Capítulo 1
Eu me lembrava do cheiro de sementes de abóbora fritas na manteiga,me lembro de como eu amava o outono e de como tudo era só o laranja,o vermelho e o amarelo. Eu não me lembro da última vez que vi algo tão lindo quanto o Central Park no outono, as árvores parecendo fogo vivo e o chão cheiro de folhas secas caídas.
Eu não acredito que estou aqui.
— Elena — chamou meu pai. Me virei para ele e lhe ofereci um sorriso amarelo — , você sumiu.
—Desculpe, eu queria vir aqui.
As pessoas são mais felizes no outono, é uma estação que até o clima parece beijar sua pele, acariciar com brisas suaves e macias, como a seda fina.
— Quando foi a última vez que viemos aqui? — perguntei.
— Acho que você tinha dezesseis anos, o Charlie era um bebê ainda — ele explicou e minha memória me lembrou do menininho de cabelos loiros queimados engatinhando na grama.
— Eu gosto daqui — suspirei —, eu tenho mesmo que ir para LA? — me virei para meu pai, provavelmente toda a minha tristeza em minha face.
— Você quer fazer faculdade? — meu pai sorriu, um sorriso brincalhão que me falava "deixe disso criança".
— Eu quero e eu sei que tenho que ir — suspirei —, só não queria ficar longe de vocês,longe do Charlie — meu peito doia só de pensar em ficar longe do meu irmão mais novo — eu vou perder a infância dele.
— Não pense assim — a mão de meu pai agarrou meu ombro — , você vai escolher sua profissão, vai escrever uma nova história da sua vida e isso é incrível Ely.
— Você acha que eu vou me sair bem?
— Você é uma Larson, o sucesso está no seu sangue.
O sucesso está no meu sangue...sem pressão.
— Tá — me entreguei, não ia vencer essa batalha —, mas eu tenho que ficar mesmo na casa do Anthony?
— Não quero voce nós dormitórios, eu prefiro que fique com ele do que se arrisque com desconhecidos.
— E se eu for um encômodo para ele? Ele tem a vida dele papai — uma vida exagerada, regada a álcool e prostitutas. Ficar longe de Anthony, anotado.
— E você vai ter a sua, tenho certeza que vocês não vao nem notar a presença um do outro.
E eu torcia para que isso fosse verdade.
Anthony é do tipo de homem que faz você suspirar só de olhar para ele, ele tem um sorriso sedutor que parece ter a capacidade de parar o tempo, e o corpo...
Anthony Lover é um perigo que eu vou ter que evitar, mesmo morando embaixo do mesmo teto que ele.
Charlie estava entretido com o programa infantil quando eu entrei em seu quarto — após fazer minhas malas para o voo de amanhã — , ele tinha uma bacia de pipoca ao lado e comia enquanto olhava atentamente para a tela.
— Posso assistir com você? — me sentei ao lado dele.
— Pop? — ele estendeu a bacia para mim e eu aceitei um pouco.
Charlie tem apenas quatro anos se idade,mas já é um pequeno gênio. Ele aprendeu a andar, falar e até escrever o próprio nome cedo de mais, e todos nós temos orgulho disso,mas não deixa de me assustar quando ele fala coisas que eu não espero de uma criança.
— O tio Earl veio aqui de novo — ele falou e minha garganta secou, já sabendo o que vinha pela frente.
— Foi, e o que ele fez?
— Nada de mais, ficou parada na entrada do quarto me observando, eu fiz o que você mandou e ignorei ele — o menino falou baixinho.
— Foi?
Earl era um técnico que ajeitava as instalações elétricas do prédio, e dizem que ele morreu eletrocutado na sala embaixo no quarto de Charlie, e eu nunca soube como Charlie descobriu a história.
— Sim, mas não deu certo.
— Por quê?Ele não foi embora? — o menino girou o rosto para mim e balançou a cabeça negativamente.
— Não, — ele olhou para algo além de mim,mas eu já estou com medo o suficiente — ele está do seu lado,olhando para você.
Meu sangue gelou e meu instinto gritou para que eu corresse. Mas, eu não ia deixar Charlie ali, mesmo esse tal de Earl sendo ou não fruto da sua imaginação.
— Você quer brincar Charlie? Sua bola ta la na sala, o que acha de jogarmos football?
— Sim, sim ! — o menino se levantou, e eu também, desligando a televisão.
Eu não sabia se Earl era real, e eu não estava afim de saber.