Savannah
— O que posso fazer por você, Emily? — pergunto enquanto ela se acomoda na cadeira à minha frente.
Emily, do marketing, é a primeira na clínica de RH hoje — também conhecida como meu escritório. Toda quarta-feira de manhã, temos o “centro de atendimento” para qualquer um que precise desabafar sobre seus problemas relacionados ao trabalho.
Eu lido com as feridas emocionais do mundo financeiro. Desde os estagiários estressados e inseguros até os executivos de finanças que acham que estão em um remake de O Lobo de Wall Street — versão Londres.
A equipe de RH está sobrecarregada, então assumi a responsabilidade de administrar a clínica sozinha. Provavelmente não é a abordagem ideal, especialmente porque passei o dia de ontem reorganizando a maldita reunião de toda a equipe a pedido do Campbell. Estamos desesperados para recrutar mais pessoal para o RH, mas parece que profissionais qualificados estão em falta ultimamente.
E o fato é que eu gosto de ajudar as pessoas. É por isso que escolhi essa área. Se não fosse por toda a bagunça que acontece diariamente, eu até esperaria ansiosamente por essas conversas semanais.
Emily limpa a garganta nervosamente, mexendo-se no assento.
— Preciso revelar um relacionamento.
— Certo — respondo, dando a ela toda a minha atenção.
— Normalmente, ambas as partes vêm para fazer isso juntas, mas tudo bem. Seu parceiro pode me procurar mais tarde. Vocês dois precisarão assinar os formulários de conflito de interesses. Quem é seu parceiro?
— Bem... ele está acima de mim. — Ela faz uma pausa, respirando fundo. — Daniel Hart.
Eu pisco, tentando processar. Por favor, me diga que ouvi errado.
— Daniel Hart?
Ela assente.
— Isso mesmo.
— Ele sabe que você está revelando o relacionamento?
— Não exatamente. Ele está levando as coisas de forma... casual. Mas, como sou uma funcionária júnior, achei melhor documentar tudo, só para garantir. — Ela sorri nervosamente, apertando as mãos no colo. — Estava tão preocupada com isso que nem consegui dormir. Então decidi vir até você hoje.
Franzo a testa.
— Se não se importa que eu pergunte, há quanto tempo isso está acontecendo?
Seu rosto cora.
— Seis meses.
— Entendi. — Inclino-me ligeiramente para frente, tentando transmitir compreensão. — Agradeço por vir até mim, Emily. Mas temo que haja um pequeno problema.
— Problema? — Seus olhos se arregalam. — Achei que fosse permitido, desde que revelássemos. Sei que demorei um pouco...
— Não é isso — interrompo, mantendo um tom gentil. — Odeio ser a portadora de más notícias, mas parece que Daniel já registrou um relacionamento aqui na empresa.
Por que é tão difícil para as pessoas manterem a vida pessoal fora do trabalho? Será que é pedir demais? Sempre achei mais sensato focar na carreira primeiro.
O rosto dela fica inexpressivo.
— Com outra pessoa — acrescento, já que parece que ela precisa de um empurrãozinho para entender a situação. — Então, a menos que vocês estejam em um relacionamento poliamoroso, o que presumo que não seja o caso...
— Não! — Ela suspira profundamente. — Tem certeza? Deve haver algum engano. Daniel nunca faria isso...
— Tenho certeza — digo, lutando para manter meu tom neutro, embora sinta pena dela. — A menos que haja outro Daniel Hart por aqui que eu desconheça.
O rosto dela enruga-se em uma expressão de descrença.
— Eu não acredito nisso... Quem? Com quem ele está?
— Sinto muito, mas isso eu não posso revelar.
Um soluço ensurdecedor escapa da sua boca, tão forte que me faz instintivamente recuar. Levanto da minha mesa e pego uma caixa de lenços, entregando-a às suas mãos trêmulas.
— Não acredito. Achei que tínhamos algo especial — lamenta, entre lágrimas.
Reprimo um suspiro. Se eu ganhasse uma libra para cada vez que ouvisse isso, já teria comprado essa empresa e demitido todo mundo. Começando pelo Daniel.
— Emily — começo calmamente. — Pense no que você quer fazer com essa informação. Lembre-se de quão importante este trabalho é para você. Está aqui há apenas dois anos, mas tem um futuro brilhante pela frente, desde que aja com cautela.
Ela assente lentamente, assoando o nariz no lenço.
— Aquele babaca mentiroso e trapaceiro!
— É melhor não xingar um colega de trabalho na minha frente — aviso, tentando manter a compostura. Embora, nesse caso, concorde completamente com ela.
— Desculpe — gagueja. — Eu só... não sei o que fazer. O que devo fazer, Savannah?
Ela olha para mim com olhos de gato de botas lacrimejantes, como se eu fosse uma especialista em relacionamentos.
Suspiro.
— Como RH, não posso dar conselhos sobre relacionamentos. Isso é algo para discutir com suas amigas e uma boa garrafa de vinho. Mas talvez terminar de forma limpa seja o melhor, considerando que é um relacionamento no local de trabalho. Mantenha o profissionalismo, deixe as emoções do lado de fora do escritório e siga em frente com a cabeça erguida.
— Posso registrar uma queixa contra ele?
— Por qual motivo?
— Por traição! — exclama, como se fosse óbvio.
Se ser um babaca fosse motivo para demissão, metade dos homens daqui já teria ido embora. Inclusive o próprio Campbell.
— Sinto muito, Emily, mas traição é um problema pessoal, não profissional.
Ela suspira, derrotada.
— Então é isso? Apenas finjo que nada aconteceu?
— Não exatamente. Mas você é jovem e talentosa. Não deixe um relacionamento r**m definir quem você é. Garanta que o seu relacionamento com ele seja estritamente profissional daqui para frente.
Emily assente, limpando os olhos antes de se levantar.
— Obrigada, Savannah.
Ela para na porta.
— Você não vai contar para ninguém, certo?
— Claro que não. O que é dito nesta sala fica entre nós.
Quando a porta se fecha, solto um suspiro. Já lidei com coisas mais selvagens neste escritório — como demitir funcionários que usavam o armário da faxina como quarto do sexo.
Mas espero que os próximos compromissos sejam menos dramáticos. Estou ficando sem lenços... e paciência. para esse tipo de drama.
— Toc toc — diz uma voz familiar.
— Oi — digo a Mary, minha assistente.
— Quer que eu pegue um almoço para você? — Ela paira na porta. — Ou você está saindo?
Quase rio do absurdo. Eu sair? Olho para minha mesa, que parece uma fábrica de papéis.
— Se você pudesse me trazer algo, seria incrível. Você é a melhor. Eu lhe dou um sorriso agradecido e ela sorri de volta antes de sair correndo.
Eu continuo dizendo a mim mesma que amanhã será o dia em que sairei para tomar um pouco de ar fresco e me alongar. Mas esse amanhã nunca chega.
Uma grande vantagem da Financeira Campbell são os almoços chiques e gratuitos que eles servem no restaurante do andar de baixo. Não que eu tenha amigos aqui para almoçar de qualquer maneira, como minha consciência adora me lembrar com uma gargalhada amarga.
Como chefe do RH, fazer amizades é um ato delicado. Aprendi isso da maneira mais difícil quando o Campbell me fez demitir pessoalmente minha melhor amiga do trabalho, Katie, no ano passado. Foi como uma facada no estômago.
Claro, ela saiu com um pacote de indenização decente, porque o Grupo Campbell é nem generosa quando se trata de pagar as pessoas para calarem a boca e irem embora em silêncio. Mas isso não fez com que vê-la arrumar sua mesa fosse menos devastador.
Fiquei um pouco confusa com isso, passando noites chorando horrores com uma garrafa de vinho pela metade, me perguntando onde tudo deu errado e como me tornei o tipo de pessoa que pode demitir a própria amiga.
Nossa amizade simplesmente não foi a mesma depois disso. Então não foi realmente uma surpresa quando Katie finalmente me deu um bolo alguns meses depois, decidindo que ser amiga da mulher que a demitiu não era bom para sua saúde mental.
Falando do d***o responsável pela minha existência profissional sem amigos, levanto os olhos e vejo Campbell em seu escritório, com o telefone colado no ouvido, mas seu olhar está fixo em mim.
Eu arqueio uma sobrancelha, encontrando seu olhar de frente. Tento não ser a primeira a desviar o olhar, mesmo enquanto sinto aquele aperto familiar na minha barriga — noventa e nove por cento de aversão pura, e um traiçoeiro um por cento de t***o. Algo que eu me recuso a reconhecer como qualquer coisa além de aversão.
Finalmente, ele quebra o contato visual, latindo no telefone. Provavelmente ordenando um ataque a um concorrente.
Sinceramente, não tenho a mínima ideia do que esse cara pensa de mim. Não tenho certeza se quero saber. Ignorância é uma benção. Mas sou eternamente grata por ele parecer um maldito crápula s*******o e arrogante. É mais seguro assim. Se ele soubesse com que frequência fantasio sobre estrangulá-lo com sua gravata, eu provavelmente já teria sido demitira.
Uma batida tímida me tira dos meus pensamentos homicidas e um pouco pervertidos. Olho para cima, meus olhos se arregalando enquanto vejo Dennis da contabilidade parado na minha porta. O vermelho do seu rosto está tão irritado, que é como um letreiro neon gritando: "Estou estressado demais!", "Minha mente está um inferno!"
— Ei, Dennis — eu digo com a voz sufocada.
Por favor, não deixe que ele tenha vindo aqui para falar sobre a alergia na sua pele.