Jennie Lee Park
Agora me encontro na frente da minha antiga casa, o lar das minhas memorias mais nostálgicas. Eu vive minha vida praticamente inteira em uma cidade do interior. A nossa casa é bem simples e pertence à família a sete gerações. Meus pais é um militar. Minha mãe uma dona de casa. Meus avôs paternos vivem com eles, assim como minhas duas irmãs mais novas.
Hiro se encontra ao meu lado, lhe dei o máximo de informações que pude. Esperava amenizar a situação se conseguisse fazer com que ele tivesse noção de onde estava se metendo. Estava torcendo mentalmente para sair dessa sem tocar no elefante branco no meio da sala. O fato inegável de que o Hiro é Japonês. Para o meu pai se a Corrêa e o Japão estão na olimpíada e caso a Correa ganha do mundo todo, mas perde para o Japão, nós somos perdedores. Sim, meu pai xenofóbico. Está será nossa maior barreira nesta noite.
Respirei fundo algumas vezes enquanto encarrava a campainha. Minhas mãos estão suando frio. Sinto que posso desmaiar a qualquer momento. Não me pergunte por que a aprovação da minha família é tão importante, mas é. Isto tudo já seria difícil em condições normais. Porém temos muitas barreiras extras. Iniciando pelo fato ser repentino. Por termos pulados algumas etapas, tendo em vista que deveria apresenta-lo como namorado primeiro e só depois como noivo. Sem falar que não conheço Satoki o suficiente para responder perguntas sobre ele. Ensaiamos uma história de romance falsa para nos. Por que as perguntas padrões como: onde se conheceram? Quem deu o primeiro beijo? Com certeza surgiram em algum momento da noite. Ainda assim não me sinto nem um pouco mais segura ou aliviada.
Apesar da nostalgia de estará aqui, tenho certeza que não quero retornar. A vida pacata foi minha tortura pessoal na adolescência. Ao sentir que estou prestes a ser desmascarada e obrigada a retornar, meu estomago se revira. Porém, não posso adiar mais. Agradeço mentalmente que Satoki não me perguntou o que eu estava fazendo ou por que estava demorando tanto e então finalmente toco a maldita campainha.
O som irritante de sino antigo ecoou pelas paredes internas da casa de madeira. Logo estávamos atravessando os muros. No jardim interno já era possível ver meu pai. Ele estava podando as plantas. Um ato ameaçador e simbólico. Engoli em seco. Deus me ajude.
— Boa noite, papai — tentei soar o mais fofa, delicada e amistosa possível.
— Minha princesa— ele disse se aproximando e abraçando meus ombros em um ato possessivo e mais afetuoso que o padrão. Ótimo, agora ele está tentando ressaltar o quanto sou uma filha preciosa para ele.
— Pai, este é meu noivo, Hiro Satoki — disse distanciando-me de seu abraço.
— Boa noite senhor — Hiro disse de forma polida e educada. Fazendo uma pequena reverencia direcionada normalmente aos mais velho em sinal de respeito. Ele não parecia nem um pouco amedrontado por toda a sena.
— Hm, sim, prazer rapaz — respondeu o mais velho com certo desinteresse e passou a caminhar em direção a sala. Aonde minha mãe e irmãs aguardavam. Não havia nenhum sinal dos meus avôs, onde será que estão? Talvez o papai tenha os convencido a não se intrometerem. Provavelmente seria mais difícil intimidar Hiro com meu avô o repreendendo.
— Mana — minha irmã mais nova correu para me abraçar. Este realmente um ato natural. Sorri em resposta, correspondendo seu toque. Fazia bastante tempo dês da última vez que nos encontramos.
— Quando tempo, Chae-won, como você cresceu! — comento.
— Você notou. Eu disse Gyeong, estou muito mais alta— ela disse animada.
— Ela só está puxando seu saco — Gyeong respondeu sem deixar sua posição ao lado da mamãe.
— Chega vocês duas. Modos — papai cortou a animação e o clima retornou a tensão anterior.
— Sim pai — ambas disseram juntas.
— Mãe, meninas. Este é meu noivo, Hiro — Apresentei.
— Cuide da nossa Eonni — Gyeong disse de maneira educada mais descontraída.
— Pode deixar — Hiro disse.
—Ele é tão bonito. Como se conheceram? — Chae-won questionou.
— Ele me ajudou com os estudos um dia— disse lhe mandando meu melhor sorriso.
— Vamos deixar o papo para depois, vamos comer— papai a interrompeu.
Todos seguimos até a mesa. Sento-me ao lado de Hiro. Ele ainda mantem a expressão traquila e por um segundo me pergunto se sou a única tensa aqui. Quer dizer, ele devia ser o mais nervoso entre nos. A expressão corporal do meu pai é uma tentativa obvia de tentar amedronta-lo impondo sua presença e tamanho. Ele não é mais alto que Satoki, mas definitivamente os anos no exército o tornaram mais forte. Minha mãe serviu a comida e todos comemos em silencio completo. Ainda assim trocava olhares tensos com todos na mesa.
— Então você é Japonês — papai indagou e quase me engasguei com a comida. Não era uma pergunta, mas não sabia disser se era uma acusação.
—Sou — Satoki foi direto.
— O que faz no nosso pais? Quero dizer, além de roubar a vaga na universidade de um dos nossos. Você não passou em medicina na sua cidade natal — papai acusou. d***a! Era isso que temia. Ele não deixaria isso passar despercebido obviamente.
— Na verdade, passei em primeiro lugar para Tokyo University e a vaga que ocupo na Chung-ang foi criada unicamente para estrangeiros. Além disso pago a mensalidade normalmente — Hiro respondeu demonstrando tanta tranquilidade e didática que eu mesma me senti burra. Não havia uma real intenção de se gabar em sua fala e isso era perceptível, porém a sua aura superior se mostrou presente e com isso notei a expressão do meu pai se endurecer. — Já sobre o que faço aqui. Queria construir algo sem a ajuda dos meus familiares. Conquistar minha independência — ele completou e com isso a expressão do papai se suavizou minimamente. Ele admira pessoas que querem atingir seus objetivos sem ajuda e provavelmente isto seria suficiente para conquista-lo se não fosse a nacionalidade dele.
— Sendo assim, posso perguntar como paga pela faculdade? — sentia que meu pai queria pegar Hiro em um mentira. Afinal eu havia lhe dito que como estudante de medicina Satoki não tem tempo para um emprego de tempo integral.
—Bem, eu trabalho para o laboratório universitário. Ajudo o reitor com alguns documentos. Tenho um trabalho de meio período no hospital de seul. As vezes dou aulas particulares para outros alunos — Hiro respondeu ainda mantendo a serenidade.
— Wow. Isso é incrível — Gyeong emitiu e recebeu um olhar repreensivo do nosso pai.
—Você deve ser muito inteligente — Papai comentou. Uma armadilha. Ele quer que Satoki se gabe.
— Sim, ele é. Ele recebeu o prêmio de melhor aluno três vezes seguidas — interrompi.
— Isso é uma vergonha para nós. Como um estrangeiro ganha dos locais. Devia selecionar melhor os alunos da Chung-Ang — rebateu. Engoli em seco novamente.
— Mãe, Tem sobremesa? — perguntei tentando mudar de assunto.
— Fiz sua favorita — ela respondeu.
—Que bom mãe, estava com saudades da sua comida — disse levantando e seguindo com ela para a cozinha. Torcendo para que tudo ficasse bem na sala enquanto estamos aqui. Quer dizer o papai não pode ser mais grosseiro. Pelo menos Hiro parece não ligar muito para seus comentários.
— Fique tranquila. Seu pai gostou dele — mamãe comentou.
— Bem, não é o que parece— disse.
—Sabe como ele é, além disso depois que ele se acostumar com o fato dele ser japonês, vai ficar tudo bem — ela disse colocando sobre a mesa Dasik perfeitos. Resisti a vontade de pegar alguns enquanto mamãe preparava o chá.
—Em algum momento ele vai se acostumar com isso? — questionei.
—Seja paciente— foi tudo que ela disse antes de retornarmos a sala.
O clima da sala não havia mudado. Papai permanecia com aquela pose. Poucos conversamos no restante da noite. Apenas pequenos comentários surgiam gerando momentâneas discursões. Conseguia perceber que minhas irmãs gostaram bastante de Hiro. Mamãe parecia indefinível. A falta de expressividade dela sempre me incomodou. Principalmente que sei que geralmente ela não demonstra o que pensa para não contrariar meu pai.
Pelo menos o jantar não durou muito mais. Quando achei que era o suficiente me levantei desejando a todos uma boa noite e me desculpando por não poder ficar mais tempo. Porém tinha ao meu favor a desculpa perfeita de que tínhamos uma longa viajem pela frente e ainda estamos em período de provas.