CAPÍTULO 3
Ela tentava se convencer de que realmente estava se esforçando. Mesmo que tivesse o lápis descansando no lábio, e seus olhos estivessem no Sr. Padeiro, que estava dormindo na mesa de Daisy.
Emma estava invejando aquele felino. Tão sereno, sendo acariciado pelas mãos macias da fotógrafa que parecia concentrada demais para perceber o quanto ele estava ronronando, deleitando-se com todo o carinho que estava recebendo em sua barriga rechonchuda.
Sua carência estava chegando em um nível preocupante, do tipo que a faria tomar decisões extremamente duvidosas. Ela definitivamente precisava da noite tão badalada que suas amigas haviam prometido.
“Emma, preciso que você veja se o material que Rose deixou na copiadora está pronto.” Ivy disse, surgindo do nada. Emma quase furou o próprio olho com o susto que tivera.
“Eu? Isso não é meu trabalho.” Reclamou. Ela odiava fazer até mesmo as próprias obrigações, então pensar em fazer favores para os outros era simplesmente fora de cogitação. Ela cansava antes mesmo que a outra pessoa pudesse terminar de fazer o pedido.
“Por favor, Emma. Josh trata todo mundo m*l, menos você. Da última vez ele... ele disse que eu estava usando calças iguais a da avó dele.” Ela disse com os olhos lacrimejando. Não que isso fosse algo muito pesado, mas o tom irônico que ele usava era o suficiente para ferir a sensível autoestima de Ivy.
Josh era o cara da copiadora, e um dos seres mais desagradáveis de todo o prédio. Ele era uma daquelas pessoas viciadas em jogos e histórias em quadrinho, mas não fazia o estilo introvertido. Ao contrário, ele fazia questão de falar o máximo de atrocidades que ele conseguisse. Josh tinha prazer em xingar as pessoas e diminuir elas. As chamando de feias ou esse tipo de coisa. Mas ele ultrapassava todos os limites quando era homofóbico com Connor.
Normalmente ele tinha medo de Daisy, que já o havia chutado uma vez, então quando ela aparecia ele apenas fazia tudo de cara feia e não falava nada. E ela do mesmo jeito. Daisy preferia morrer a ter que dirigir a palavra a ele.
Mas ele tinha uma queda por Emma, sempre a tratando bem. Quer dizer, ao menos ele achava que estava fazendo um bom trabalho quando tentava flertar ou ser menos nojento. Então era até comum ela acabar ouvindo essas súplicas esporadicamente, quando alguém estava em um dia r**m demais para encara-lo. Não que fosse possível ter um dia bom trabalhando na McAllister, mas havia vezes que ultrapassada a linha do estresse aceitável.
Como se não fosse suficiente, ele era sobrinho de Rose. Provavelmente algum tipo de fracassado da família que precisava de emprego, e talvez fosse por isso que a chefe de Emma o atribuiu esse cargo e a maioria das vezes ignorava a existência dele lá.
“Ivy... já falamos para você não dar ouvidos as coisas que aquele i****a fala.” Daisy respondeu.
“Eu tento, ok? Mas... ainda assim é difícil. Por favor, Emma!” Ela pediu novamente, dessa vez pegando o Sr. Padeiro da mesa da frente. Daisy fez menção de reclamar, mas pareceu ter lembrado que Ivy era a tutora do gato, de qualquer forma.
Nos braços dela, ele se remexia inquieto. Quase como uma criança que recém aprendeu a andar e se recusa a ficar nos braços da mãe. Mas ela o segurava com força, detendo os movimentos dele, o obrigando a ficar em seu colo. Era agonizante a cena que estava se sucedendo, ainda mais que Sr. Padeiro começou a miar.
“Tudo bem, tudo bem. Mas você vai ser minha secretária pessoal pela próxima semana inteira.” Ela propôs.
Emma nunca teve uma secretária, mas sempre fantasiou com isso. Ela sendo editora-chefe de uma revista, com suas lacais para atender as suas necessidades mais fúteis. Então toda vez que ela tinha a oportunidade de barganhar algo com algum colega de trabalho, ela pedia serviços como esse. Eram semanas particularmente agradáveis quando isso acontecia, por mais que tivesse que fazer favores como aquele antes.
“Tudo bem. Mas eu não vou buscar café para você do outro lado da cidade, nem fazer nada que beire o trabalho escravo.” Emma revirou os olhos, já percebendo que não teria muitas mordomias dessa vez.
“Que seja, mas nada além disso.” Avisou. Se ela pusesse mais condições, não seria de tanta utilidade no fim das contas.
E felizmente Ivy saiu de sua frente, antes que o Sr. Padeiro começasse a arranhar seu rosto na frente delas, pois era exatamente isso que parecia está prestes a acontecer.
Ela massageou as têmporas e respirou fundo. Ela definitivamente odiava a McAllister com todas as suas forças.
“Ei, se ele tentar alguma coisa, não hesite em nenhum momento em me falar, certo?” Daisy avisou quando ela estava saindo.
“Sim. Pode deixar que irei avisar caso precise dos seus músculos lesbicos.” Ela disse sorrindo.
Parecia uma espécie de caminhada da vergonha ir para a sala de Josh, todo mundo que fazia o percurso já era observado por olhares cheio de pena.
Ela parou em frente a toca do dragão, ajeitando a saia, para que ela cobrisse mais as pernas, porque sim, ele encarava ao ponto de ser desconfortável. E então ela entrou. O lugar fedia a cheetos, o que deu uma leve ânsia em Emma a fazendo quase tampar o nariz por instinto.
“Josh?”
“Ah, olá, Emma. Como você vai?” Ele disse passando a mão no cabelo oleoso, provavelmente achando que isso era um ato bastante sedutor ou algo dessa natureza.
“Bem.” Ela não iria perguntar como ele estava, não queria dar motivos para ele achar que poderia continuar falando com ela, ou que Emma gostaria de manter um diálogo completo. “Você já terminou com o material que Ivy deixou aqui? Rose precisa dele com urgência.”
“Já estava acabando.” Ele tentou pegar uma pilha de resmas de papel, em uma exibição de virilidade, mas acabou derrubando os pacotes. Emma queria se enterrar viva com a vergonha alheia que estava sentindo.
“Foi m*l, acabou escapando.” Ele disse vermelho.
Josh tinha uma verruga na bochecha, que quase alcançava a boca. Emma tinha certeza que seria impossível beijar aquele homem sem passar a língua por aquela coisa, e só de imaginar ela sentiu um arrepio na espinha, que ficou mais intenso quando ela mirou o cavanhaque dele.
Como ele ousava ser m*****o com as pessoas com uma aberração daquela no rosto? Pensou.
Ele se apoiou na copiadora, esperando a máquina fazer o resto do trabalho, e abriu aquele sorriso de dentes exageradamente brancos, por um claro excesso de produtos usados inadequadamente para esse tipo de coisa.
“Então, você está livre essa noite?” Perguntou descaradamente.
Emma queria muito ter um apito agora, daqueles que eles dão na universidade no primeiro dia e dizem que é para evitar assédio. Uma coisa dessas seria muito útil para todas vezes que Josh tentava chegar perto dela.
“Sim. Na verdade eu estarei muito ocupada por todas as noites desse ano, para ser sincera.” Disse sem se preocupar em fazer um falso pesar. Ela não se importava nenhum pouco se ele iria notar que estava sendo rejeitado deliberadamente. Ivy tinha medo dele, que ele se ferrasse. Por mais que ela não fosse amiga dela, havia aquele quê de sororidade, mesmo que ela fosse uma v***a com a maioria das garotas do escritório.
Para Emma, só ela tinha o direito de distratar as pessoas sem motivos. Mas ela gostava de pensar e acreditava que era questão de sororidade mesmo. A fazia se sentir uma boa pessoa.
“Isso não pode ser possível, você simplesmente ter um compromisso para cada noite até o fim do ano.” Ele disse com um sorriso de descrença.
“Certo? Parece realmente inacreditável.” Disse cínica.
“Se você não quer sair comigo, basta dizer.” Respondeu com um semblante de mágoa.
“Não quero sair com você.”
Agora ele parecia bravo. Talvez estivesse tentando fazer alguma espécie de chantagem emocional antes, mas todo o teatro acabou, já que ele não contava com a sinceridade de Emma. Josh estava de ego ferido, era óbvio.
“E por que não? Você é igual àquela sua amiga, por acaso? Porque isso seria um baita de um desperdício.”
Emma sentiu suas orelhas esquentarem de tanta raiva que a dominou em questão de segundos. Ela realmente não estava acreditando.
“O que diabos você quer dizer com isso, Josh?” Questionando se perguntando se ele teria a ousadia e coragem de repetir o que havia dito. Ele engoliu em seco, parecendo receoso, mas logo estufou o peito em sua típica postura agressiva.
“Ora, isso mesmo que você ouviu. Só sendo como sua amiga para você rejeitar tanto a ideia de sair comigo.” Ele tinha um sorriso zombeteiro, daqueles de quem sabia que estava falando algo r**m e o fazia de propósito.
“Você é nojento, por isso não vou aceitar seu convite. Seu i****a patético.” Emma alcançou os papéis que já haviam saído da máquina, e os juntou com pressa com o que estavam em cima da mesa ao lado.
“Vamos, me desculpe. Estava apenas brincando.” Ele tentou justificar, mas era apenas porque sabia que Emma nunca mais seria minimamente civilizada com ele novamente depois disso, e que ela provavelmente nunca aceitaria um convite para sair. Não que ele tivesse chance antes, mas agora estava mais claro que água cristalina.
“Vá se ferrar, seu...” Não conseguindo achar algo que fosse ofensivo o suficiente, ela olhou ao redor e viu uma figure action do Batman. Antes de sair, ela empurrou o boneco fazendo-o se espatifar no chão. A última coisa que ela viu foi apenas o olhos arregalados de Josh olhando para o seu brinquedo desmembrado.
Certo, talvez ela tivesse acabado de sair da lista de pessoas que ele gostava.
“Está tudo bem?” Daisy perguntou quando ela voltou para seu lugar de origem.
“Na medida do possível.” Forçou um sorriso, sem querer que sua amiga soubesse das coisas desagradáveis que Josh havia dito anteriormente.
Emma não sairia da própria mesa para entregar a papelada, até porque isso daria a chance de Rose perguntar como estava o artigo, e ele ainda estava pela metade e ela faria qualquer coisa para preencher o que faltava. Então ela esperou pacientemente uma Ivy com um arranhão no pescoço ir até sua mesa para pegar o que precisava.
Pelo resto do dia ela tentou diluir a raiva que estava sentindo de Josh, e lixou as unhas tentando pensar em algo para seu trabalho. Ela perguntava algumas coisas a Daisy, mas infelizmente ela não tinha o conhecimento de moda que Madison tinha. E nessas horas, sua amiga loira seria bem mais útil.
A hora de ir embora já havia chegado, e ela decidiu que não iria mais torrar seus neurônios com algo que ela estava pouco se importando e poderia fazer depois. Daisy a ofereceu uma carona, já que ela estava com uma mochila pronta no carro, levando suas coisas para que pudesse se trocar no apartamento de Emma. Era tudo parte do plano do dia anterior, para que elas saíssem juntas para mesma boate ou bar.
Como sempre acontecia, Daisy era a primeira a ficar pronta, aproveitando para ficar deitada na cama, enquanto Madison e Emma ficavam andando de um lado para o outro pelo quarto.
“Por que vocês perguntam minha opinião como se eu fosse uma especialista ou algo assim?” Daisy questionou tirando os olhos do telefone para olhar o quinto vestido que Emma estava experimentando naquele dia.
“Você é o mais próximo que temos da opinião masculina.” Madison explicou.
“Isso é... ofensivo e reforma estereótipos, sabia?” Perguntou de cenho franzido.
“Sim, sim, agora me diga se você me pagaria uma bebida se eu estivesse usando essa saia.” Madison perguntou ignorando o que ela dissera.
Daisy se calou, fitou a roupa que ela estava usando, e de bochechas coradas disse: “Sim.”
“Certo, agora eu preciso de uma blusa que combine com essa jaqueta...” Ela disse virando-se de costas e quase esbarrando em Emma, que estava há trinta minutos de roupa íntima sem saber o que vestir.
O quarto ficou um caos, com roupas sendo jogadas pela cama, e um mar de sapatos no chão. Daisy já estava considerando desistir e se embriagar em casa quando elas, enfim, ficaram prontas.
“Algo me diz que a noite vai ser longa hoje.” Madison disse enquanto elas esperava um Uber.
“Espero que você esteja certa.” Emma respondeu.
Mas ela não fazia ideia do que a aguardava aquela noite.