Luci
Sempre tive um timing horrível, não só com as minhas questões de foco e desorganização, mas era como se o universo arranjasse os eventos na minha vida. Acordei atrasada esta manhã depois de configurar o meu alarme errado. A cafeteria em que paramos para o café da manhã em algumas manhãs e estava lotada, o que me atrasou mais dez minutos.
Sou viciada em rotina, em parte porque isso me ajuda a manter o rumo e também porque o entediante é reconfortante. Crescer em lares adotivos, você tinha que se preocupar em ser transferido de forma repentina; e, até eu me mudar para a casa da Janet, quando eu tinha oito anos, me mudei pelo menos três ou quatro vezes por ano. Então, fazer a mesma coisa todos os dias funciona muito bem para mim.
Estou deixando as letras de uma música rolarem em minha cabeça enquanto tento de modo desesperado lembrar o nome da música de fato. Eu deveria apenas procurar, mas só consigo captar uma palavra a cada dez vezes que ouço. Leva um minuto para eu perceber que a garota atrás do balcão está me chamando.
— Ah, desculpe. Eu gostaria de um Chai latte e um muffin de mirtilo.
— Desculpe, acabamos de vender o último muffin de mirtilo para o cara na sua frente. Que tal alguma coisa diferente?
Mais uma prova de que meu timing é péssimo. Ótimo!
Eu me apresso para olhar no balcão. Eu estava desejando de verdade um muffin de mirtilo. Um com bagas suculentas e cobertura extra de streusel...
“FOCO LUCI!” Eu grito para mim mesma.
— Hmm, que tal um dinamarquês de queijo, então?
— E estamos sem Chai para fazer os lattes.
Duas vezes ótimo.
— Apenas um latte de baunilha comum, então — Eu digo com decepção.
Volto para o meu carro beliscando o dinamarquês que eu não queria e tomo o meu café, que é mais aceitável do que o dinamarquês. A maldita melodia da música começa a dançar em minha cabeça de novo.
Depois da minha primeira aula, ligo para a minha chefe para ver se alguém me procurou para trabalhar para eles. A Sra. Simpson suspira e me diz que tem sido muito devagar ultimamente, mas ela tem esperança de que algo surja em breve.
Encerro com ela. Posso esperar algumas semanas antes de realmente precisar estar trabalhando, pois tenho economias suficientes para sobreviver com facilidade por mais dois meses. Mas não gosto de deixar isso ao acaso ou ficar muito perto de ficar sem dinheiro. De forma diferente de muitos dos meus colegas aqui, eu não tenho ninguém para me socorrer se isso acontecer.
Entro na minha terceira aula do dia e paro do lado de dentro da porta. Normalmente, eu chego a essa aula cedo o suficiente para poder chegar às cadeiras do fundo; mas, de alguma forma, dois jogadores de futebol e o time de hóquei chegaram bem cedo hoje.
Respiro fundo e foco em mover para os degraus do lado. Com sorte, eu vou passar direto por eles. Mas ao passar pela segunda fileira, eu sinto um puxão na minha mochila e m*l consigo me manter em pé.
— É a maldição. Vocês sabiam que ela estava aqui dentro? Talvez devêssemos dizer ao professor que não vamos nos sentar na aula com tanta má sorte.
Olho furiosa para Deacon White, o wide receiver do time de futebol. Ele adora me provocar com palavras; e Julian, o quarterback, também está aqui, e ele me encara com ódio, pois acha que tem motivo.
Fico parada e encaro um ponto na parede à minha frente. A aula começará em breve e eles vão se soltar. Costumava retrucar com sarcasmo, mas não teve efeito e pareceu colocar um alvo maior em mim. Meu silêncio, com honestidade, permitiu a eles me ignorar na maior parte do tempo, a menos que estejam entediados.
— Ei, Reed, você já viu a maldição aqui dentro antes? — Deacon provoca. No meu campo de visão, avisto os quatro reis.
— Eu geralmente não procuro ratos — Um dos outros membros do time de hóquei, Maxton Porter, chama de forma zombeteira — Poderia ser divertido caçá-la. Você gostaria disso, não é, ratinha? Se te caçássemos. Não é que a captura seria algo que você apreciaria. Poderíamos exorcizar a maldição, por fim.
Eu pisei no pé dele algumas semanas atrás e fiz com que ele derramasse sua bebida em si mesmo. Ele estava flertando com duas garotas, que riram dele e então foram embora. Desde então, ele tem sido especialmente odioso.
Vejo até Deacon arquear uma sobrancelha; e isso parece sombrio e nojento, pois aquele cara é tipo um esgoto ambulante. Antes que eu possa evitá-lo, meu cérebro está girando vendo um cara alto coberto de gosma verde que cheira a ovos podres me perseguindo como nos antigos desenhos do Scooby-Doo, que Barrett assiste algumas tardes.
— Hei, não me ignore, sua p*****a nojenta! Você deveria ficar feliz que eu sequer tenha notado você — Uma garra parecida com um torno desce sobre meu pulso e meu pescoço. Eu grito de dor e caio, mas a pressão não diminui. Deacon está de pé.
— Não era para você tocá-la, cara!
Maxton está encarando para baixo para mim, seus olhos ardendo. De forma súbita, outra mão prende a que segura meu pulso, engolindo a dele e até envolve um pouco a minha mão.
— Solte-a agora! Você foi longe demais, Maxton — A voz zangada de Becker Reed permeia meu medo — O técnico vai ficar puto se ela te processar.
— Esteja pronta, ratinha, o seu tempo está chegando. Processe ele, e eu garanto que realmente você não vai aproveitar — Ele rosna enquanto se afasta.
Becker estende a mão para me ajudar a levantar, mas eu me afasto e uso a parede para me levantar. Vou ter um grupo de hematomas no pulso e no pescoço.
— Seu pulso parece quebrado — Ele diz baixinho.
— Faria diferença?
Subo as escadas para o meu lugar longe deles, me recusando a chorar. Eu odeio essa escola e os departamentos de esportes. Os treinadores de futebol americano e hóquei são irmãos, então nada aconteceria se eu reclamasse. Eles comandam a escola e, então, a família Reed comanda a cidade. Se eu não tivesse uma bolsa de estudos aqui, iria embora em um piscar de olhos.
Julian zomba.
— Acho que vou dar o fora hoje. Vou contar ao técnico Humphries que ela está fazendo essa aula quando eu for para a academia — Ele arqueia as sobrancelhas para mim enquanto sorri.
Eu me encolho na minha cadeira e passo pela aula, m*l sonhando porque estou tão zangada. Meu pulso também está latejando e eu preciso colocar gelo. Deixo-os sair primeiro, nem me mexendo por quase cinco minutos depois que saem. Vejo Becker me encarar por alguns segundos, afinal, ele deve estar preocupado que eu chame a segurança do campus e consiga que seu colega de equipe seja suspenso.
Entro na minha próxima aula e me sento; mas, antes de começar, vejo uma das enfermeiras da clínica do campus entrar. Ela olha ao redor e então aponta para mim.
— Luci Forrester?
Eu assinto e ela me entrega uma bolsa de gelo que pode ser presa ao redor do meu pulso.
— Me disseram para eu te entregar isso pelo treinador do time de hóquei.
Pego, desejando poder jogar isso na cara do Maxton ao invés de pegar.
— Obrigada — Ela sorri e vai embora.
Saio da minha última aula; então, decido parar e pegar um café gelado como um mimo para este dia horrível. Estou quase chegando à cafeteria quando ouço um carro passando muito rápido por esta estrada de mão única do campus e vejo um menino loiro jovem saindo da calçada para atravessar a rua. O carro não está diminuindo a velocidade e vejo por quê: o motorista está segurando o celular no nível dos olhos. Aquele menino vai ser esmagado.
— CUIDADO! — Eu grito e os meus pés se movem com vontade própria. Consigo chegar até ele a tempo de agarrá-lo e jogar nós dois no chão. Consegui aterrissar com ele principalmente em cima de mim para evitar machucá-lo. Ignorando a dor de deslizar pelo concreto, eu me apresso em enrolá-lo o máximo que posso com meu corpo.
O carro bate em outros dois, passando direto pelo local onde o menino estava paralisado, e atinge uma árvore não muito longe de nós, e eu escuto outras pessoas gritando.
Uma senhora se aproxima e me ajuda a levantar.
— Eu vi tudo. Foi bom que você estivesse prestando atenção exatamente naquele momento.
“Parece mais um milagre eu não estar perseguindo um efalante ou algo semelhante com minha cabeça de vento”, eu penso, mas não expresso isso.
Eu me agacho, estendo a mão para ele.
— Ei, o meu nome é Luci. Você consegue mexer os braços e pernas, querido?
Ele acena com lágrimas nos olhos.
— Você está machucado em algum lugar?
— Meu joelho — Olho para o joelho dele e vejo o arranhão leve.
— Vamos cuidar disso assim que a ambulância chegar. Qual é o seu nome? — Uma pequena multidão se formou, mas eu os ignoro e foco nele.
— Co...Cole — Ele gagueja. Os dentes dele estão batendo, e eu percebo que ele pode estar entrando em choque pelo susto. Luto para focar e lembrar que ele precisa se manter aquecido; então, rapidamente, puxo o hoodie sobre a minha cabeça e o coloco nele.
— Aqui querido, precisamos te manter aquecido. Fale comigo, ok? O que você estava fazendo aqui sozinho?
— Minha babá me deixou, ela é má e queria café. Eu não queria ir, então ela ficou muito brava e entrou. Eu deveria esperar ali, mas o vento levou meu papel e eu fui atrás.
Minha raiva aumenta com isso.
— Cole, quantos anos você tem? — A mulher que me ajudou escuta e acho que ela está gravando com o celular, mas isso não me importa muito.
— Quatro.
Idiota desgraçada, esse é meu primeiro pensamento junto com a necessidade de levar um alicate e um maçarico para a b***a dela por ter deixado um menino de quatro anos sozinho.
— Você sabe o nome dela?
Ele acena de forma lenta.
— Madison.
A mulher ao meu lado resmunga.
— Ela vai aparecer e fingir estar toda preocupada em um minuto. Pode anotar as minhas palavras.
Antes que ela pudesse aparecer, entretanto, a sirene de uma ambulância faz a sua presença ser notada.
— Cole, a ambulância está chegando. Veremos sobre chamar seus pais. Consegui...
— MEU DEUS! COLE? COLE? — Uma ruiva alta vem correndo, gritando sem parar.
A mulher ao meu lado fala baixo:
— Bem, ela fez uma entrada e tanto? — Ela limpa a garganta — Você é a famosa Madison que abandonou a criança que estava cuidando?
— Cala a boca, senhora! COLE! — Ela corre em direção ao carro. Eu olho para o Cole, que está tentando se esconder no meu hoodie, e sorrio para ele.
— Está tudo bem, querido, você pode se esconder aí. Não vou dizer a ela onde você está até te levarem perto da ambulância.
Duas delas estacionam junto com um caminhão de bombeiros e algumas viaturas da polícia. A mulher ao meu lado é muito prestativa, pede meu nome e número de telefone, que eu recito isso enquanto observo Cole o tempo todo. Então, ela me manda uma mensagem.
— Sou Mary. Enviei meu nome e o vídeo — Mary começa a acenar para os paramédicos em nossa direção.
— Alguém se machucou aqui?
— Esta jovem corajosa tirou aquele rapazinho do caminho do carro e eles bateram com força no passeio. Talvez precise ser examinado — Eu aprecio o fato de ela estar assumindo o controle.
— Moça, ele é seu filho?
— Não, este é o Cole. Nós acabamos de nos conhecer — Eu sorrio para ele, e ele coloca a cabeça para fora do hoodie.
— Oi, Cole, sou Warner. Você se machucou? — Ele se agacha ao meu lado.
— Meu joelho queima e o meu ombro dói — Ele diz com uma voz baixa.
— Tentei fazê-lo pousar em cima de mim, mas ele pode ter batido o ombro — Digo com arrependimento.
— Você fez mais do que o suficiente para tirá-lo da estrada, Srta...
— Luci, Luci Forrester.
— Srta. Forrester. Cole, podemos colocá-lo na maca na ambulância para levá-lo ao hospital? Vamos enfaixar o seu joelho primeiro.
Ele se afasta e me encara.
— A Luci pode ir comigo?
Warner me encara.
— Claro que pode. Vamos, querido, eu vou te levar — Eu o levanto, e aqueles gritos horríveis começam de novo.
— OH, COLE! GRAÇAS A DEUS VOCÊ ESTÁ BEM! — Um borrão de cabelo vermelho se aproxima de nós e ela puxa o Cole, tentando tirá-lo de mim.
Ele segura meu pescoço com força, chorando.
— NÃO! NÃO! QUERO A LUCI! NÃO!
— COLE! Não seja bobo. Venha para a Madison — Ela puxa ele de novo, quase nos puxando para baixo.
Warner toca no braço dela.
— Moça, você precisa deixá-lo. Ele não quer ir com você. Quem é você?
Dois policiais agora estão ao nosso lado.
— Sou a babá dele. Ele está sendo ridículo — Ela resmunga.
— Cole, sou o Oficial Perkins, ela é a sua babá? — Sua voz é gentil e calma.
— Sim, mas ela me deixou! — Ele soluça em meu pescoço, e eu o balanço para frente e para trás.
— Poderíamos colocá-lo na ambulância para enfaixar o joelho dele e depois responder algumas perguntas? — Pergunto com suavidade.
Todos concordam, exceto a Madison. Mary mostra o vídeo para os policiais enquanto nós enfaixamos Cole, então o Oficial Perkins volta até nós.
— Ok, Cole, você não precisa ir com a Madison para o hospital. Vamos pedir a ela para ligar para a sua família, para que eles possam estar presentes — Ele lança um olhar sujo para Madison.
— E a Luci pode vir comigo? — Ele pergunta com aquela voz baixa.
— Ela pode, se tiver tempo — Eu assento para o oficial.
— Ótimo. Eu te encontro lá. Ainda bem que você estava aqui quando tudo aconteceu, Luci.
Eu concordo em silêncio. Talvez a minha hora certa esteja parecendo melhor para algumas pessoas, afinal.