Episódio 5

780 Words
Camila acordou com os lençóis desalinhados e o braço de Elliot sobre sua cintura. O sol da manhã entrava pelas janelas largas do quarto, banhando a pele nua dela com uma luz suave. Por um instante, ela se permitiu apenas ficar ali, sentindo o calor do corpo dele, o peso daquela presença masculina que, de alguma forma, passava segurança — mesmo quando tudo ao redor gritava perigo. Mas o feitiço foi quebrado por um som do andar de baixo: vozes. Risadas femininas. Camila franziu o cenho e se sentou, puxando o lençol para cobrir os s***s. Elliot ainda dormia, ou fingia dormir. Ela vestiu uma camiseta dele e saiu do quarto pé ante pé, descendo as escadas devagar. Na sala, encontrou Ivy no colo de uma mulher. Alta. Elegante. Loira platinada. Salto fino às dez da manhã e perfume doce demais para uma visita casual. A mulher olhou para Camila como quem acabara de flagrar uma intrusa. — Você deve ser... a babá. — O tom era levemente debochado. Camila assentiu, sem saber o que estava acontecendo. — E você é...? — Chelsea Lancaster. — Ela sorriu com os lábios, mas não com os olhos. — Irmã do Elliot. Camila engoliu seco. — Ah... Claro. Eu não sabia que viria hoje. Chelsea se levantou, ainda com Ivy no colo, e caminhou até ela. — Nem eu. Mas achei que era hora de ver minha sobrinha. E entender quem está vivendo com o meu irmão. Camila entendeu o subtexto. Você está aqui por quê? Até quando? — Eu trabalho aqui, Chelsea. Cuido da Ivy. — Trabalha? Hm. — Ela deu um sorrisinho. — Elliot costuma misturar negócios com... entretenimento? Não sabia. Antes que Camila pudesse responder, Elliot desceu as escadas, já de jeans e camisa casual. Ao ver a irmã, franziu o cenho. — Chelsea. Não me avisou que vinha. — E se avisasse, você fugiria? — ela rebateu, deixando Ivy no sofá. — Vim ver como você anda lidando com a dor da viuvez. E, ao que parece, está se saindo muito bem. Camila sentiu-se invisível. Uma intrusa. Uma peça fora do tabuleiro. Mas Elliot a surpreendeu. — Camila está na minha vida. E não tenho nada pra esconder de você. Nem de ninguém. Chelsea cruzou os braços. — Isso vai durar quanto tempo, mano? Uma semana? Um mês? Até ela se apaixonar e você ficar entediado? O silêncio caiu pesado. Camila quis desaparecer. Mas Elliot respondeu com firmeza: — Não sei. Mas se durar um dia ou durar anos, vai ser com respeito. E você não tem o direito de tratá-la assim. Chelsea riu, amarga. — Você não mudou nada, Elliot. Só trocou uma esposa morta por uma substituta mais jovem. Aquilo doeu. Como uma bofetada no meio do peito. Camila não chorou. Não respondeu. Apenas subiu as escadas, deixando os dois sozinhos. Ela sabia que não poderia competir com fantasmas. Ainda mais quando eles tinham sobrenome Lancaster. Camila trancou a porta do quarto e encostou-se à madeira, o coração acelerado. As palavras de Chelsea ecoavam em sua mente. "Substituta mais jovem." "Vai durar quanto tempo?" "Você é só a babá." Por mais que Elliot dissesse que ela era mais, por mais que seus toques e olhares fossem intensos, ainda havia um mundo inteiro entre eles. Um mundo onde ela era passageira. E temporária. Horas depois, já à noite, Elliot bateu à porta. — Posso entrar? Ela não respondeu. Mas ele entrou mesmo assim. — Ela foi longe demais. Me desculpa. Camila estava sentada na beira da cama, já de pijama, com o cabelo preso em um coque bagunçado. — Ela disse o que todo mundo pensa, Elliot. Só teve coragem de dizer na minha cara. — Não. Ela disse o que o orgulho dela pensa. Porque está acostumada a ver todo mundo te julgando pelo que veste ou de onde veio. Mas você não é igual a elas. Você é melhor. — Então por que ainda me sinto como um erro? Elliot se aproximou e ajoelhou-se à frente dela. — Porque você tem medo. Medo de ser amada. Medo de que alguém fique, de verdade. Porque ninguém ficou antes. Ela o olhou, os olhos cheios d’água. — E você vai ficar? Ele segurou o rosto dela com as duas mãos. — Promete que vai confiar em mim? — E você... promete que vai ficar comigo também? A pergunta saiu como um sussurro. Uma oração. Elliot a beijou como resposta. Devagar. Profundo. Diferente de todas as outras vezes. Ali, naquele beijo, havia mais do que desejo. Havia entrega. Havia promessa. Camila soube, naquele instante, que mesmo que o mundo inteiro desmoronasse, ela estava prestes a se apaixonar. Sem volta.
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