A missão do boneco de neve
Daniela Marçal
Depois de nos empacotar em camadas e mais camadas — minha nova jaqueta, providenciada por Xavier, era estranhamente mais leve e mais quente que qualquer coisa que eu já tive —, saímos para o terraço.
A neve era cegante. Era imaculada, brilhando com milhões de cristais de gelo sob o sol alpino. O ar cortava, mas era tão limpo que eu me senti instantaneamente mais desperta.
— Pronta para o trabalho duro? — Xavier me perguntou, os olhos azuis apertados contra o brilho.
— Nascida pronta — respondi, tentando soar mais confiante do que realmente estava. Eu estava prestes a me equilibrar em duas tábuas ou a moldar o que parecia ser cimento congelado.
Olívia já estava na ponta da varanda, começando a rolar uma pequena bola de neve.
— Temos que fazer três esferas, mamãe! A de baixo tem que ser a maior!
O resto da manhã foi uma dança. Xavier, surpreendentemente, não estava apenas supervisionando; ele estava ativamente envolvido. Olívia e eu tentamos rolar a primeira bola. Era pesada, desajeitada, e eu quase caí para trás.
Foi aí que Xavier entrou.
— Deixe mostrar como um CEO lida com resistência de mercado, quando o papai quer, ele consegue. — ele brincou, mas havia uma seriedade nos olhos.
Ele se ajoelhou, empurrando a bola de neve de Olívia. Em vez de apenas forçar, ele usou um movimento circular e consistente, e a bola, de repente, começou a crescer rapidamente e de forma perfeitamente esférica. Sua força era inegável, mas o que me impressionou foi a paciência em ceder o controle à pequena Olívia.
— É uma lição de gerenciamento, Olívia. Não use a força; use a alavancagem — ele disse à filha, que riu com a neve nos cílios.
Eu os observei por um momento, meu peito se encheu de novo com aquela mistura de calor e perigo. Ali estava o homem que comprava e vendia corporações, no meio de uma nevasca simulada, ensinando uma criança a otimizar um projeto de boneco de neve. Ele estava... feliz. Um sorriso relaxado, a testa livre das preocupações do mundo financeiro.
Uma Trégua Inesperada
Quando chegou a hora de levantar a esfera do meio, Xavier nos instruiu a trabalhar juntas.
— Na contagem de três. Eu levanto vocês duas guiam. Concentração.
Nossas mãos tocaram a neve fria. No momento em que levantamos o gelo, o corpo de Xavier estava perto o suficiente para que eu sentisse o calor irradiando dele novamente. Por um segundo, a tensão voltou. Não era uma tensão de medo, mas de proximidade física inegável. Nossos olhos se encontraram e o mundo pareceu diminuir para apenas nós três e o boneco de neve.
— Isso! Perfeito! — Olívia gritou, alheia à corrente elétrica que passava entre os pais.
Ao final, o boneco de neve de Olívia (e de Xavier) estava imponente. Ele tinha olhos de botões de um paletó antigo de Xavier e um cachecol vermelho emprestado de Olívia.
Xavier se levantou, tirando a neve das luvas, e olhou para mim.
— O que você achou do seu primeiro dia na neve?
Eu senti a alegria simples e surpreendente de estar ali, fora da gaiola, fora da mídia, fora da minha própria cabeça.
— Foi... libertador. Obrigada, Xavier. Por me deixar esquecer de tudo, mesmo que por algumas horas.
Ele não respondeu imediatamente. Apenas me olhou com aquela intensidade penetrante.
— Isso é apenas o começo, Daniela. Eu disse que cuidaria de você. E cuidar significa... restaurar. Não vou deixar que o mundo ou sua própria ansiedade roubem sua alegria.
Ele estendeu a mão novamente, como havia feito na noite anterior, mas desta vez, não era para me guiar na escuridão, era para me convidar de volta para o calor.
— Agora, venha. Você precisa de outra dose de chocolate quente e de uma lareira. E depois, temos a tarefa de encontrar uma cenoura para o nosso novo amigo.
Peguei a mão dele. Desta vez, o choque não foi tão elétrico; era mais como um retorno familiar. Nossas mãos se entrelaçam naturalmente, a formalidade desfeita pela neve e pelo riso de uma criança. Eu sabia que a trégua na neve havia acabado. O que estava começando era algo muito mais profundo, e estava sendo construído com a mesma paciência e atenção aos detalhes com que ele havia construído nosso refúgio... e nosso boneco de neve.
Um Novo Plano de Alavancagem
Xavier Lancaster
O calor do chalé me atingiu como uma onda de conforto assim que a porta se fechou. O cheiro de pinho e chocolate era o antídoto perfeito para o ar cortante da montanha. Olívia disparou na frente, gritando sobre o destino do único botão que restava na minha jaqueta, o qual, segundo ela, seria o "olho estratégico" do boneco de neve.
Eu tirei minhas luvas, observando a neve derreter nos pelos da palma da minha mão. Virei-me para Daniela, que estava tirando a jaqueta. Seus movimentos eram mais suaves, o rosto corado pelo frio e pelos resquícios de um sorriso genuíno. Por um breve momento, ela parecia ter a mesma idade de Olívia, livre de qualquer fardo. Isso era progresso. Isso era restauração.
— Você não estava mentindo, Marçal — comentei, pegando sua jaqueta de forma instintiva e pendurando-a ao lado da minha. — Você realmente nasceu pronta. Eu a teria contratado para liderar a força-tarefa da esfera base.
Ela riu, e o som era leve e surpreendente.
— É uma pena que meu contrato seja um pouco diferente, CEO. Mas, confesso, o seu método de alavancagem foi impressionante. Menos força bruta, mais eficiência. Eu deveria ter esperado.
Aproximei-me, parando a uma distância que eu considerava segura, mas que, na verdade, estava no limite da minha própria compostura. Seus olhos, que eu já vi tantas vezes refletindo a luz fria de uma sala de conferências, agora tinham o brilho quente do fogo.
— Gerenciamento, Daniela. Não se trata apenas de construir. Trata-se de planejar a próxima fase. E eu já tenho o nosso próximo passo mapeado.
Eu me encostei no balcão da cozinha, cruzando os braços, observando-a enquanto ela pegava uma caneca de chocolate quente. A caneca era dela, a que ela havia escolhido na noite anterior — um padrão de flocos de neve sutil.
— Esta manhã foi uma trégua. Uma redefinição de variáveis — declarei, o tom voltando a ser o de um homem de negócios, mas com um subtexto que só nós dois conseguíamos decifrar. — Você se libertou do ambiente de estresse por algumas horas. Isso é bom. Mas não podemos parar no primeiro sucesso.
Olívia voltou, cenoura em mãos, e fez um som de “hum” antes de se concentrar em seu próprio chocolate.
— Papai, você tem que levar a mamãe para esquiar!
Eu sorri para a minha filha, que era a catalisadora mais eficaz que eu já havia empregado.
— É exatamente isso que eu estava prestando o briefing, Olívia.
Voltei-me para Daniela, deixando que toda a minha concentração se dirigisse a ela.
— O boneco de neve foi a introdução, o ambiente controlado. Agora, temos que escalar. Não vamos apenas ficar no terraço. Você já disse que queria esquecer a ansiedade e o mundo. Eu tenho o veículo perfeito para isso: as montanhas.
Eu peguei uma maçã sobre a fruteira, girando-a distraidamente.
— Você me disse que precisava de restauração. Estou aqui para garantir isso. O que isso significa, de fato? Não é apenas paz. É superação. É confrontar o que te deixa tensa em um ambiente onde o único risco é físico, e não emocional ou financeiro.
Dei um passo à frente, diminuindo a distância inicial que estabeleci.
— Amanhã de manhã, você vai ter sua primeira aula de esqui. É um risco calculado. Vai exigir foco total. Vai exigir que você use o corpo, não a mente. E a paisagem... a paisagem vai te lembrar que há coisas maiores do que a sua caixa de entrada de e-mail.
Daniela me encarou, o calor do chocolate subindo em seu rosto. Eu vi a hesitação, mas também o brilho de um desafio.
— Eu nunca esquiei na vida, Xavier. Eu sou terrível com esportes que envolvem velocidade e declive.
Eu sorri, um sorriso genuíno, talvez o mais relaxado que eu já a permiti ver.
— É por isso que é perfeito. Você vai aprender a confiar. Vai aprender a cair, a levantar, e a descer a montanha. Você vai sair daqui sabendo que pode dominar qualquer coisa. E o mais importante... eu vou estar lá.
Eu não estava falando apenas do esqui. Estender a mão na neve, construir o refúgio, oferecer a aula... Eu não a convidaria de volta para o frio. Eu a convidava a confiar em mim, totalmente.
— O que me diz, Daniela Marçal? Você está disposta a aceitar o novo projeto? É uma oportunidade única de mercado. E eu sou o seu mentor particular.
Coloquei a maçã de volta no balcão. Não era um pedido. Era uma declaração de intenção. O próximo passo não era apenas sobre ela, mas sobre nós três, construindo um novo tipo de equilíbrio nesta montanha.
Obrigada pelos comentários e bilhetes lunares 🥰