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1549 Words
Gabriel Quando cheguei em casa, fiquei alguns minutos olhando para a mansão onde eu vivi minha infância e boa parte da minha adolescência. O local tinha mais quartos do que eu poderia contar nos dedos, havia sido passado de geração para geração. Minha família era descendente de italianos, vindo para o Brasil na grande era da produção de vinho. Meus tios eram constituídos por grandes famílias, mas meus pais optaram apenas por dois filhos, por conta da vida corrida de ambos. Eu tinha um pouco mais de três anos então quando eles morreram em um acidente aéreo. Não sofri tanto com a falta deles quanto meu irmão. Por muitas vezes o flagrei chorando escondido. Com o passar dos anos, ele foi ficando mais forte e sempre pudemos contar um com o outro. Quando Lia entrou em nossas vidas foi que desmoronou tudo. Marisa, governanta de longos anos, abriu a porta para me receber. Havia uma vasta cabeleireira branca desde a última vez que a vi. — Meu menino, quanta felicidade me traz ao voltar para casa — disse ela me abraçando. — Estou de volta apenas por um curto período — falei retribuindo ao abraço. — Não importa por quanto tempo. Pensei que iria morrer sem vê-lo. — Não faça tanto drama, a senhora ainda tem longos anos pela frente. Marisa riu alto e ainda me abraçando, me levou para dentro. O ambiente ainda era o mesmo, nada estava fora do lugar. Era como se o tempo tivesse parado. Os móveis antigos misturados com a modernidade, deixando o ambiente bem mais familiar, embora somente os empregados vivessem nela. O quadro da nossa família ainda estava exposto acima da lareira. — E os meus avós, onde estão? — Estão descansando da viagem. Sabe que na idade deles, fazer uma viagem da Itália para o Brasil não é fácil. — Eu quis vir direto, mas Costa insistiu que eu precisava passar na empresa. Eduardo não honrou com alguns compromissos e eu precisei dar uma olhada em tudo. — Não fale no seu irmão... Só a menção do seu nome já deixa o meu coração sangrando — disse Marisa com voz triste. — Ele não falou nada? Algo que indicasse que ele não estava bem? — Nada. Em um dia, ele estava na mesa tomando café e falando onde iria passar a lua de mel, no outro, estava atravessando a porta da sala com a mala... E a pobre da Lia, cortou-me o coração quando eu soube que Eduardo terminou o noivado. — Chegou a falar com ela? Lia veio até aqui? — Não. Uma amiga dela ligou dois dias após o término para saber onde poderia deixar as chaves do apartamento onde os dois iriam morar. Perguntei por Lia, mas sua amiga apenas informou estar tentando ficar bem. — Custo acreditar que meu irmão tenha largado tudo sem nenhuma explicação. — Nós ainda não acreditamos — disse Marisa tristonha — por que não sobe para descansar um pouco? Está tão abatido. — Estou bem. Estou acostumado a longos períodos acordado, mas vou subir para tomar banho e trocar de roupa. — Vou mandar preparar o jantar. Macarronada ainda é o seu prato preferido? — O favorito de todos os tempos — falei sorrindo. Quando entrei no meu quarto, ainda era o quarto de um adolescente, pôsteres e bandas de “rock”, a cama de solteiro, minha mesa de estudo e cortinas com estampas de filmes de terror. Quando desci para o jantar, meus avós paternos já me aguardavam na sala de estar. Dona Beatrice foi a primeira a se levantar para me abraçar. Aos oitenta e quatro anos, ainda era uma mulher linda e forte. Seus olhos verdes m*l podiam conter a felicidade ao me ver. — Meu neto preferido... — disse me abraçando. — Vovó... — Está tão mudado, cresceu, adquiriu músculos. — Estou me cuidando um pouco. — E está fazendo um bom trabalho — disse meu avô se aproximando. Ele me cumprimentou com um aperto de mão. Meu avô é alguém de pouca demonstração de carinho, parte da sua criação. — Como foi sua viagem? — ele perguntou quando sentamos no sofá. — Cansativa. — Também pudera! Resolveu morar do outro lado do planeta. Até hoje não consigo entender porque teve que ir para tão longe — minha vó lamentou. — Foram as oportunidades. — E não poderia tê-las aqui? — Não da maneira que eu gostaria — justifiquei. Os dois não faziam ideia do meu real motivo para ficar tão longe de casa. — Já desfez as malas? — Não vovô. — Por que não? — Pretendo ficar no meu apartamento. Aqui tem muitas recordações para lidar e mesmo assim não pretendo ficar por muito tempo. Deixei grandes trabalhos no Japão aguardando meu retorno. Ficarei somente até descobrir onde Eduardo está se escondendo. — Como pode ter tanta certeza de que irá encontra-lo se nem deixar telefone de contato deixou? — minha vó soou triste. — Conhecemos a maneira como Eduardo age. Ele tem cuidado de tudo sozinho desde que assumiu a empresa. Vamos dar um tempo para ele. — Não sei o que deu naquele garoto. Nunca agiu fora da linha. E a pobre noiva, nem sei como ela deve estar — queixou-se minha vó. — A senhora falou com ela? — Eu liguei algumas vezes, mas a amiga dela é como um cão de guarda. Avisou que no momento Lia precisa de espaço. Então é o que estamos dando. — Vou vê-la amanhã. — Não acho uma boa ideia. Não tenho muita certeza se ela quer ver alguém da nossa família. — Eu preciso tentar vó. Preciso saber como ela está. Vocês vão ficar quanto dias aqui? — Vamos ficar por aqui, pelo menos por algum tempo. — Isso sim, é uma boa notícia, mas vamos logo para a mesa de jantar. Estou faminto e louco para sentir o gosto da macarronada da Marisa. O jantar, assim como a conversa, foi maravilhoso. Marisa cuidou também da minha sobremesa, mousse de maracujá. Ficamos conversando na sala de estar por mais uma hora e depois o cansaço me venceu. Despedi-me dos meus avós e fui para meu quarto. Tomei uma longa ducha para relaxar meus músculos e depois fui checar meus e-mails. Meu chefe havia mandado anexos do novo projeto para eu poder dar início. Decidi que faria isso quando estivesse estabelecido no meu apartamento. Olhei minhas mensagens no celular que ainda não tivera tempo para ver e respondi algumas enviadas por Mel. Me desculpando por viajar sem me despedir e que voltaria assim que fosse possível.  Desliguei o telefone, coloquei uma boxe vermelha e caí na cama. Não demorou muito para que o sono me pegasse. ♠ Na manhã seguinte, logo após o café, liguei para Costa e peguei o endereço de Lia. Mas antes resolvi passar no meu apartamento que eu havia ganhado de presente quando fiz dezoito anos e só ficara poucos meses antes de me mudar para o Japão. Localizado em um condomínio de alto padrão, contava até com uma pequena praia particular. Era um pouco exagerado para uma pessoa morar sozinha. Uma grande sala de estar, uma cozinha muito bem equipada e que permaneceria assim porque eu não teria tempo para usá-la. Dois quartos, um sendo suíte, e claro que fiquei com ele. Uma varanda com uma vista maravilhosa para o mar. Todo o apartamento já estava decorado, então eu não teria mais nenhum trabalho a não ser contratar alguém para mantê-lo limpo. Quando vi que estava tudo em ordem, voltei a pedir um táxi. Meu carro estava na garagem, mas estava tempo demais sem ser usando. Levaria para fazer uma checagem geral antes de voltar a usá-lo. O apartamento de Lia ficava localizado em um bairro tranquilo de Botafogo. Anunciei minha chegada à recepção e fiquei aguardando minha entrada ser permitida. Quando o segurança me liberou, fiquei aliviado. Por um momento imaginei que Lia não fosse me receber. E, na verdade, não foi ela quem me recebeu. Uma garota baixinha, com longos cabelos cacheados abriu a porta e ficou me encarando. — Está difícil me livrar da família Bianchi. O que o irmão do covarde veio procurar aqui? Sua voz estava repleta de raiva, parecia preparada para uma luta. — Não vim em defesa do meu irmão. Estou aqui apenas para visitar uma amiga. Ela está em casa? — Está descansando. Não vou perturbá-la. — Pode pelo menos dar um recado a ela? — Ela já não sofreu o bastante? Por que não deixam ela em paz? — Não sei por que motivo Eduardo fez isso, mas não estou aqui por ele. — Quem é Ana? Só em ouvir o som da sua voz, meu coração quase saltou pela boca. Ana tentou me esconder, mas Lia apareceu do lado. Nossos olhos se encontraram e a surpresa tomou conta dela. Seus olhos castanhos que antes eram tão brilhantes, deram lugar a um olhar triste e vazio. Seu rosto estava mais fino e longas olheiras eram visíveis em seus olhos. Seus cabelos estavam soltos, como sempre gostava de usar, mas estava uma bagunça. Vestia um blusão da Mulher Maravilha que ia até os joelhos. Mas apesar de tudo o que estava passando, ainda era a garota por quem havia me apaixonado.
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