Capítulo 05 – Rastro de Pólvora

857 Words
Marco Eu aprendi cedo que cidade não some com gente do nada. Some com gente invisível. Gente que não tem parente importante, não tem advogado, não tem holofote. Some e vira estatística, vira “se envolveu”, vira “tava devendo”, vira silêncio. E o silêncio… é o que mais me dá nojo. A primeira coisa que fiz foi ir pra casa. Subi as escadas do prédio com a pressa queimando na sola do pé, a mão apertando o corrimão como se eu pudesse quebrar o concreto. O corredor tinha o mesmo cheiro de sempre: comida requentada, mofo, vida apertada. Mas aquela noite tinha outra coisa no ar. Um gosto amargo, como se alguém tivesse passado ali e deixado ameaça grudada na parede. Bati na porta. — Valentina! Abre! Nada. Bati de novo, mais forte. O vizinho do 302 abriu a porta só uma fresta, o olho meio assustado, meio curioso. — Tá procurando a Valentina? — Tô. Você viu ela? Ele coçou a nuca, hesitando. Quando a gente hesita no Rio, é porque sabe demais e quer viver. — Vi uns homens subindo… mais cedo. Não eram daqui. Meu estômago afundou. — Quantos? — Dois… três. — ele respondeu, baixinho. — E a mãe dela… eu vi ela saindo ontem de madrugada. Descalça. Parecia… alterada. A palavra “alterada” me doeu como soco. Eu já tinha visto minha mãe assim, anos atrás, antes de eu virar o homem que eu virei. E eu conhecia o tipo de desespero que deixa uma mulher sair de madrugada como se o mundo não tivesse consequência. Empurrei a porta da Valentina com força. Trancada. A raiva veio quente, mas junto dela veio culpa. Porque eu devia ter percebido. Devia ter chegado antes. Devia ter sido irmão de verdade, não só um uniforme tentando salvar o mundo enquanto deixava o próprio sangue se afogar. Eu peguei o celular e liguei de novo. Chamou até cair. Caixa postal. Meu peito apertou de um jeito feio, como se a cidade estivesse apertando meus pulmões com as mãos. “Calma, Marco.” Eu falei isso pra mim mesmo como se comando interno resolvesse. Mas meu corpo já tava em modo caça. Fui direto pro registro de ocorrências do bairro. Nada recente com o nome da Valentina. Nada com o nome da Lúcia. Como se elas tivessem evaporado. Só que vício não evapora. Dívida não evapora. E cobrador… menos ainda. Eu puxei meu contato mais sujo — aquele que eu finjo que não tenho. — Fala comigo. — eu disse quando ele atendeu. — Quero saber da Lúcia. Sumiu pra onde? Do outro lado, um riso nervoso. — Tá mexendo com lama, policial. — Eu já tô na lama faz tempo. — cuspi. — Fala. Ele respirou, e eu ouvi barulho de rua, moto, gente gritando ao fundo. — Ela foi vista na entrada do Alemão. Pedindo… oferecendo. Tava desesperada. Minha mão fechou tanto no celular que doeu. — Oferecendo o quê? — Qualquer coisa. — ele respondeu. — E quando alguém oferece qualquer coisa… sempre tem alguém que aceita. Eu fechei os olhos por um segundo. Vi o rosto da Valentina, o jeito como ela me olhava quando eu dizia “se precisar, me chama”. Como se ela não acreditasse. Como se eu fosse promessa — e promessa, na nossa casa, sempre quebrou. — E a Valentina? — minha voz falhou num nível que eu odiei. Silêncio. O tipo de silêncio que vem antes do pior. — Ouvi dizer que ela tá… “protegida”. — ele falou por fim. — Protegida do jeito deles. Eu senti o sangue subir no ouvido, zunindo. — Gael. — eu disse o nome como se cuspisse veneno. — Não fala esse nome alto, Marco. — ele avisou. — Tem ouvido em todo canto. E tem gente dentro da polícia que gosta de passar recado. Isso me paralisou por meio segundo — não por medo do Gael, mas pelo que aquilo significava: eu tava cercado por fora e por dentro. — Me dá um endereço. Um ponto. Qualquer coisa. Ele hesitou. — Tem um acesso… uma rua que sobe por trás da pedreira. Eles usam pra entrar carro sem placa. Se você for por lá, ninguém te vê chegando. — E ninguém me vê saindo. — eu completei, seco. Ele não negou. Desliguei e encostei a testa no volante do carro por um instante. Não era cansaço. Era contenção. Porque eu queria quebrar tudo, e eu sabia que quebrar tudo era exatamente o que Gael queria: um policial fora de si, subindo morro feito louco, dando desculpa pro inferno se abrir. Mas eu também sabia outra coisa. Valentina não aguentaria muito tempo virando peça no tabuleiro de um homem como ele. Eu liguei o carro. O motor respondeu como um rosnado. E quando eu ia arrancar, meu celular vibrou com uma mensagem de número desconhecido. “Se quer tua irmã viva, para de procurar pela mãe. Procura pelo dono.” Meu coração virou pedra. E eu entendi: isso não era só resgate. Era convite. Era guerra. E eu já tava dentro.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD