Gael
A favela não admite hesitação.
A dúvida gera fraqueza. A fraqueza atrai a invasão. E no Complexo do Alemão, a invasão é guerra.
Eu os segui sem pressa, o som das minhas botas ecoando no concreto, o rádio chiando na laje. Nando liderava, conduzindo Valentina com a cautela de quem carrega uma faísca: firme o bastante para que ela não pensasse em fugir, mas cuidadoso para não se queimar.
Ela entrou no corredor de cima com o queixo erguido, mas os olhos entregavam sua real condição: atenção aguçada, o corpo tenso e pronto para a corrida, a mente buscando uma rota de fuga que não existia.
Abri a porta do quarto, permitindo que ela absorvesse o ambiente antes que eu dissesse qualquer coisa. Cama arrumada, uma janela alta com grade discreta, banheiro pequeno e toalhas limpas. Conforto suficiente para afastar a ideia de um cativeiro, mas prisão o bastante para que a mensagem fosse clara.
— Aqui. — eu disse.
Ela passou por mim sem pedir permissão, como se andar fosse o último pedaço de liberdade que ainda podia fingir que tinha. Tocou o lençol, olhou a janela, encostou na maçaneta do banheiro. Avaliando. Calculando.
Quando ela virou, eu já estava encostado no batente, braços cruzados, o morro inteiro nas minhas costas.
— Eu não vou ficar trancada. — ela falou, direta.
A coragem dela era bonita. E perigosa.
— Vai. — respondi. Só isso. Uma palavra seca, sem discussão.
O brilho de raiva acendeu no rosto dela.
— Isso é sequestro.
Eu soltei um riso curto, sem humor.
— Isso é controle. Se eu te quisesse sumida, você nem ia saber onde tá. — dei um passo pra dentro, sem invadir demais, só o suficiente pra minha presença preencher o espaço. — Mas eu não quero você sumida. Eu quero você quieta.
Ela engoliu em seco, mas não abaixou o olhar.
— Meu irmão…
— Não usa ele como arma aqui. — cortei, e minha voz ficou mais fria. — Marco é problema meu. Você é… outra coisa.
Ela apertou os punhos.
— “Outra coisa” tipo o quê? Moeda?
Eu sustentei o olhar dela por um segundo longo, até ela sentir o peso da palavra que não era dita.
Sim.
E eu não ia mentir sobre isso, porque mentira cria esperança. E esperança, nessa casa, era a forma mais rápida de enlouquecer alguém.
— Você vai seguir minhas regras, Valentina. — falei, calmo. — Não porque eu gosto de mandar. Mas porque, se você quebrar uma… você vira motivo.
Ela franziu a testa.
— Motivo pra quê?
Eu inclinei a cabeça, escolhendo bem cada sílaba.
— Pra Marco subir o morro com sangue nos olhos. Pra facção rival sentir cheiro de fraqueza. Pra algum filho da p**a daqui de dentro achar que pode me desafiar usando você.
Ela respirou fundo, como se aquelas possibilidades esmagassem o peito dela por dentro.
— Eu não pedi pra estar no meio disso.
— Pediu quando tentou pagar dívida com o próprio corpo e o próprio nome. — respondi, sem elevar o tom. — Você entrou no jogo. Agora aprende as regras.
Valentina deu um passo até mim, perto o bastante pra eu sentir a tensão dela no ar.
— E se eu tentar fugir?
Eu não me mexi. Não precisei.
— Você não vai conseguir. — falei. — E se tentar… eu vou te trazer de volta.
Ela riu, amarga.
— E acha que eu vou te obedecer por medo?
Eu deixei o silêncio responder primeiro. Depois, falei mais baixo:
— Você vai me obedecer porque não quer ser a razão da morte do teu irmão.
O rosto dela mudou. Como se eu tivesse enfiado uma lâmina na parte certa.
Antes que ela dissesse qualquer coisa, meu rádio chiou na minha cintura.
Nando abriu a porta de leve, sem entrar, respeitando o limite que eu mesmo criei.
— Chefe… movimento estranho lá embaixo. — a voz dele veio curta. — Um carro descaracterizado rondando. E… tem um cara perguntando por Lúcia no acesso.
Eu senti meu maxilar travar.
O jogo já tinha começado.
Eu olhei pra Valentina, e ela entendeu pelo meu silêncio. Entendeu do jeito que o medo faz entender: rápido, c***l, absoluto.
— Fica aqui. — ordenei.
Ela deu um passo atrás, mas a voz saiu num sussurro quebrado:
— É ele?
Eu não respondi com nome. Só com verdade.
— Se for… não faz barulho.
Fechei a porta. Girei a chave.
E, do lado de fora, com o morro respirando guerra, eu já sabia: quando Marco chegasse perto o bastante, Valentina deixaria de ser “dívida”.
Viraria gatilho.