CAPÍTULO 03
Pistas de Sangue e Sombras
Após descobrirem o real objetivo da missão, os agentes contataram a central da SION para enviar o relatório detalhado e solicitar os equipamentos necessários para a caçada em campo aberto.
— Vou solicitar uma equipe especializada de contenção para limpar este laboratório — afirmou Neytan, mantendo o olhar estratégico sobre o mapa.
— Tudo bem. Vou tentar encontrar pistas sobre o paradeiro da garota — disse James, carregando seu armamento. — Pelo que vi nas câmeras, as imagens são de poucas horas atrás. Estamos em um deserto. Sem água e a pé, ela terá que buscar recursos em algum dos postos avançados.
— Eu fico — decidiu Ana. — Vou vasculhar os terminais de dados. Talvez existam arquivos que não foram mostrados na projeção principal.
Enquanto o trio se organizava, uma silhueta misteriosa os observava imóvel do topo de uma colina distante, desaparecendo entre as dunas antes que qualquer sensor pudesse detectá-la.
James partiu em direção aos acampamentos militares com um esquadrão de batedores. O silêncio do deserto foi subitamente quebrado por uma explosão ensurdecedora, seguida por gritos agonizantes vindos do quadrante norte.
— O que foi isso? — James gritou sobre o ronco do motor.
— Veio do acampamento principal! — respondeu o motorista, acelerando o veículo blindado.
Ao chegarem, o cenário era de caos. Soldados feridos rastejavam pelo chão enquanto outros disparavam freneticamente contra as rochas. James saltou do carro e agarrou um dos oficiais feridos.
— O que aconteceu aqui, soldado?
— Intrusos... — o homem cuspiu sangue. — Eles invadiram o perímetro. São os mesmos que atacaram o laboratório original.
— Como? — James franziu a testa. — Houve uma segunda invasão?
— Sim... recebemos o alerta de brecha no sistema minutos antes da fuga daquelas "coisas". Mas quando chegamos para reforçar o laboratório, já não havia ninguém vivo.
James sentiu um nó no estômago. Havia peças faltando nesse quebra-cabeça. Quem seria louco o suficiente para invadir uma base militar e um laboratório governamental simultaneamente?
O som de tiros de precisão ecoou metros à frente. James sacou sua arma e avançou taticamente entre as rochas. Ao encurralar um dos invasores que tentava recuar, o agente foi mais rápido. Esquivou-se de um disparo e atingiu a perna do suspeito, chutando a pistola dele para longe antes que pudesse revidar.
— NÃO SE MEXA! — James rugiu, pressionando o cano da arma contra a têmpora do homem. — Para quem você trabalha? O que vocês vieram buscar?
— Calma! Eu falo! — o homem gritou, tremendo de dor. — Fomos pagos por gente poderosa... muita grana para roubar a patente de um projeto secreto.
— Que projeto? As crianças modificadas?
— Crianças? — o mercenário soltou uma risada nervosa. — Aquelas coisas são meta-humanos, armas de guerra! O laboratório foi só uma distração, amigo. O objetivo real era a fórmula. Por que roubar o bolo, se podemos roubar a receita?
O homem desmaiou antes de dizer mais nada. James ficou paralisado. A missão não era apenas sobre uma fuga; era sobre uma conspiração de espionagem industrial em escala global.
Enquanto isso, no laboratório, Ana lutava contra o sistema de segurança digital.
— Isso não faz sentido... Por que apagariam metade dos arquivos e deixariam o resto? É como se estivessem escolhendo o que queriam que a gente encontrasse.
— Encontrou algo? — A voz de Neytan surgiu logo atrás dela, fazendo-a dar um sobressalto.
— Estão tentando apagar rastros específicos — explicou Ana, recuperando o fôlego. Ela então se virou, encarando-o seriamente. — Você sabia disso desde o começo, não é, Neytan? Sobre a substância e os invasores?
Neytan manteve a expressão imperturbável.
— Assim como você, eu apenas sigo as ordens que recebo, agente.
O silêncio entre os dois tornou-se denso, carregado de uma tensão que ia além do profissional. Neytan foi o primeiro a desviar o olhar.
— Vamos informar a Interpol. O sol está se pondo e James pode precisar de apoio.
Irritada com a esquiva dele, Ana fechou o notebook com força e passou por ele sem dizer uma palavra. Neytan a observou partir, permitindo-se um sorriso de canto quase imperceptível antes de segui-la.
No setor oposto do acampamento, James avistou vultos se movendo em direção a uma área de mata densa. Ele se aproximou silenciosamente e viu algo que fez seu sangue ferver: crianças pequenas trancadas em jaulas, todas com dispositivos metálicos acoplados aos pescoços.
Ele se esgueirou até a jaula enquanto os sequestradores discutiam.
— Vamos abandonar esses pirralhos! — gritou um dos homens. — Já temos a patente, não precisamos mais deles. Mate-os e vamos embora!
James agiu rápido. Usando seu kit de gazua, abriu o cadeado e fez um sinal de silêncio para as crianças.
— Fujam para as rochas. Eu cuido deles.
Nesse momento, um veículo utilitário preto surgiu entre as árvores e parou bruscamente. Dele saiu uma figura envolta em uma manta preta e avermelhada. Uma voz feminina, fria e autoritária, ecoou:
— Onde está a substância?
— Na maleta — respondeu o líder dos mercenários.
Antes da entrega, James arremessou uma granada de luz entre eles. O clarão cegou os criminosos enquanto os reforços da SION, chamados por Ana, invadiam o local. No meio da fumaça e dos tiros, James viu a maleta jogada ao chão e correu para pegá-la.
No mesmo instante, uma mão feminina, pequena mas incrivelmente forte, segurou o outro lado da alça. James olhou para cima e encontrou os olhos da mulher misteriosa sob o capuz. Por um segundo, o mundo parou.
Ela desferiu um golpe brutal no abdômen de James, lançando-o para trás.
— JAMES! — Ana gritou, disparando contra a mulher.
A desconhecida moveu-se com uma rapidez sobre-humana, desviando dos projéteis como se pudesse prever a trajetória de cada bala. Com a maleta em mãos, ela correu em direção à vegetação escura, desaparecendo entre as sombras e as rochas antes que os soldados pudessem cercá-la.
— James, você está bem? — Ana correu até ele enquanto o tiroteio com os mercenários continuava ao fundo.
— O experimento... ela levou — James disse, levantando-se com dificuldade, a respiração pesada. — Cuide das crianças, Ana. Eu vou atrás dela!
James correu na direção em que a mulher desapareceu, mas sua mente estava em outro lugar. O choque não era apenas pelo golpe ou pela falha na missão. Era por causa daquele breve olhar.
— Aqueles olhos... — sussurrou para si mesmo enquanto entrava na mata. — Eu conheço aquele olhar.
Continua...