Chego ao escritório às sete e meia. Deixo minha bolsa no meu armário e vou até o arquivo em busca da pasta da CZA.
Infelizmente, minha correria não me rendeu muitos frutos. Dona Iracema ainda não havia chegado, de forma que eu não consegui ter acesso aos arquivos com a antecedência que eu queria. Mas ser secretária do diretor tinha suas vantagens. Peguei um post it e anotei o pedido para que a pasta fosse encaminhada à Diretoria de Administração o quanto antes possível.
Ao chegar na minha mesa, reforcei o pedido usando o e-mail institucional, afinal eu precisava olhar o contrato. Vai que o “todo poderoso” resolve me sabatinar?
Além disso, eu iria realizar um trabalho para a empresa, logo era algo dentro do escopo do meu trabalho. Justifiquei a urgência com a reunião das 16h e enviei, ou seja, eu teria a pasta sem precisar passar por toda burocracia do setor.
Feito isso, fui para cozinha aproveitar meus minutos livres para tomar um café antes do expediente. O dia já começou corrido.
― Oi gata!
― Tá doida, Renata? O que você está fazendo aqui ― falo olhando para fora da cozinha, para ter certeza que não havia ninguém da diretoria a caminho.
― Você diz, além desfrutar da sua companhia, enquanto tomo o café dos chefões? Adoro esse financier ― ela diz enquanto coloca um na boca.
― Você é louca! ― rimos baixo.
― Cadê o homem de gelo?
― Não chegou ainda. Por acaso você canta Let it go, Elsa?
― Por que não? ― eu rio ― Então... vão abrir vagas para recrutamento de estagiários na Prado e Sorrentino Advogados, na segunda. Vou preparar sua carta de recomendação. Tenho uma amiga que trabalha lá no RH e pode te ajudar, se você quiser ― frisou essa última parte.
― Não precisa, mas obrigada pela força. Vou me inscrever. Hoje vou ter a prova de fogo se estou pronta mesmo para o contencioso.
― Como assim?
― Depois te conto. Melhor você ir, se te pegarem aqui, ficaremos encrencadas.
― Obrigada pelo café!
― Disponha ― digo e faço uma reverência. Rimos e ela vai.
Quando saio da cozinha, avisto Dona Iracema indo em direção a minha mesa com cara de poucos amigos. Corro para enfrentar a fera.
― Foi você quem pediu a pasta da CZA, menina?
― Bom dia, dona Iracema! Tudo bem com a senhora? ― ela estreita os olhos, demonstrando toda a sua indignação. Prossigo fingindo não entender ― O Sr. Luciano terá uma reunião com eles hoje, para tratar do aditivo. Ele pediu a pasta ontem, tarde da noite, por isso, fui incomodá-la tão cedo.
Estendo as mãos para que ela me entregue a pasta e abro meu melhor sorriso, mas ela coloca a pasta sobre a mesa e me faz assinar o livro protocolo, mantendo a cara de poucos amigos.
Ô vida! Pelo menos tinha conseguido "a minha preciosa". Agora preciso me manter escondida do meu chefe enquanto devoro aqueles arquivos.
Quando ele chegou, já eram nove horas. Vi a hora que ele saiu do elevador e olhou para mim, gelei na hora e fui escorregando na cadeira para me esconder. Agora seja o que Deus quiser...