Terei que fazê-lo entrar nos trilhos.
Bufando, Taehyung pela janela do carro olhava em desprezo para aquela cidade pequena e medíocre do interior. Revirando os olhos, o Kim pegou seu celular e mudou de música, colocando em uma mais agitada, distraindo-o do mundo afora.
A cidade tinha uma paisagem rural; o céu estava escuro, praticamente nublado, e nuvens carregadas d'água o preenchiam, dando um aviso que logo mais iria começar a chover, molhando a grama e os indivíduos que perambulavam pela rua não asfaltada. A umidade estava alta, resultando em acontecer uma pequena camada de neblina sobre o chão, parecendo gelo seco. Aos lados, continham algumas árvores em forma de pinheiros, com um pouco de neve ainda formada nas pontas, indicando mais uma vez que a temperatura estava muito gélida. As casas eram de designs parecidos; pinturas de tons pastéis, cercado de madeira tingida de branco e um jardim perto das janelas arredondadas.
Kim Taehyung era um ômega mauricinho; tinha cabelos loiros, lábios rosados, mãos fortes, estrutura corporal mediana, um rostinho esculpido por deuses e um torso cheio de detalhes e curvas deslumbrantes. Taehyung desde pequeno teve tudo o que desejava na mão, com apenas um comando ele ganhava tudo o que queria, por isso foi expulso de algumas escolas e não tinha amigos no qual confiava, tudo por sua ganância de querer ter algo a mais, e principalmente, ter algo na hora que pedia. Se Kim Taehyung queria, não o subestime, ele conseguia.
Percebendo o automóvel onde estava aos poucos ir desacelerando, Taehyung nem mexeu um mísero músculo, apesar, não queria estar ali mesmo. Suspirando fundo, o ômega revirou os olhos quando notou seu motorista abrir a porta do carro, indicando que haviam chegado no destino onde ficaria por um bom, longo e entediante tempo.
Aproximando-se da beirada do banco, Taehyung olhou ao motorista em puro deboche e pela primeira vez em toda a viagem disse:
— Não vê que você parou em um lugar cheio de lama? Não irei descer aqui. — E como um bom mimado que era, Taehyung voltou a sentar dentro do carro luxuoso novamente.
— Mas senhor, o lugar é todo assim. — O beta, que era o motorista há anos do ômega, tentou dialogar.
— Se vire, comprei esse tênis ontem e não estou a fim de sujar. — Taehyung arrumou os fones em seu ouvido e cruzou os braços, esperando o empregado fazer algo.
Coçando a nuca desconcertado, o motorista conhecia bem aquele ômega, e qualquer coisa que fizesse errado ou que prejudicasse o bem estar dele, estaria demitido na certa. Pensando, pensando e pensando, os minutos passaram e então uma ideia não muito brilhante veio a mente do beta, que antes preparou-se mentalmente para fazer tal ação.
Tirando o blazer preto que usava com muito custo e dor, até porque a vestimenta foi comprada com o mínimo de dinheirinho que ganhava no mês, o motorista jogou-o no chão e olhou novamente para o ômega, dizendo calmo logo depois:
— Pronto, o senhor pode passar.
— Finalmente, daqui a pouco eu mofava aqui. — falou estressado. Pegando seu celular, Taehyung desceu do carro pisando sem dó nem piedade na vestimenta do beta. — Agora traga minhas malas. — mandou.
Andando em direção a enorme casa onde o empregado disse que passaria quase quatro anos, o Kim tocou a campainha e esperou por um, dois e três minutos para alguém aparecer. Vendo a porta sendo aberta, o loiro não retribuiu o sorriso que a empregada da mansão lhe deu, apenas queria ir ao seu quarto se deitar.
— Aqui que mora Kim NamJoon? — Foi direto.
— Sim. — O sorriso da mulher não se desfez pelo m*l humor alheio. — Irei chamá-lo. — avisou.
— Faça isso logo.
Cruzando os braços, Taehyung bateu o pé direito impaciente no chão e arqueou uma sobrancelha quando viu suas malas ao seu lado, todas separadas em cores e empilhadas uma em cima da outra.
— Vaza, pode ir embora... — O Kim falou ao motorista, que prontamente concordou com a cabeça, curvando-se noventa graus e correndo ao carro para ir embora, ou melhor, para "vazar".
— Taehyung?
Taehyung saiu de seus pensamentos quando uma voz grave chamou-lhe pelo nome.
— Kim Taehyung. — corrigiu.
— Oh, sim, desculpe-me. — Ele sorriu, mostrando as covinhas que tinham ao lado de suas bochechas. — Sou Kim NamJoon, prazer. — O alfa ofereceu sua mão para o menor pegar.
— Sei. — Taehyung nem fez questão de cumprimentá-lo adequadamente, somente olhou-o de cima a baixo em desdém. — Posso entrar?
— Claro. — Se recompôs, dando espaço para o Kim Taehyung entrar.
— Pegue minhas malas. — mandou, como se o maior fosse seu servo.
— Voc-...
— Aqui não tem internet, não? Ou pelo menos sinal? — Taehyung perguntou, andando de um lado para o outro com o celular a altura de seu rosto.
— Não. — NamJoon negou, trazendo aqueles objetos pesados do loiro para dentro de sua casa.
— Hum — bufou —, onde é o meu quarto?
— Taehyung, seus pais o explicaram por que veio para cá? — O Kim aparentemente mais velho perguntou, suspirando fundo.
— O quê? Sim, eu só vim para estudar e vou embora. — NamJoon riu. — O que foi? Está rindo do que, palhaço?
— Você veio para nos ajudar aqui.
— Ajudar? — Agora foi Taehyung que riu. — Ajudar em que, por acaso?
— Se você ainda não percebeu, isso é uma casa-fazenda, seus pais o mandaram para cá para ver se tem um pouco de disciplina.
— Que babaquice é essa? — O ômega franziu o cenho. — Acho que parei no lugar errado, pois se entendi bem, você quer que eu o ajude nesse lugar?
— Não, não, você não entendeu nada errado. Uma coisa te digo, não somos seus empregados, então você não manda mais em ninguém. — disse sério. — E uma das primeiras regras daqui é: limites para celulares.
— O quê!? — gritou, apavorado. — Eu vou ligar para meus pais, alguma coisa deve estar errada... hey, me devolve agora! — Taehyung tentou pegar o celular que foi tirado de sua mão pelo alfa. — i****a!
— Segunda regra, não toleramos pessoas m*l-educadas, então não grite, estou do seu lado. — O Kim cruzou os braços.
— E qual é a próxima regra? Não posso mais dormir? Ou melhor, ouvir música? — perguntou enraivado, ainda tentando pegar seu celular.
— Não será eu que te dirá as regras. — falou. — E como eu disse antes, ninguém é seu empregado, então leve suas malas ao seu quarto sozinho.
— O quê?
— Vamos, seu dormitório é no segundo andar, três quartos à direita.
— Não vou levar tudo isso sozinho.
— Você vai, e quando terminar, estarei lhe esperando aqui na sala.
Arregalando os olhos, Taehyung ficou inconformado; odiava muito mais seus pais naquele momento! Não acreditava que seus progenitores iriam deixá-lo ficar com aquelas pessoas sem classe —e desconhecidas — por mais de vinte e quatro horas, na verdade, ele iria ficar lá por quatro anos! Aquilo era muito tempo!
Suspirando fundo, o Kim finalmente percebeu que aquele alfa metido a b***a estava falando sério. Com muito sufoco, o ômega pegou todas suas malas e tentou se lembrar de onde era seu quarto, assim por sorte, achou o lugar e jogou toda a bagagem no chão. “Que alguma empregada venha arrumar”, ele pensou consigo mesmo.
Descendo novamente os degraus da mansão, Taehyung foi a sala, e como dito, aquele tal de NamJoon estava lá lhe esperando.
— O que tenho de fazer agora? Deitar no chão e rolar? — debochou.
— Muitas coisas.
— Fala logo, não tenho o dia todo.
— Sim, você tem. — O ômega mandou para NamJoon o dedo do meio. — Agora sente-se.
Fazendo o que foi pedido, Taehyung cruzou as pernas e olhou cerrado em direção para o alfa.
— Temos várias coisas aqui nessa casa para você fazer, e várias pessoas moram nela, você terá de aprender a conviver. — disse. — Sua escola é a noite, e é o cozinheiro da casa que irá te passar todas as regras da mansão, coisas que você deve e não deve fazer.
— Tanto faz.
— Uma atitude fora da linha e você perde algo.
— Está bem, cadê o empregado? Quero saber das porras das regras logo.
— Perdeu seu celular de vez. — Levantou-se.
— Oi? — Ficou em pé também. — Não perdi, não. — Taehyung até tentou avançar no alfa quando ele guardou seu aparelho eletrônico no bolso da calça jeans, mas foi interrompido por uma mão em sua cara.
— Boa sorte. — NamJooon saiu andando. — A cozinha fica à esquerda.
Taehyung poderia ter um infarto de raiva ali mesmo. “Que merda é essa!?”, o Kim ainda estava achando que aquilo poderia apenas ser uma pegadinha sem graça.
Andando até a cozinha, o loiro encontrou um cozinheiro... e ele tinha... uma beleza esplêndida!
— Você é Kim Taehyung?
— Sou.
— Kim SeokJin. — Sorriu, educado. — NamJoon deve ter o mandado aqui para eu dizer as regras, certo?
— Sim. — respondeu olhando em volta. "Não é nada m*l", Taehyung mordeu a pontinha da língua.
— Preste atenção, estou falando com você.
— Você não manda em mim.
— Sou mais velho e você está na minha casa, então mando sim.
“Essa é a casa dele!? Desse mero cozinheiro!?”, Taehyung encontrava-se com um charmoso e grande ponto de interrogação em sua testa.
— É sua casa?
— Sim. — O tal de SeokJin lavou as mãos, que outrora faziam a massa de um bolo. — Sente-se ali. — Apontou a cadeira perto da mesa.
— Está bem.
Fazendo o que agora foi mandado, o Kim viu aquele ômega tirar algo do forno e por em cima da bancada. Olhando para Taehyung, SeokJin sabia que aquele menino era mais uma encrenca para sua casa, iria ter que colocá-lo nos trilhos.
— Sou o dono dessa mansão e você precisa me tratar com respeito, assim como deve tratar com respeito NamJoon, pois ele é meu marido. — Taehyung revirou os olhos — Não cumprimos seus gostos e não iremos mimá-lo e muito menos paparicá-lo.
— f**a-se.
— Não aceitamos palavrões nesse lugar. — falou. — Então guarde sua língua e seus pensamentos para si. — Suspirou. — Temos regras e uma delas é que deve trabalhar nesse lugar, seja com a limpeza, alimentação ou cuidar dos animais.
— Não vou fazer nada, não vim para cá para isso.
— Sim, você veio. — afirmou prontamente. — E fique sabendo que você, nesse instante, não manda em nada.
— Isso é uma prisão, por acaso?
— Enten-...
SeokJin foi interrompido por uma gritaria que chegou a cozinha, tal ato feito por uma criança que deveria ter seus cinco anos.
— Volta aqui, seu pestinha! — Um ômega de fios ruivos correu atrás do filhote, que dava voltas por SeokJin, tentando se esconder de seu hyung brincalhão.
— O que pensam que estão fazendo? — Jin arregalou os olhos, assustado e envergonhado pelo vexame que estava passando.
— Hyung, segura ele! — O de cabelos avermelhados gritou. — Segura ele, não deixe-o fugir!
— Jeon Jungkook e Jung Hoseok, quero que os dois parem de correr agora!
“Esse SeokJin é bravo mesmo”, Taehyung pensou um tanto assustado.
— D-Desculpa, hyung. — Jungkook foi o primeiro a se acalmar, assim logo sentiu Hoseok o pegar no colo.
— Peguei você... — O rapaz suspirou fundo, talvez aliviado. — Desculpe-nos, Jin-hyung.
— Vocês poderiam ter se machucado! Nunca mais corram pela casa! — Jin apontou aos dois, mas sabia que sua ordem uma hora ou outra seria quebrada.
Saindo da cozinha depois da repreensão, os dois nem tinham visto o novo morador da casa.
Voltando sua atenção a Taehyung, SeokJin ditou as regras, uma por uma, detalhe por detalhe, explicação por explicação; odiava erros.
— O que irá querer fazer?
— Nenhum.
— Vou te colocar para dar banho nos porcos.
— Não! — Levantou. — Eu cuido disso. — Apontou ao jardim com seu dedo cumprido e magro. — É o mais fácil. — disse.
— Hum... está bem.
— Só isso? Posso subir?
— Pode. — respondeu. — Você tem que estar de pé às seis e meia da manhã.
— O quê!?
— É a essa hora que nosso melhor jardineiro começa a trabalhar.
Revirando os olhos, Taehyung assentiu.
Estava muito, mas muito ferrado.