Capítulo 04 – Minha Casa, Minhas Regras

774 Words
Gael A favela não admite hesitação. A dúvida gera fraqueza. A fraqueza atrai a invasão. E no Complexo do Alemão, a invasão é guerra. Eu os segui sem pressa, o som das minhas botas ecoando no concreto, o rádio chiando na laje. Nando liderava, conduzindo Valentina com a cautela de quem carrega uma faísca: firme o bastante para que ela não pensasse em fugir, mas cuidadoso para não se queimar. Ela entrou no corredor de cima com o queixo erguido, mas os olhos entregavam sua real condição: atenção aguçada, o corpo tenso e pronto para a corrida, a mente buscando uma rota de fuga que não existia. Abri a porta do quarto, permitindo que ela absorvesse o ambiente antes que eu dissesse qualquer coisa. Cama arrumada, uma janela alta com grade discreta, banheiro pequeno e toalhas limpas. Conforto suficiente para afastar a ideia de um cativeiro, mas prisão o bastante para que a mensagem fosse clara. — Aqui. — eu disse. Ela passou por mim sem pedir permissão, como se andar fosse o último pedaço de liberdade que ainda podia fingir que tinha. Tocou o lençol, olhou a janela, encostou na maçaneta do banheiro. Avaliando. Calculando. Quando ela virou, eu já estava encostado no batente, braços cruzados, o morro inteiro nas minhas costas. — Eu não vou ficar trancada. — ela falou, direta. A coragem dela era bonita. E perigosa. — Vai. — respondi. Só isso. Uma palavra seca, sem discussão. O brilho de raiva acendeu no rosto dela. — Isso é sequestro. Eu soltei um riso curto, sem humor. — Isso é controle. Se eu te quisesse sumida, você nem ia saber onde tá. — dei um passo pra dentro, sem invadir demais, só o suficiente pra minha presença preencher o espaço. — Mas eu não quero você sumida. Eu quero você quieta. Ela engoliu em seco, mas não abaixou o olhar. — Meu irmão… — Não usa ele como arma aqui. — cortei, e minha voz ficou mais fria. — Marco é problema meu. Você é… outra coisa. Ela apertou os punhos. — “Outra coisa” tipo o quê? Moeda? Eu sustentei o olhar dela por um segundo longo, até ela sentir o peso da palavra que não era dita. Sim. E eu não ia mentir sobre isso, porque mentira cria esperança. E esperança, nessa casa, era a forma mais rápida de enlouquecer alguém. — Você vai seguir minhas regras, Valentina. — falei, calmo. — Não porque eu gosto de mandar. Mas porque, se você quebrar uma… você vira motivo. Ela franziu a testa. — Motivo pra quê? Eu inclinei a cabeça, escolhendo bem cada sílaba. — Pra Marco subir o morro com sangue nos olhos. Pra facção rival sentir cheiro de fraqueza. Pra algum filho da p**a daqui de dentro achar que pode me desafiar usando você. Ela respirou fundo, como se aquelas possibilidades esmagassem o peito dela por dentro. — Eu não pedi pra estar no meio disso. — Pediu quando tentou pagar dívida com o próprio corpo e o próprio nome. — respondi, sem elevar o tom. — Você entrou no jogo. Agora aprende as regras. Valentina deu um passo até mim, perto o bastante pra eu sentir a tensão dela no ar. — E se eu tentar fugir? Eu não me mexi. Não precisei. — Você não vai conseguir. — falei. — E se tentar… eu vou te trazer de volta. Ela riu, amarga. — E acha que eu vou te obedecer por medo? Eu deixei o silêncio responder primeiro. Depois, falei mais baixo: — Você vai me obedecer porque não quer ser a razão da morte do teu irmão. O rosto dela mudou. Como se eu tivesse enfiado uma lâmina na parte certa. Antes que ela dissesse qualquer coisa, meu rádio chiou na minha cintura. Nando abriu a porta de leve, sem entrar, respeitando o limite que eu mesmo criei. — Chefe… movimento estranho lá embaixo. — a voz dele veio curta. — Um carro descaracterizado rondando. E… tem um cara perguntando por Lúcia no acesso. Eu senti meu maxilar travar. O jogo já tinha começado. Eu olhei pra Valentina, e ela entendeu pelo meu silêncio. Entendeu do jeito que o medo faz entender: rápido, c***l, absoluto. — Fica aqui. — ordenei. Ela deu um passo atrás, mas a voz saiu num sussurro quebrado: — É ele? Eu não respondi com nome. Só com verdade. — Se for… não faz barulho. Fechei a porta. Girei a chave. E, do lado de fora, com o morro respirando guerra, eu já sabia: quando Marco chegasse perto o bastante, Valentina deixaria de ser “dívida”. Viraria gatilho.
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