P.O.V Melissa
O cérebro humano é extremamente lindo e misterioso, pessoas podem ouvir a voz de quem ama mesmo estando em coma por meses, e até mesmo podem perder a memória durante um acidente e recuperá-la um tempo depois quando vê a pessoa que ama, este era o caso das minhas mães.
Por muitas vezes, ouvi antes de dormir a história de como minha mãe havia saido de seu banco e abraçado a mim e a mamãe para proteger-nos do acidente de carro, era uma das minhas histórias preferidas, pois mesmo quando uma ficou em coma e a outra perdeu a memória elas se amaram.. O amor delas nunca deixou de existir. Era isso que eu queria para mim, um amor como aquele.
Olhei para o banco ao lado, Katie dormia serenamente apesar de estar numa péssima posição, olhei para o tio Oliver que dirigia tranquilamente pela estrada escura ouvindo música em seus fones e ao seu lado minha mãe dormia recostada na janela, voltei minha atenção para minha melhor amiga, o fato dela estar ali para me apoiar nessa jornada e de nunca ter criticado a minha vida conturbada me fazia pensar as vezes que era isto que eu queria encontrar em um parceiro. Aquela lealdade e amor.
- Psiu.. - direcionei meus olhos para o retrovisor interno do carro encontrando os olhos castanhos do Oliver me observando. - De quantos meses você está? - ele questionou após um tempo quieto.
- Farei cinco meses. - murmurei baixinho em resposta.
- Como a Natalie nunca.. - ele se calou, talvez com medo de estar sendo inconveniente, e até poderia ser, visto que ele era um completo desconhecido para mim, mas algo em seus olhos me fazia confiar nele.
Não sei se por que ele era o melhor amigo da mamãe, ou por que a única lembrança que tenho dele é o seu abraço apertado.
- Não somos próximas, ela está sempre na delegacia, ou cansada jogada no sofá, e eu.. - olhei para baixo vendo o volume em minha barriga. - Eu escondi muito bem com roupas largas, não que precisasse já que ela nunca esteve tão perto de mim.
- Pensei que vocês ficariam mais unidas depois que..
- Não. - respondi friamente desviando o meu olhar para a janela do carro. - Parece que isso quebrou a todos.
- Você não sabe o que aconteceu não é!? - ele mais afirmou do que perguntou. - Minha filha, Emily, não quis saber o que houve com seus pais biológicos, ou com o Danny.. Ela só fingiu que nada disso aconteceu.
- Danny era o seu marido? - perguntei curiosa, mas pela forma que ele apertou o volante em suas mãos percebi que era uma péssima ideia tocar naquele assunto.
Eu sabia que havia muitos segredos, que eram delicados, que havia muita mágoa e dor, mas tudo aquilo era minha vida, e eu estava cansada de nunca saber de nada.
- Estamos próximos da minha casa. - ele murmurou voltando a colocar seus fones no ouvido. - Podemos passar a noite lá..
- Achei que nosso objetivo fosse encontrar logo a mamãe..
- E vamos. - ele me interrompeu. - Mas se passaram anos e não podemos sair de carro por ai sem nenhuma pista ou um plano. - concordei com a cabeça apesar de que minha vontade era fazer tudo de modo rápido.
O resto do trajeto foi feito em silêncio, aproveitei para pensar no que seria daquele bebê vivendo naquela família caótica, eu sequer tinha terminado meus estudos, ou tinha escolhido uma carreira ainda, e pelo visto em alguns meses nada disso seria mais possivel.
Ao menos, nós ainda tinhamos a Katie.
Olhei para a mulher ao meu lado que ainda dormia, inclinando-me um pouco em sua direção apoiei sua cabeça em meu ombro para que ela ficasse mais confortável, seu rosto afundou-se na curva do meu pescoço onde seu nariz acariciou minha pele suavemente me fazendo arrepiar.
Me chutei mentalmente por ter um coração bobo que acelerava por qualquer razão, e acariciando minha barriga me lembrei do por que eu e a Katie sempre seríamos apenas amigas.
Eu era uma adolescente órfã, adotada, com uma mãe dada como morta e outra completamente distante, sem contar que engravidei de um qualquer.. Nada na minha vida era bom, eu já fui abandonada mais vezes do que era capaz de contar, é por isso que a Katie, aquela garota de doces olhos verdes e sorriso marcante, jamais iria querer estar com alguém tão quebrada como eu.
Recostei minha cabeça na sua e fechei os olhos enquanto permanecia com a mão sobre meu ventre, eu esperava muito que os segredos que separa minha familia não afetassem esse bebê.
- Está fazendo minha cabeça de travesseiro.. - ouvi a morena sussurrar baixinho com a voz rouca e sonolenta. - Está tudo bem? - ela perguntou ainda de olhos fechados enquanto passava sua mão por minha barriga a depositando sobre a minha que descansava ali. - Este pacotinho está se comportando?
- Sim, está tudo bem com a gente, apenas minhas costas que doem muito. - murmurei baixinho em resposta adorando ter a mão dela ali.
- Quando chegarmos eu te faço uma massagem. - assenti com a cabeça mesmo que ela não pudesse ver.
Respirei fundo ignorando meus hormônios enlouquecidos, sim, eu achava melhor culpar os hormônios da gravidez ao invés de admitir que a minha melhor amiga mexia comigo de maneira que eu não era capaz de descrever.
- Chegamos! - Oliver anunciou alto enquanto a minivan desacelerava.
Assim que estacionamos sai rapidamente sem esperar a ajuda da Katie, minha mãe tinha um lado da sua cara amassada e ainda parecia tentar se situar, já eu, precisava urgemente ir ao banheiro, comer muito e deitar numa cama.
- Pessoal.. - Oliver chamou a atenção de nós três, parei um instante para observar aquela casa que parecia uma mistura de velha e abandonada. - Passaremos a noite aqui. - ele comunicou, e em instantes surgiu uma morena alta extremamente linda com um sorriso animado.
- Desde que o meu pai avisou que vocês viriam eu não acreditei que finalmente as conheceria. - vi minha mãe dar um sorriso cansado e a Katie erguer a sobrancelha para mim, ato que sempre me causava calafrios.
- Emy, elas estão cansadas.. Ajude a Mel a entrar. - ele apontou para mim e logo pude sentir sua mão envolver minha cintura e me puxar suavemente para longe da Katie.
- Então, você é a minha prima? - perguntei me permitindo ser guiada por ela para dentro da casa.
- Tecnicamente não, nossos pais eram amigos. - ela respondeu ainda sorrindo. - Meu pai não me disse que você era tão bonita, só há fotos suas pequena por aqui.
- Filha, deixa a Melissa respirar um pouco. - Oliver pediu enquanto nos afastava um pouco para poder abraçá-la.
Finalmente me permiti observar a casa, por dentro era extremamente moderna e tecnológica, Katie parou ao meu lado depositando duas mochilas no chão e parando pra observar a casa também ela sorriu.
- Acreditei que dormiriamos entre aranhas e poeira, mas aqui é bonito..
- Tudo por aqui é lindo demais. - concordei com ela enquanto passeava meus olhos pelos móveis da sala mas ao recair em suas orbes verdes notei que ela me encarava de um jeito nada agradável.
- Se refere somente a decoração ou a modelo estupidamente linda que não é sua parente? - franzi o cenho deixando um sorriso incrédulo escapar, antes que eu pudesse responder algo meus olhos recairam sobre um móvel com várias fotos espalhadas.
- Este é o Danny, e esta foto das suas mães eu tirei no dia que saimos do hospital. - Oliver pegou o retrato com um sorriso nostálgico. - Guardo essa foto para me lembrar de como a Natalie se acabou toda naquele acidente mas continuou linda.
- Não acredito que esse é o motivo! - minha mãe deu um tapa estalado no braço do tio Oliver que dramatizou fingindo que doeu.
- A verdade é que.. - ele suspirou cobrindo o rosto com a mão livre parecendo envergonhado por chorar.
- Meu pai disse que o amor não pode ser visto, mas ele tem certeza que o amor estava ali no momento exato que tirou essa foto. - Emily explicou enquanto se aproximava e abraçava seu pai.
Por instinto minha mão buscou pela da Katie que logo entrelaçou nossos dedos como se já soubesse que eu precisava daquilo.
Pode haver muitos segredos, mas também havia muito amor.