CAPÍTULO 4
Emma adorava aquela atmosfera de boate. Luzes piscando, fumaça de gelo seco e corpos suados na pista. Talvez não esperassem isso dela, mas seus anos de brilhantina foram em lugares muito piores. Não que ela estivesse assumindo grandes responsabilidades agora, mas os perfis das festas normais que ela frequentava agora é bem diferente dos pandemônios recheados de universitários sarados da época da escola.
Ela e as amigas estavam no bar, bebendo a segunda dose de tequila seguida. Emma sentia seu esôfago queimar e seus olhos encherem d’água. Fazia algum tempo que ela não bebida algo tão forte, estava mais acostumada a suavidade dos vinhos tintos, mas depois de dois shots, ela estava totalmente ligada. O que era uma má ideia, ela sequer havia feito uma refeição antes de sair de casa para não correr o risco de ficar inchada, e agora estava bebendo como se não precisasse trabalhar no dia seguinte.
“Sinto como se pudesse beber mais uns cinco desses.” Madison gritou, para que pudessem ouvi-la já que o barulho era ensurdecedor.
“Acho melhor ir mais devagar.” Emma alertou, pegando o pequeno copo da mão dela antes que Madison pudesse beber mais uma vez.
“Vocês já viram algum possível pretendente?”
“Nossa, Daisy, não esperava isso de você hoje.” Madison disse colocando a mão no peito fingindo surpresa.
“Você sabe que estou me referindo a alguém para Emma.”
“Não, até agora não apareceu ninguém no meu radar.” Disse estreitando os olhos, tentando ver alguma coisa. Mas estava um pouco escuro. Talvez perto da mesa do DJ ela conseguisse uma visão melhor, havia mais luzes por conta do pequeno palco.
“Vamos, larguem essas bebidas e vamos dançar.” Madison disse puxando as duas para a pista.
Não estava tão lotado ao ponto de ser sufocante, elas conseguiam se mexer bem à vontade, mas isso fora porque ainda estava cedo. Quanto mais o tempo passava, mas cheio o lugar ficava, e Emma já sentia algumas pessoas roçarem em seu corpo quando passavam por perto.
Ela não maneirou na bebida como estava planejando, nem conseguiu controlar Madison por muito tempo. Na realidade, as três pareciam sedentas e com uma necessidade de álcool equivalente à de adolescentes na puberdade na primeira festa do ensino médio, quando eles acham que ficar bêbado os tornam mais legais. Mas ela estava sã. Ela jamais ficaria com alguém se não estivesse plena de suas faculdades mentais.
Emma sentia suas mãos um pouco dormentes, e era nesses momentos que ela sabia a hora de dar uma pausa. Ela tinha experiência suficiente para entender o próprio corpo, e quais o limites dele.
Quando ela voltou para pista, ela se soltou sem nenhum pudor. Passava as mãos pelo corpo enquanto dançava, sentindo o cabelo grudar na nuca por conta do suor, deixando a música guiar seus movimentos. Os olhos fechados, o lábio entre os dentes, ela estava sentindo um daqueles momentos de êxtase, quase como se estivesse tendo uma epifania.
E então os homens começaram a se aproximar. Madison e Daisy ficavam na visão de Emma, para que elas se certificassem de avisar se ela deveria dar atenção aos pretendentes que chegavam por trás. Alguns não chegavam nem a colocar as mãos em sua cintura, e suas amigas já gesticulavam chamando sua atenção, para que ela se afastasse a tempo.
Havia um filtro bem específico que elas elaboraram enquanto estavam a caminho da festa. Nada de homens usando camisas polo ou ensacadas, ou camisas polo ensacadas, nada de cabelo com gel, ou o pior de todos, homens usando mocassins. Nenhum homem que esteja usando mocassins em uma boate é digno de atenção ou confiança. Mas Emma parecia ter um imã para esse tipo.
Até que houve uma hora em que ela sentiu um corpo quente atrás de si. As meninas olharam por cima do ombro dela, e se entreolharam. Daisy deu de ombros e Madison levantou o polegar em um sinal para que ela fosse em frente. Mas ela devia ter imaginado que pelo modo como ela parecia entusiasmada demais, havia algum detalhe que Emma havia perdido. E ela estava certa.
Quando ela virou-se, deu de cara com um peitoral que mais parecia um muro. O homem era enorme, e tinha músculos saltantes que fazia parecer que sua camisa branca iria rasgar a qualquer momento. Cabeça raspada, tatuagem no antebraço. Ele com certeza se encaixava na categoria. Não que ela estivesse procurando aquele tipo especificamente, mas ele era o oposto do que ela estava acostumada. E esse era o intuito, não?
Ela ainda estava um pouco assustada, e quase pensou que seria uma boa ideia perguntar de que presídio ele havia saído, mas ela se conteve e apenas jogou as mãos no peito dele. Seus olhos se arregalaram quando ela percebeu que ele era... duro. Todo o corpo dele parecia rígido demais, bruto demais, quase como uma mistura de rochas e muito shake de proteínas.
Ela deu as costas para ele novamente, se esfregando contra aquela parede de concreto, e procurando olhar das amigas para perguntar com os olhos por que diabos elas achavam que essa era uma opção viável. Agora ela iria encarar, porque sua mãe não havia criado uma garota fraca. Poderia correr o risco de não conseguir andar no dia seguinte, porque pelo aperto que ele estava dando em sua cintura, Emma imaginou que ele não deveria fazer o tipo delicado.
Deus a ajudasse...
Mas poderia ser uma ótima transa, quem sabe? Ela não saberia se não tentasse. Poderia valer o risco. Esse era o objetivo da noite, certo? Tentar algo diferente.
Ela continuou mexendo os quadris, percebendo que ele estava ficando cada vez mais colado ao seu corpo depois que havia ganhado o consentimento para se aproximar. E ela fingiu ignorar a estranheza que estava causando-lhe o fato da virilha dele está praticamente na base de suas costas.
Ela tentava a todo custo jogar a sensação de estar prestes a protagonizar um daqueles vídeos pornô hardcore para o fundo de seu subconsciente, começando a caçar coisas nele que a deixassem minimamente excitada. Ela iniciou pela tatuagem. Era bom, era descolado. Uma caveira em chamas, bem garoto malvado. Tinha um piercing também, na sobrancelha, isso era muito quente. E talvez não fosse de todo r**m ele ser tão grande, ela poderia bater nele o quanto quisesse, ele nem iria sentir nada. A última parte realmente começou a causar um certo efeito nela, foi quando ela decidiu partir para a próxima fase.
Emma puxou ele pela camisa e o beijou. O grandalhão que se virasse se curvando, ela que não iria ficar de ponta de pé para fazer as coisas funcionarem, suas panturrilhas ainda estavam doendo do dia anterior.
Ele pareceu um pouco surpreso pela iniciativa, porque todos os homens eram assim. Ou se chocavam com mulheres com atitude, ou simplesmente ficavam com o ego nas alturas, achando que eles eram gostosos demais ao ponto da garota não resistir. A maioria das vezes, era só porque elas não queriam dar a oportunidade deles abrirem a boca para falar alguma besteira, como Emma sentia que seu parceiro iria fazer caso ela não pulasse para a parte que ambos estavam interessados.
Ela sabia que eles não iriam ligar no dia seguinte, e mesmo que ligassem, ela não tinha interesse em fazer de um estranho qualquer seu futuro marido. Então tudo era uma questão de poupar tempo. Prático e rápido. Às vezes até mais rápido do que ela gostaria.
Atom, como ela apelidou carinhosamente em sua mente, beijava relativamente bem. Ele tinha uma língua grande, como tudo relacionado a ele, mas ele conseguia a manter sob controle de modo que não a sufocava tentando enfia-la em sua garganta. Ele estava indo bem, e a ideia de que ele poderia ser ótimo no sexo oral a empolgou, fazendo ela o beijar com mais intensidade.
“Você quer dar uma saída?” Ela perguntou no ouvido dele. Claro que ela iria para o banheiro fazer um test drive antes, é sempre bom ter uma prévia para instigar ou descartar de vez. Era realmente detestável o clima de tensão que ficava quando você levava um caso de uma noite para sua casa e as coisas não saiam como o imaginado. Ou quando eles acabavam roubando suas coisas, como já aconteceu com Madison uma vez. Então era fundamental o momento degustação.
“Claro.” Ele confirmou abrindo um sorriso. Foram poucas palavras, na verdade só uma, mas Atom tinha uma voz bastante grave. Mais um ponto excitante.
Houve uma ou duas caretas quando eles furaram a fila para entrar em uma das cabines do banheiro feminino, mas ninguém parecia ter coragem de reclamar. Todos sabiam como funcionava esses lugares, muito provavelmente devia haver outros casais fazendo sexo naquele mesmo instante em alguma lugar do banheiro masculino também, então não havia muito do que se envergonhar.
Emma não perdeu tempo e já foi tirando a camisa dele. O fato dele estar sem uma peça de roupa e ela totalmente vestida a dava uma estranha sensação de controle, ela gostava de ir por esse caminho. Em seguida, ela agarrou o rosto dele e o beijou novamente, só que agora era muito mais obsceno por conta da privacidade que as quatro pequenas paredes da cabine proporcionavam. Atom pegou suas coxas e a suspendeu, para que ele não precisasse se curvar, e aproveitou para passar as mãos por suas pernas e b***a. Atom afastou os lábios dos de Emma, e partiu para o pescoço, beijando e chupando, enquanto ela, meio ofegante, tinha vontade de revirar os olhos pensando nas marcas que teria que cobrir quando fosse para a McAllister no dia seguinte.
“Eu preciso tirar a calcinha.” Avisou. Ela não precisava não. Poderia muito bem só colocar para o lado e continuar o que estava fazendo, mas ela queria ver quando ele colocasse o p*u para fora. Era um momento de análise que durava segundos, mas era extremamente minuciosa em sua cabeça.
Ele assentiu, a colocando no chão e logo em seguida desafivelando o cinto e abaixando as calças.
Nada preparou Emma para o que venho em seguida. Absolutamente nada.
O tamanho dele pareceu ser um problema para ela, no início da noite, mas com certeza ele tinha um problema de tamanho que deve ter o perturbado por toda uma vida. Aonde ela imaginou que estaria um colosso, digno de intimidar Rocco Siffred em seu auge, estava um... micro pênis. Sim, era do tamanho de um mindinho, e não chegava nem a ser grosso.
Emma queria ter ficado horrorizada, porque talvez uma reação dessa fosse mais fácil de contornar. Mas um grunhindo escapou por sua garganta, e ela pressionou seus lábios um contra o outro para evitar que a gargalhada escapasse.
“O que foi isso? Você está rindo?” Ele questionou magoado. Felizmente ele parecia triste, pois ela não tinha a mínima ideia de como lidaria com um homem daquele tamanho se ele ficasse furioso em um espaço tão pequeno como aquele.
Foi irresponsável, mas a bebida não colaborou para que ela agisse de outra forma.
“Não, não estou.” Ela tentou mentir. Mas então ela olhou novamente para o p*u minúsculo, junto ao dono dele, e ela quase deixou escapar o riso novamente. Emma decidiu que o melhor era não olhar, então focou no rosto de Atom.
“Isso é um problema genético, sabia? Você, por um acaso, riria de um cadeirante?” Defendeu-se puxando as calças para cima.
Emma não aguentou e acabou rindo, mas automaticamente se sentiu culpada. Será que ele não poderia simplesmente calar a boca, ao invés de piorar tudo? Ela realmente não estava incomodada, estava mais... surpresa. Continuaria com as coisas, seria uma experiência interessante até, afinal, ele teria que compensar de outra forma.
Mas parecia que seu gigante estava muito, mas muito magoado, quase como se ele fosse chorar a qualquer momento.
“Querido, você não precisa se envergonhar...” Ela estava prestes a começar um discurso motivacional sobre aceitação, daqueles que Daisy costumava fazer sobre os corpos das mulheres, mesmo que ela fosse uma garota padrão. Emma iria mudar apenas a parte que se referia ao corpo feminino pela palavra pênis, e isso iria ser lindo e inspirador, mas antes que ela pudesse começar ele estava colocando a camisa e afastando-a para que pudesse sair.
“Ei, espere! Veja pelo lado bom, ao menos os pequenos não machucam!” Ela gritou da porta da cabine com a calcinha da mão.
Atom não ouviu, mas o resto das mulheres que estavam no banheiro sim, e elas a encaravam como se Emma fosse alguma maluca descabelada.
Ela sorriu sem graça e colocou sua roupa íntima, e aproveitou para retocar o batom também. Quando ela achou que estava minimamente aceitável novamente, saiu em busca das suas amigas. Ela não iria t*****r naquela noite, isso era certeza, então a única coisa que poderia fazer para não dar tudo como perdido era encher a cara.
Mas, aparentemente, aquele era um dos dias que coisas inusitadas estavam para acontecer, como uma espécie de lei de Murphy.
Enquanto se emaranhava entre as pessoas dançando, procurando suas amigas, ela as viu de longe. E elas pareciam estranhamente próximas, ainda mais pelo jeito que Madison estava se esfregando contra Daisy. Emma teria que chamar a polícia, os responsáveis pelo lugar deviam está colocando algo nas bebidas, nada disso poderia ser real.
“O que é isso?!” Perguntou com um sorriso no rosto.
Elas se afastaram, e Daisy tirou as mãos dos quadris de Madison como se estivesse queimando.
“Nada, só Daisy me ajudando a me livrar de um cara desagradável! E a sua f**a no banheiro, como foi?” Madison perguntou fazendo pouco caso do que estava acontecendo antes.
Elas tinham que praticamente gritar no ouvido uma da outra para que pudessem ouvir, e seria difícil explicar o que aconteceu. Então ela só disse “Quando chegarmos em casa eu conto tudo, mas garota, foi trágico.”
Emma engoliu toda a frustração que passou com bebida. Depois de trinta minutos, ela já não lembrava mais se havia pedido um Dry Martini, mas como o barman a estava servindo ela deduziu que realmente tivesse solicitado um. E depois de mais tequila e três Mojitos, ela tinha uma leve sensação que suas pernas eram feitas de gelatina.
Emma nunca ousaria se olhar no espelho. Às vezes em que ela usou o banheiro, simplesmente ignorou seu reflexo e apenas lavou as mãos. Ela não conseguiria continuar na festa se visse que sua aparência equivalia ao do coringa depois de uma semana no sanatório Arkham. Então ela seguiu sua vida como uma mulher destemida que ela achou que poderia ser por aquelas horas.
Madison e Daisy não estavam muito diferentes. Por mais que Daisy fosse o do tipo de pessoa que começava a ficar confusa quando bêbada, ela ainda entendia algumas coisas, ao menos o suficiente para ter um sorriso no rosto e achar que era uma boa ideia acatar as sugestões de Emma de beber o cardápio todo de drinks. Já Madison, entrava em um estágio de euforia que dava a energia sobre-humana para que ela não parasse de se mexer enquanto tivesse música tocando. Ela também ficava muito tagarela, o que não chocava pois sempre fora uma verdadeira borboleta social.
“Eu...” Emma tentou começar a falar, mas sua voz embolada não deixou que ela terminasse sua sentença. E segundos depois ela já não lembrava o que estava prestes a dizer, de qualquer maneira, então apenas começou a rir.
“Precisamos fazer isso... mais vezes.” Madison disse em meio a soluços. Ela estava assim desde que saiu da boate, e isso era um dos motivos da crise de riso de Emma.
Elas caminhavam se apoiando uma na outra, tentando achar um equilíbrio que as ajudassem a chegar a um ponto de ônibus para que, ironicamente, pudessem chamar um Uber. Ou até mesmo um táxi, já que ninguém estava sóbrio o suficiente para levar em consideração a revolta de Emma pela classe dos amarelos a sério.
Madison estava com os sapatos na mão, porque ao contrário de Emma, ela estava pouco se linchando para o que as pessoas iriam pensar, e sua saia estava torta. Daisy estava tão bêbada que não conseguia falar, e poucos minutos depois ela correu o mais rápido que suas pernas trôpegas permitiram e vomitou atrás de um poste.
“Meu Deus.” Emma disse ignorando os grunhidos da amiga, e tentando deixar sua visão menos turva para conseguir colocar o endereço de seu apartamento no aplicativo.
“Daisy, por favor... não morra... eu não conseguiria chamar a emergência... não sei onde deixei meu celular.” Madison avisou.
Daisy voltou para perto das amigas, limpando a boca com a própria camisa. Ela pareceu que iria cair, mas Madison, que estava ao lado, passou o braço pela cintura dela a dando algum apoio. Porque você pode sobreviver a uma noite de bebedeira, mas ninguém coloca as mãos nas ruas de Nova York e consegue sair ileso.
***
Emma não lembrava com exatidão como fora o caminho de volta. Qual exatamente era o carro ou a placa, mas antes de abrir os olhos ela já sentia o latejar de sua cabeça e péssimo gosto que sua boca tinha. Além de uma sede quase que agonizante. Ela gemeu abrindo os olhos, querendo castigar a si mesma pela sucessão de irresponsabilidades que foram os seus atos da noite passada.
Seu coração começou a bater com força em seu peito quando ela percebeu a presença de alguém ao seu lado. Mas foi tomada por uma onda de alivio quando notou que era só Madison com as roupas da noite anterior. Muito provavelmente elas haviam se ajudado a chegar lá, e acabaram desmaiando na primeira cama que encontraram. Nada que já não tenha acontecido antes, mas ela sempre tinha o receio de acabar dando de cara com um esquisito que ela não lembrava de ter dado permissão para toca-la. Se ela não lembrava, ela não poderia consentir, então a ideia de que algo assim acontecesse sempre a perturbava um pouco.
Seu alivio durou minutos. Apenas até o momento que ela olhou as horas no telefone.
Ela estava três horas atrasada.