A ligação inocente

1370 Words
A Ligação inocente Daniela Marçal O café da manhã foi em silêncio, mas não tenso. Eu havia me recuperado da noite anterior, e Xavier garantiu que a minha mãe estava... protegida. Eu precisava ligar para ela, mas precisava ter certeza de que o meu discurso seria convincente. Ele me levou para a biblioteca, um lugar de paredes grossas onde ninguém me ouviria. Respirei fundo e toquei no número. A voz da minha mãe, otimista e doce, preencheu o telefone. - Dani, meu amor! Que bom ouvir sua voz. Estou ligada na TV aqui, mas a internet está uma loucura! Você viu? Seu nome e o nome de um tal de... Lancaster? O que está acontecendo, filha? A mídia está revirando sua vida! Senti um nó se formar na minha garganta. Ela estava genuinamente confusa, sem ideia da tempestade que eu estava enfrentando e, mais importante, sem nenhuma suspeita sobre o parasita que ela chamava de marido. A cegueira dela era real. - Mãe, calma, respira. - Eu tentei soar divertida. - Não é “um tal de Lancaster”. É o Xavier Lancaster, mãe. O CEO da empresa que eu trabalho, ele que me deu a oportunidade de ingressar no projeto que me trouxe para o Reino Unido. E sim, a mídia está revirando minha vida, mas por um bom motivo. - Bom motivo? O que pode ser bom em ter a vida exposta assim? - Sua voz carregava a preocupação, mas também uma ponta de deslumbramento pela menção de estar envolvida com o meu chefe. Eu me inclinei sobre a mesa, sussurrando como se fosse um segredo. Era o plano de fuga que eu havia inventado. - Eu vou me casar, Mãe. Com o Xavier. Houve um silêncio longo e profundo do outro lado da linha, seguido de um grito abafado de surpresa. - Meu Deus, Daniela! Casamento? O Xavier? Aquele homem... ele é lindo, filha! E rico! Mas por que tão de repente? - Por amor, Mãe. - Menti com uma facilidade assustadora. Eu precisava que ela acreditasse nessa história, precisava que ela estivesse feliz e distraída. - Nós nos apaixonamos. Foi rápido, eu sei, mas quando é para ser, é assim. Ele quer se casar logo, e a mídia está histérica porque eu sou... eu. Eu enfatizei a parte da 'eu' para manter a narrativa de conto de fadas. O casamento era a minha armadura, a desculpa pública perfeita para a presença de Xavier na minha vida e a proteção que ele estava me oferecendo. - Então, o que a mídia está dizendo é que você está dando o golpe do baú, é mentira? - Ela riu, parecendo orgulhosa e completamente aliviada. - Claro que é mentira, não acredite no que estão falando, mãe. Vão ter pessoas felizes, e vão ter pessoas querendo fazer pouco da nossa união. Mas vou me casar, tenho uma menina que já me chama de mãe... – Fico emocionada. - Oh, meu Deus, que notícia maravilhosa, filha! Você merece! E... e você está feliz?" - Muito, Mãe. Muito feliz. - Menti novamente, forçando uma alegria na voz. A felicidade dela era o meu único objetivo. Enquanto ela estivesse distraída com a notícia, estaria segura. - Eu te ligo amanhã para contar os detalhes. Só queria que você soubesse por mim antes de sair em todos os jornais do Brasil. - Eu te amo, minha princesa. Você fez bem! Desliguei o telefone, o peso da mentira me esmagando. Eu a tinha convencido. Ela estava nas nuvens, completamente alheia ao fato de que o 'bom motivo' do casamento era, na verdade, um desesperado ato de sobrevivência contra as sombras que ela se recusava a enxergar ao lado dela. Eu olhei para o meu reflexo. A noiva bilionária. O sorriso era falso, mas a determinação era de aço. Agora, era hora de enfrentar o verdadeiro custo dessa proteção. Encostado na porta estava ele, Xavier não estava vestido para ir a empresa. - Confia em mim? - Disse vindo em minha direção. - O que você está armando... - Perguntei me levantado e indo em sua direção. - Vamos fugir. - Senti meu olhos abrirem mais do que deveria. - Vamos sair um pouco de cidade. Ele beijo a minha mão, Xavier vivia me beijando agora. - Se a Olívia for junto... - Xavier ri. - Ela já está arrumado a mala. - Acabei rindo também. A Confiança Cega Xavier Lancaster A chamada de vídeo foi criptografada e rápida. Estava no meu quarto, mas a postura era novamente a do CEO de bilhões, apesar de estar vestindo uma camisa de flanela e jeans. Brian, do outro lado da tela, em sua casa, parecia surpreso com o cenário em que Xavier estava lhe colocando. - Brian, estou te passando controle total da empresa, até eu voltar. - Declarei, sem preâmbulos. Brian, o único homem em quem eu confiava cegamente para tocar o império Lancaster, ajustou os óculos. - Controle total, doido? O que significa isso? Você nunca me deu mais de 60% de autonomia nem quando estava em coma de tequila em Ibiza. Ignorei a piada. - Significa que por pelo menos uma semana, e talvez mais, você é o CEO Interino e o único ponto de contato. Qualquer decisão que envolva fusões, aquisições importantes, ou a mídia, você toma. Não me ligue a não ser que o planeta esteja em chamas. E mesmo assim, considere o bombeiro antes de me incomodar. Brian franziu o cenho, percebendo a seriedade. - Você nunca sumiu assim, Xavier. É por causa da Daniela, não é? O que a mídia está chamando de 'golpe do baú'?" - A mídia está errada, como sempre. – Retruco com a voz baixa e tensa. - A Daniela não está me dando um golpe; ela está me dando a verdade. E essa verdade tem nome: Orlando Silva. Ele é o padrasto dela, e ele a assombra desde a adolescência. Ele viu o choque nos olhos de Brian. Xavier era um predador; Brian era o caçador de armadilhas. Ele entenderia. - Ele a machucou. - Xavier sibilou. - A fúria m*l contida. - Ele tentou, eu tenho certeza! E ela tem vivido em função de proteger a mãe desse parasita. Eu não vou aceitar isso, Brian. - Jesus Cristo, Xavier. - Brian sussurrou. - E o que você vai fazer? Você nem tem certeza de nada e já quer a cabeça do homem. Seu - Desde quando eu preciso ter certeza de algo? - Que Deus tenha piedade, porque quando você cisma... - Primeiro, vou tirar Daniela do Reino Unido. Preciso me redimir, em uma semana é o aniversário da Olívia, depois o casamento. – Brian coça a barba. - Você quer que eu lide com Orlando? - Brian perguntou, pronto para mobilizar seu arsenal legal. - Não. Orlando é meu. É pessoal. - Afirmei, irredutível. - Mas você vai me dar a infraestrutura. Preciso de um relatório financeiro completo sobre Orlando Silva. Contas bancárias, dívidas de jogo, histórico imobiliário. Cada centavo sujo. Use todos os recursos de inteligência corporativa da Lancaster. Quero a vida dele exposta até os ossos. Mande tudo para um e-mail descartável. E mantenha isso zero rastros. Brian assentiu, a compreensão e a lealdade brilhando em seus olhos. - Entendido. Você some, eu governo. Eu quebrarei as regras legais. E eu entrego Orlando nas suas mãos, de bandeja. Parece justo, vou te cobrar um iate. - Reviro os olhos. - Exatamente. Eu levo Daniela para o lugar mais isolado do planeta, longe de toda essa sujeira, para que ela possa começar a se curar. E você me dá as ferramentas para eu destruir o monstro que a persegue. - Considere feito. - Brian prometeu, a voz grave. – E a sua sogra? – Paro e penso. - Vou pensar nisso, mas se for confirmado o que eu estou pensando. Nem ela vai querer saber dele. - Okay... E Xavier... cuide-se. E cuide dela. Este parece ser o seu verdadeiro noivado. Apenas assenti e encerrei a chamada. A máscara de Dom havia caído completamente; ele era agora o guardião e o vingador. Ele olhou pela janela pensando em neve. Levaria elas para brincar na neve, enquanto eu Brian armava tudo para mim.
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