Lia
— Não, não, não...
Era o quinto teste de gravidez que eu fazia.
Logo após o incidente no restaurante, Ana com suas suspeitas, me obrigou a fazer um teste.
Eu havia passado por tanta pressão nas últimas semanas que nem percebi que meu ciclo estava atrasado.
— Vou fazer mais um — falei jogando o teste em cima da pia.
— Outro? Aceite que você está grávida.
— Eu não posso estar grávida.
— Acredite, você está totalmente grávida.
— Meus pais vão me m***r. Primeiro porque não vou mais me casar. Segundo, porque engravidei antes de falar o famoso "sim" para o padre.
— Estamos no século vinte e um, engravidar não é mais o fim do mundo.
— Para os meus pais são.
— Quando vai contar para eles?
— Não sei. Preciso esperar...
— Esperar o quê? O i****a do Eduardo decidir ser adulto e bater na sua porta?
Abri a boca e fechei novamente.
— Sei que dói ouvir isso, mas ele te deixou.
— Se eu estiver grávida...
— Lia, você fez cinco testes — disse apontando para a pia.
— E se for engano? Sabe como são esses testes de farmácia.
— Lia, você está grávida, ponto! Agora o que precisa fazer é contar para os seus pais.
— Como vou fazer isso? Foi uma luta para eles permitirem o nosso namoro. Agora você quer que eu chegue e fale: "oi pai, oi mãe, não vai mais haver casamento, mas vocês vão ganhar um netinho..."
— Eu sei que no início será um choque, mas eles vão entender.
— Ana, eles são aqueles religiosos que acreditam que você vai para o inferno pelo simples fato de pensar em s**o, imagina quando eu contar que estou grávida — joguei o teste na lixeira com os outros.
— Será que eles também oram antes de transarem? — Ana riu.
— Não tem graça. Sua única filha não vai mais ter o casamento dos sonhos e ainda vai dar um neto de bônus.
— Ou neta. Tomara que seja uma menina, assim vamos enchê-la de laços.
— Não é o momento de falar em laços quando estou pensando em como resolver isso. Sem emprego, dividindo um apartamento com você...
— Emprego, pensamos depois. E quanto ao apartamento você não precisa se preocupar. Seus pais precisam saber sobre a gravidez, o resto cuidamos depois.
— Vou fazer o teste de sangue — falei enquanto ligava para o consultório médico.
♠
Positivo.
Eu estava muito grávida.
Precisei me sentar para não desmaiar.
Ainda no consultório, comprei a passagem e depois liguei para Ana pedi para ela jogar algumas peças de roupa na mala e deixasse ela na portaria do prédio.
Horas depois estava desembarcando no aeroporto de Minas e pegando o táxi para a casa dos meus pais. Achei melhor não avisar, não era uma conversa que eu gostaria de ter pelo telefone.
— Seja o que Deus quiser — falei antes de tocar a campainha.
Minha mãe abriu a porta. Estremeci ao me dar conta que o sorriso estampado em seu rosto logo sumiria.
— Que surpresa maravilhosa — disse me abraçando.
— Oi mãe, é bom ver a senhora também.
— Por que não ligou avisando que viria? Seu pai teria ido busca-la no aeroporto.
— Foi uma viagem de última hora.
— E Eduardo, onde está? — perguntou olhando para os lados a procura dele.
— Ele não pôde vir... — foi tudo o que pude falar no momento.
— Ele deve estar muito ocupado com os preparativos do casamento.
Senti meus ombros caírem.
— Vamos entrar, seu pai está na igreja, mas não deve demorar. Eu estava terminando de tirar uma fornalha de biscoitos de manteiga, os seus preferidos. Acho estar adivinhando que viria.
Meu estômago embrulhou em só sentir o cheiro que vinha da cozinha.
— Como estão os preparativos? Queria poder ajudar, mas há tantas coisas para resolver na paróquia.
— Mãe...
— Seu pai está radiante.
Enquanto minha mãe falava sem parar sobre o meu casamento, eu estava pensando em como iria falar a verdade. Não demorou muito para meu pai entrar em casa e nos encontrar na cozinha.
— Olha só quem veio visitar seus pais.
— Oi pai — falei quando ele me puxou para um abraço de urso.
— Eu estava para ela sobre sua felicidade.
Chegara o momento. Não havia muito mais que eu pudesse fazer.
— Mãe, pai, eu viajei até aqui justamente para falar sobre o casamento.
Os dois se entreolharam curiosos.
— Mudaram a data? Também pudera! Vocês são loucos um pelo outro...
— Não é isso...
— Então vão adiante. Boa ideia, você está toda enrolada com o último semestre da faculdade... — disse minha mãe me cortando.
— Mãe, pai... Não vai mais haver casamento.
Vi o choque estampados nos seus rostos.
— O que você disse? — foi meu pai o primeiro a quebrar o silêncio.
— O casamento não vai mais acontecer.
— Vocês brigaram? — minha mãe quis saber.
— Não, nós não brigamos. Eduardo simplesmente me disse que não estava preparado para o casamento.
— Mas ele veio aqui, pediu sua mão — meu pai interviu.
— Fala a verdade filha, não foi apenas uma briga boba? Você tem um gênio tão forte...
— Não mãe. Ele foi bem claro em relação à se casar comigo.
— Ele não pode fazer isso. Todos da nossa igreja está aguardando esse casamento... — minha mãe começou a se lamentar.
— A igreja? E eu? Como fico nessa história?
— Vocês estão juntos a sete anos. Como ele simplesmente decidiu terminar tudo?
— Não sei pai. Não sei como ele pôde mudar de ideia se vivia falando que me amava.
— Vou ligar para Eduardo, ele vai ter que me ouvir.
— Vai ser uma perda de tempo. Eduardo deixou tudo para trás. Ninguém sabe para onde ele foi.
— Precisamos resolver isso. Você não pode simplesmente aceitar essa decisão estúpida dele.
— Mãe, por favor, a decisão já foi tomada. Mas não foi só por isso que viajei até aqui.
— Há algo pior do que saber que não vai mais haver casamento? — papai perguntou.
— Sim, quer dizer, não pior, mas...
— Mas o quê Lilian Ximenes?
Quando meu pai me chamava pelo nome completo, era porque ele estava no limite de sua paciência.
As batidas do meu coração soava tão fortes que eu estava com medo de sofrer uma parada cardíaca.
— Fale logo filha, está nos deixando aflitos — pediu minha mãe.
— Estou grávida.
Quando soltei a frase foi como se eu tivesse atingido eles com um soco. O que aconteceu em seguida foi o que eu esperava, minha mãe desmaiando e sendo amparada por meu pai.
Tentei me aproximar.
— Fique longe filha do pecado.
— Pai...
— Você trouxe a vergonha para essa família — gritou.
— Eu...
— Saia desta casa e leve sua vergonha com você.
Meu pai me deu as costas e começou a reanimar minha mãe.
Tentei me manter calma e respeitar o comportamento do meu pai. Ele acabara de receber duas notícias que não esperava.
— Eu sinto muito. Nunca foi minha intenção magoá-los...
Minha mãe começou a se mexer, dando ao meu pai a liberdade de me encarar.
— Eu soube quando coloquei os olhos naqueles garotos que a vergonha entraria nessa casa. Você sempre soube da única regra que nunca poderia quebrar. Deus jamais a perdoará pelo que fez.
— Tudo o que fiz foi por amor e essa criança é a prova disso — falei colocando a mão na minha barriga.
— Você carrega o fruto do pecado. Por isso que foi castigada. Se entregou a um homem sem receber a benção do Pai.
— Não seja tão moralista. Éramos noivos...
— Mas não eram casados.
— O senhor prega todos os domingos sobre não fazer julgamentos e perdoar qualquer pecado se ele não feriu ninguém ao ponto de não ter conserto.
— Saia dessa casa. Você escolheu seu destino quando se entregou aos pecados do mundo.
— Está me expulsando da nossa casa? — perguntei chocada com sua atitude.
— Você não pertence mais a esse lar. Não volte aqui, não ligue, não nos procure.
— Meu único pecado foi amar incondicionalmente. Entendo que o senhor e a mamãe estejam chateados, que não foi esse o futuro que planejaram para mim, mas agora preciso de vocês como nunca precisei antes.
— Filha... — minha mãe sussurrou.
— Nós te demos tudo que pediu, realizamos seus sonhos e veja como resolveu nos pagar? Tinha um grande futuro e uma carreira brilhante. Agora veja como será, mãe solteira e sem nenhuma perspectiva de vida.
— Eu sempre me dediquei aos estudos, nunca troquei minhas noites de sono por uma balada. Sempre andei conforme a lei de Deus.
— Se estivesse pelo caminho certo, não estaria grávida de alguém que sumiu sem deixar seu paradeiro. Vá embora! Não volte a nos procurar.
— Meu querido...
— Calada Estela. Estou tomando essa decisão certa. Lia sabia das regras.
Segurei o choro e encarei meus pais antes de partir.
— Meu filho é fruto de um amor puro e verdadeiro, e assim como vocês me renegam, me sinto no direito de fazer o mesmo.
Segui para a sala, peguei minha mala e saí sem olhar para trás.
— Vamos ficar bem. Eu prometo — falei passando a mão na minha barriga.