Capítulo 03 – O Preço

948 Words
Gael Eles chegaram antes do pôr do sol, como eu gosto. Quando a noite cai no Alemão, tudo ganha outra cara: o morro vira reino, as sombras viram proteção, e qualquer erro vira barulho demais. Eu não pago pra ter barulho. Eu pago pra ter controle. Do alto da laje principal, eu vi a cidade lá embaixo acender as luzes como se estivesse rezando pra não ser notada. Aqui em cima ninguém reza. Aqui em cima a gente decide. — Tá aí, chefe. — Nando avisou, encostando perto, voz baixa. Eu nem precisei perguntar “quem”. Eu já sabia. Dívida tem cheiro. Vício tem rastro. E quando o rastro chega até mim, não é porque eu procurei — é porque alguém falhou em resolver antes. Desci as escadas com calma, sentindo o peso do olhar dos meus homens. Não é medo. Não é idolatria. É entendimento: quando eu paro pra ouvir uma história de dívida, alguém vai sair devendo mais do que entrou. No escritório improvisado — concreto, vidro, duas cadeiras e um silêncio que manda — os cobradores aguardavam. Um deles sorria nervoso. O outro mantinha a cara dura, como se dureza disfarçasse fraqueza. E tinha ela. De pé, do lado, com o corpo tenso como se cada músculo estivesse segurando um grito. Bonita de um jeito perigoso: não a beleza que chama atenção… a beleza que resiste. Olhos que não pedem permissão pra existir. Valentina. Eu não precisava do nome pra entender o tipo. Já vi centenas. Filha que vira mãe cedo demais. Mulher que aprende a engolir choro pra não dar gosto pra desgraça. Mas quando eu ouvi o sobrenome, quando ouvi a ligação, eu entendi por que a oferta chegou até mim com tanta pressa. Marco. O policial que vive atravessando meu caminho como se coragem fosse escudo. A vida tem um senso de humor podre. — Fala. — eu disse, sem levantar a voz. Minha voz nunca precisou de volume. O cobrador pigarreou, suando. — A mãe dela… chefe… a dona Lúcia. Tá devendo pesado. Pegou com meio mundo. Prometeu, jurou, sumiu, voltou… o de sempre. Eu olhei pra Valentina. Ela não desviou. Não pediu desculpa. Não implorou. Só ficou ali, segurando o próprio orgulho com as duas mãos. Isso… eu respeitei. Um pouco. — E por que isso virou assunto meu? — perguntei, deixando a pergunta cair no chão, fria. — Porque… — o outro cobrador respondeu, e eu vi o medo passando rápido no olhar dele. — Porque ninguém tá conseguindo receber. E tão dizendo que a senhora Lúcia tá se escondendo atrás do nome do filho… do policial. A palavra “policial” saiu como se fosse veneno. Valentina respirou fundo, pequena reação, mas eu vi. Então era verdade: ela é o ponto fraco do homem certo. Eu encostei na mesa, inclinei o rosto de leve. — Qual foi a oferta? O primeiro cobrador apontou, quase aliviado por finalmente despejar o problema. — Ela… ela se ofereceu. Disse que pagava no lugar da mãe. Que… que o senhor podia decidir o valor. Eu deixei um silêncio longo. Não pelo teatro. Pelo peso da decisão. Quando eu aceito algo, eu aceito inteiro. Eu não devolvo. Eu não negocio depois. Eu assumo. Valentina soltou: — Eu não sou mercadoria. A coragem dela veio como uma faca limpa, direta. Alguns homens ririam. Alguns se irritariam. Eu apenas observei. — E mesmo assim tá aqui. — eu respondi, sem emoção aparente. — Isso significa que você entendeu uma coisa: no fim, todo mundo paga. A pergunta é como. Ela apertou os dedos, mas não baixou a cabeça. Eu gostei menos do que deveria. — Escuta bem, Valentina. — eu falei, calmo. — Eu não preciso do teu corpo. Eu preciso do teu silêncio. Do teu comportamento. E do teu nome… no lugar certo. Os cobradores se entreolharam, confusos. Eles achavam que isso era simples. Que eu ia mandar, assinar e pronto. Eu levantei a mão, mandando calar qualquer tentativa de comentário. — A partir de hoje, você fica sob minha proteção. — eu disse, e a palavra “proteção” soou como grade. — Isso não é favor. É contrato. Ela abriu a boca, mas eu cortei. — Regra um: você não sai sem autorização. — Regra dois: você não fala com ninguém lá de baixo sem eu saber. Nem telefone, nem recado, nem “amizade”. — Regra três: você não usa o nome do teu irmão aqui dentro como ameaça. Os olhos dela brilharam, raiva e medo misturados. — Meu irmão vai me procurar. Eu sorri de lado, curto. — Eu sei. — respondi. — E é por isso que você vai me obedecer. Porque a sua desobediência vira pólvora na mão dele. Ela deu um passo à frente, como se quisesse me enfrentar no peito. — E minha mãe? Eu inclinei o rosto, deixando a frieza aparecer de verdade. — Sua mãe… não é mais problema meu. — eu disse. — Ela fez a escolha dela. Você fez a sua. O silêncio caiu pesado. Lá fora, o morro continuava vivo: moto subindo, rádio estourando ao longe, um tiro distante que ninguém reagiu porque aqui é assim. Eu sinalizei pra Nando. — Leva ela. Quarto de cima. Porta com chave. Segurança dobrada. Valentina me encarou como se eu fosse o pior tipo de homem. Talvez eu fosse. Quando ela passou por mim, eu senti o cheiro do medo dela — e o cheiro de desafio. E eu pensei, sem tirar a máscara do rosto: Marco vai subir. E quando ele subir… vai descobrir que, no meu território, até o amor vira moeda. E eu… eu já decidi o preço.
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