Hideo se levanta do seu lugar com o coração pesado. Ele era culpado por cada sentimento r**m que Sayuri tinha em relação a ele e não fugiria daquilo, mas queria mudar, queria reparar a dor que tinha causado a ela ao longo dos anos em que ela havia sofrido com a sua ausência.
Hideo vai até ela e se senta ao seu lado. Sem dar escolhas a Sayuri, ele a puxa para o seu colo e a abraça apertado contra o peito.
— Eu estou errado, você está certa, querida, sempre esteve — diz ele com a voz suave, enquanto acariciava as suas costas.
Ele suspira. Queria poder voltar no tempo e mudar o que tinha feito, mas não podia, então lidar com as consequências dos seus atos era o mínimo que deveria fazer.
— Eu fui um i****a, babaca, burro. Chame do que você quiser — diz ele com um sorriso triste nos lábios. — Mas eu sempre pensei que você merecia alguém melhor do que eu, Sayuri, alguém que a tratasse com o mesmo carinho e amor que você dedicava. Alguém oposto a tudo o que eu represento.
Aquelas palavras foram ditas com tristeza. Sayuri se afasta um pouco, procurando os olhos de Hideo, e ali estava aquele olhar que fazia todas as suas barreiras ruírem de uma única vez.
— Eu não entendo, Hideo. Por que fugiu de mim? — diz ela com a voz baixa. Mil coisas passavam por sua mente, e ela sabia que aquela inquietação só desapareceria no momento em que ele esclarecesse as coisas.
— Já ouviu as histórias sobre o meu pai, Sayuri? — pergunta ele.
— Algumas — diz ela, dando de ombros.
— Me diga quais — pede ele ainda com a voz tranquila, como se aquele assunto fosse algo trivial em sua vida, mas a forma como a veia na sua testa saltava dizia o contrário.
— Soube que ele trai a sua mãe e que mantém uma amante no centro — diz ela, desviando os olhos dos dele. Sayuri se sentia uma intrusa na história da família de Hideo.
Um sorriso triste curva os lábios de Hideo. Se fosse apenas o que Sayuri dizia, os seus problemas seriam poucos, pois ele sabia que jamais agiria como o pai fazia.
— Tem mais coisas. Ele não mantém apenas a amante do centro. Ele faz vista grossa para o tráfico humano, Sayuri. E isso é um dos motivos pelos quais sempre brigamos — os olhos de Sayuri se arregalam com aquelas palavras. Ela conhecia pouco o pai de Hideo, então não sabia muito sobre os seus negócios. — Ele sempre foi um canalha. A minha mãe vivia sendo humilhada por suas amantes, e ele nunca fez nada. E quando eu a defendia, bem... digamos apenas que eu era castigado.
Sayuri desce do colo de Hideo com um pulo. Era como se sua mente se recusasse a assimilar o que ele estava falando, e, pela forma como ele agia, ela sabia que havia mais naquela história.
— O que ele fez com você? — diz ela, olhando séria para ele. — Me diga, Hideo!
— O que isso vai mudar, Sayuri? Nada. E eu não quero a sua pena — diz ele.
— Se não me disser, vou até a tia Mei perguntar. Você escolhe — diz ela com o maxilar trincado de raiva pela teimosia dele.
Hideo apenas se levanta em silêncio, para na frente de Sayuri e puxa a sua camisa, tirando-a e jogando-a no sofá. Ela olhava intrigada para ele, sem compreender ainda o que ele queria dizer, mas, quando Hideo vira as costas, Sayuri arfa de forma audível. Cortes. Eram cortes e mais cortes em vários lugares nas costas dele. As cicatrizes eram tão feias que a tatuagem que ele possuía cobria pouco de suas lesões.
Com mãos trêmulas, Sayuri se levanta e caminha até ele. Quando os seus dedos tocam as costas de Hideo, ela sente ele se encolher ao seu toque, mas não podia controlar aquele sentimento que crescia dentro dela. Era mais forte que a sua racionalidade. Os dedos de Sayuri traçam as várias linhas que cruzavam as costas dele. Ela podia ver cicatrizes velhas e algumas que aparentavam ter pouco tempo, ainda exibindo um tom mais rosado em volta delas.
— Como ele pode fazer isso... — diz ela em um fio de voz, os seus olhos presos nas costas dele.
— A pergunta é: o que Haruki não faria para manter a sua imagem — diz ele, virando-se para ela. — Não faça essa cara. Posso suportar esse olhar de qualquer pessoa, menos de você.
Hideo se vira e pega a camisa no sofá, vestindo-a de novo.
— Mas ainda não me disse por que fugiu de mim — diz ela, mudando a sua expressão. Hideo não precisava de sua pena, e sim de seu apoio.
— Eu tenho o mesmo sangue que ele, Sayuri. Não quero me tornar como ele e acabar com tudo de bom que eu tiver. Eu não quero que os meus filhos passem por isso — diz ele, passando a mão pelos cabelos de forma desesperada.
— Então não seja como ele, Hideo — diz ela, se aproximando dele e colocando a mão em seu rosto com carinho. — Seja o marido que eu preciso, o pai que os nossos filhos vão amar e um líder poderoso. Tudo isso são escolhas suas. Não tem nada a ver com o sangue que corre nas suas veias.
Diante daquelas palavras, Sayuri finalmente compreendeu por que Hideo a tinha recusado todo aquele tempo: ele tinha medo. Medo de se envolver e terminar como o pai, medo de que tudo fosse apenas mais uma forma de o prender a algo. Era apenas medo.
— Sayuri — diz ele com a voz entrecortada, uma lágrima solitária descendo por sua bochecha, a qual Sayuri limpa com um beijo.
— Seja o que eu preciso, Hideo. O que a organização precisa. Mude as coisas — diz ela em um sussurro.
Hideo a pega em seus braços e se senta no sofá com ela em seu colo.
— Sabe o que está me pedindo? — pergunta ele.
— Sei. Estou exigindo algo que sempre foi meu — diz ela de forma firme. Hideo abre um sorriso de canto com suas palavras. Sayuri era diferente de tudo o que ele esperava.
— Então pegue, Sayuri. Sou todo seu — diz por fim, cedendo. E aquelas palavras nunca tinham parecido tão doces em sua boca quanto naquele momento.