brilho melancólico nos olhos dele. Passar essa semana ao seu lado me fez perceber o quanto ele deseja ser pai. E, honestamente, consigo imaginá-lo sendo um pai maravilhoso. Me perco nos pensamentos e, quando dou por mim, já estamos em frente à minha casa. — Você poderia me passar seu número? — ele pede. Confirmo com um aceno, pego o celular que ele me estende e digito meu contato. Antes de sair, mordo o lábio e abaixo um pouco o olhar. — Desculpa se te decepcionei… é só que… é muita responsabilidade. Ele balança a cabeça, oferecendo um sorriso fraco. — Você não me decepcionou, Angel. Foi uma ideia maluca, só isso. — Ele solta um suspiro e dá de ombros. — Se tiver que acontecer, vai acontecer. Sorrio levemente antes de me inclinar e deixar um beijo suave em sua bochecha. — Boa noite, Fe. — Boa noite, Angel. Saio do carro e sigo minha rotina de sempre: banho, algo rápido para comer e, por fim, minha cama. Assim que me deito, o celular vibra. Felipe: “Obrigado por nossas conversas. Você é uma ótima amiga.” Sorrio antes de responder. Eu: “Você é incrível, Fe.” Depois de enviar a mensagem, fecho os olhos e me entrego ao sono.
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